A história da relação entre Square-Enix, Nintendo e Sony e como nasceu o Playstation

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A história da relação entre Square-Enix, Nintendo e Sony e como nasceu o Playstation

Olá, amigos, tudo bem? No artigo de hoje, nós vamos conversar sobre uma das relações mais conturbadas do mundinho dos video-joguinhos chamados de games: o triângulo amoroso-comercial entre Square-Enix, Nintendo e Sony.

Esse relato emocionante sobre abusos, traições, casamento, reencontros e jogos vendidos foi motivado pela mais recente E3 e o fato de que novos capítulos sobre essa história estão a caminho. Pelo menos é o que parece.

Então, no artigo de hoje, vamos descobrir como a Nintendo e a Square começaram a namorar, o que causou o rompimento dessa relação e como o PlayStation se tornou o maior video-game da sua geração por causa disso. Vamos lá?

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O começo da relação

A nossa história começa no longínquo ano de 1986, há 30 anos, quando a Squaresoft estava a beira da falência. Como seus jogos não estavam vendendo, o então game designer Hironobu Sagakuchi tinha a missão de desenvolver um último projeto que salvasse a empresa da morte certa.

Algo como a missão do Michael Jordan em Space Jam.

Inspirado no game mais popular da época, Dragon Quest da Enix (guardem o nome), Sagakuchi criou um JRPG nomeado Final Fantasy para o Nintendinho e o resto é história.

De lá para cá, a Squaresoft e a Nintendo se envolveram num bem sucedida relação comercial: a Square produzia seus RPGs, com especial atenção para Final Fantasy, a Nintendo distribuía os jogos e todos saiam felizes.

A situação estava tão boa que a Nintendo até “oficializou” esse casamento adquirindo uma parte das ações da Squaresoft.

Porém, se até mesmo Lineu e a Dona Nenê de A Grande Família ou Marge e Homer de Os Simpsons podem ter problemas no casamento, que esperança restava para Squaresoft e Nintendo? Não muita, lamento em dizer.

Os primeiros problemas surgem

Quem conhece a Nintendo hoje, com seu Wii U e seu amor por jogos inocentes e divertidos, pode até não imaginar que a empresa já foi uma das marcas mais arrogantes e dominantes do universo dos games.

Na época da transição entre o Super Nintendo e o Nintendo 64, a Casa do Mário tinha uma visão de mercado que queria impor sobre seus parceiros: além de vender os consoles, a empresa ainda lucraria com a venda dos cartuchos para as desenvolvedoras E uma % na venda de cada fita.

Assim, a Nintendo costumava ser uma parceira bem opressora para se fazer negócios – se é que dá para chamar uma relação dessas de parceria. E a Squaresoft sofria um pouco com isso.

O caldo nessa relação deu uma entornada legal em 1991. A Squaresoft estava produzindo o RPG Romancing Saga, que só veio a sair no Ocidente há pouco tempo, e pediu pra Nintendo autorização para usar cartuchos maiores, de 16 megas, pra dar aquela polida gostosa no jogo, tirar bugs e tal.

A Nintendo disse que não, a Square não poderia usar esses cartuchos (eles interferiam nesse nível nos negócios) e muito do jogo teve de ser cortado ou compactado para caber no cartucho padrão do SNES.

O problema é que em 1992, a Enix foi lá e lançou Dragon Quest V usando – adivinhem só – os tais cartuchos de 16 megas que a Nintendo tinha negado pra Squaresoft.

Só isso já dava pra dar aquele ataquezinho maroto no coração, aquela pontada dolorida, mas o bagulho fica pior: a Enix e a Squaresoft eram empresas rivais na época. Final Fantasy x Dragon Quest era uma treta tipo Mario x Sonic, Coca x Pepsi, Eleitores do Bolsonaro x Simples noções de lógica e decência.

Ou seja: a Nintendo negou os cartuchos pra Squaresoft e ainda deixou a principal rival usar os cartuchos para lançar o novo game da franquia rival da principal série da Squaresoft.

Apesar de ainda amigas, a relação entre as duas empresas ficou num clima “indireta na ceia de Natal” nesse momento.

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A Sony entra na jogada

Nesse clima de indiretinhas com a Squaresoft, a Nintendo planejava uma revolução nos games em segredo. A empresa japonesa se aliou a Sony, também do Japão, para o desenvolvimento do SNES-CD, um misto de console / add-on para o Super Nintendo que permitiria rodar jogos através de um CD.

O acordo entre as duas empresas foi firmado em 1988 e o anúncio oficial do projeto deveria rolar na CES (Consumer Eletronic Show) de 1991.

Porém, um pouco antes do anúncio na feira, o lendário presidente da Nintendo Hiroshi Yamauchi releu o contrato entre Nintendo e Sony e percebeu que aquele contrato dava total controle da Sony sobre os jogos que seriam lançados para o SNES-CD.

Exatamente o tipo de controle que a Nintendo estava acostumada a ter no Super Nintendo.

Como pimenta no tobinha dos outros é refresco, Yamauchi decidiu que não, não iria ceder o controle pra Sony e fechou um acordo SECRETO com a Philips para uma parceria de produção de uma máquina igualao SNES-CD, que posteriormente recebeu o nome de CD-i.

Ou seja: quando a CES 1991 chegou, todo mundo esperava que rolasse o anúncio de parceria Nintendo-Sony, mas a Nintendo foi lá e anunciou uma parceria com a Philips.

Traída, a Sony quase desmontou toda a sua divisão de games recém-montada e jogou seu projeto no lixo, mas decidiu mantê-lo e trabalhar nele como um console próprio.

Como, de novo, pimenta no toba dos outros é refresco, a Nintendo ficou brava e decidiu processar a Sony por causa disso, alegando quebra de contrato. A Corte Americana julgou o caso, mandou um “Sério? Cê vai dar dessas agora?” pra Nintendo e a Sony pôde anunciar publicamente o Sony Play Station, um console que teria portagem para os jogos do SNES.

Porém, em 1993, antes de lançar o Play Station, a Sony decidiu reformular tudo de novo e pensar no console como algo para uma nova geração. Abandonou os cartuchos do SNES, focou só nos CDs e decidiu que o video-game se chamaria PlayStation.

Meanwhile, back at the ranch…

Enquanto toda essa confusão acontecia, a Squaresoft estava trabalhando num jogo chamado Seiken Densetsu 2, que a gente conhece aqui no Ocidente como Secret of Mana.

O jogo seria lançado para o SNES CD-ROM e estava bem avançado quando caiu a bomba da parceria entre Nintendo-Philips.

Sem o SNES CD-ROM, a Squaresoft teve que pegar todo o trabalho feito em Seiken Densetsu 2 e jogar no lixo, refazendo tudo dessa vez para o Super Nintendo apenas.

Todos os gráficos, todos os áudios, todo o trabalho foi refeito porque a capacidade do SNES sem o CD era menor.

Pouco tempo depois, a Squaresoft resolveu se vingar um tico.

Uma das práticas mais comuns da Nintendo era a seguinte: as desenvolvedoras tinham que pagar em adiantado a produção dos cartuchos dos jogos para o SNES. Vamos dizer que você era uma desenvolvedora e queria lançar um jogo, então ia e pagava o preço de produção de 2 milhões de cartuchos, o que é bem caro.

Aí a Nintendo dava uma avaliada no seu jogo e decidia que ia produzir só 500 mil cartuchos (sim, eles podiam fazer isso – e faziam!). Eles te devolviam o equivalente a 1,5 milhão de cartucho e já era, você só ia vender 500 mil mesmo.

Sabendo que a Nintendo fazia isso, a Square resolveu encomendar só 700 mil cópias de um joguinho que eles tinham produzido, ao invés do tradicional 1 milhão de cópias que eles sempre encomendavam.

A Nintendo ficou putaça com essa “afronta” e o clima esquentou mais ainda entre as duas empresas.

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O rompimento e o sucesso do PlayStation

Pouco tempo tempos dessas tretas, Nintendo e Sony lançaram seus novos consoles no mercado – o Nintendo 64 e o PlayStation – além da SEGA também entrar na brincadeira com o Sega Saturn.

A concorrência entre os três consoles estava bem acirrada, mas lentamente a Nintendo começou a ficar para trás por causa de dois motivos simples:

  • Primeiro porque eles eram babacas até o último fio de cabelo, como já mencionado nesse artigo;
  • Segundo porque o N64 até tinha capacidades maiores que os concorrentes, mas o limite de armazenamento dos cartuchos era um empecilho enorme (para os desenvolvedores, era como pilotar uma Ferrari só por 5 minutos ou andar com um Fusca velho por 2 horas).

Assim, munida de franquias como Tomb Raider, Tekken e Crash Bandicoot, a Sony começava a ganhar vantagem e vender mais consoles, mas ainda faltava um título que fosse arrematador, destrutivo e que fizesse do PlayStation o console dominante na época.

Nesse meio tempo, a Squaresoft estava produzindo Super Mario RPG, que saiu em 1996 para o já velho Super Nintendo. O jogo, que deveria ser o símbolo da união entre as duas empresas, acabou se tornando um inferno com as interferências da Nintendo e o game chegou até mesmo a ser lançado sem a logo da Square – aliás, fun fact: a Nintendo nunca pôde fazer um Super Mario RPG 2 porque a Square tem parte dos direitos e teria de aprovar.

Foi nesse clima que a Sony abordou a Squaresoft. Mandou um “Ei, tudo bem? Vamos fazer negócios?”, levou a Square pra jantar e apresentou os benefícios do CD-Rom, que poderia suprir todos os sonhos da Square.

A empresa, na época, estava trabalhando num novo Final Fantasy e chegou a testar as potencialidades da Hardware Silicon Graphics, a engine do Nintendo 64, com resultados não muito satisfatórios (vide a imagem acima, confundida por muitos como algum tipo de Final Fantasy Perdido, mas que é apenas um teste da Square).

Vendo que a sua parceira estava sendo cantada por outra empresa, a Nintendo até tentou correr para salvar o relacionamento. Ela perguntou o que a Squaresoft e a Enix queriam para continuar desenvolvendo com o Nintendo 64 e começou a elaborar um add-on para o console chamado de 64DD, um disco com capacidade extra.

Porém, a Sony deu a cartada final: se ofereceu a pagar todo o desenvolvimento de Final Fantasy VII E os custos de distribuição inicial do jogo.

Com isso, a Squaresoft deu o pé na bunda definitivo na Nintendo e o resto, bem, o resto é história:  Final Fantasy VII saiu para o PlayStation, foi um dos maiores sucessos da história e enterrou precocemente o Nintendo 64 e o Sega Saturn, elevando o PlayStation a principal console da época.

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E hoje em dia, hein?

A Squaresoft e a Nintendo continuaram brigadas por muito tempo. Em 2002 elas encenaram um período de paz depois da aposentadoria de Hiroshi Yamauchi, com o relançamento de alguns Final Fantasys para plataformas da Nintendo.

Eventualmente, a Squaresoft se fundiu à Enix e nasceu a Square-Enix. Nessa época, Dragon Quest acabou saindo para alguns consoles da Nintendo e até mesmo o último jogo da franquia foi um exclusivo do Wii U.

Porém, nos últimos anos, a relação entre as duas empresas tem se afunilado. Cloud Strife, o protagonista de Final Fantasy VII, sairá como personagem jogável em Super Smash Bros. do Wii U, o que é algo histórico (afinal, FF VII é protagonista do rompimento entre as duas empresas).

Para completar, alguns rumores muito interessantes apontam para o lançamento do próximo Dragon Quest como título de lançamento do Nintendo NX (novo console da Nintendo) e também para a possibilidade do remake de Final Fantasy VII sair para o NX também.

Será que veremos um reencontro entre Square, Final Fantsy e Nintendo? Ou essa relação está estragada demais? Só o tempo vai dizer.

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Leandro de Barros

Campeão de Chess-Boxing por W.O. da minha rua, nerd de nascença, babaca por opção. Depois de muito analisar a sociedade moderna, só tenho uma coisa a dizer: með þýðandi? Veik!

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