Conheça a história dos bastidores do filme do Deadpool

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Conheça a história dos bastidores do filme do Deadpool

Há mais de 12 anos em desenvolvimento, finalmente o público pôde conferir o filme do Deadpool, o primeiro grande lançamento cinematográfico de 2016.

Causando barulho por onde passa, o longa coleciona expectadores e fãs apaixonados com a mesma velocidade que coleciona detratores – este que vos escreve, por exemplo, é um dos que não gostou do filme.

Porém, contudo e todavia, existe uma história muito interessante por trás do projeto, que você vai conhecer agora. Se continuar lendo esse texto, claro.

Senta que lá vem história...

Senta que lá vem história…

Tudo começou nos anos 2000…

A nossa história começa no final do Século XX, mais precisamente no ano 2000. A Marvel Entertainment vinha num momento complicado da sua existência: os quadrinhos não vendiam bem após uma briga entre a Marvel e os seus artistas (que deixaram a editora para fundar a Image Comics) e, o pior de tudo, a DC Comics dominava a cultura pop com a sua Liga da Justiça animada.

Para poder pagar as contas, a Marvel Entertainment apostou em Avi Arad, que se tornou CEO da recém-fundada Marvel Studios, e comercializou várias das propriedades intelectuais da Casa das Ideias alguns anos antes.

Pouco antes dos anos 2000, a Marvel já havia vendido os direitos cinematográficos dos X-Men, do Quarteto Fantástico, do Blade, do Homem-Aranha e do Incrível Hulk.

Como filmes e projetos cinematográficos com esses personagens já estavam à caminho, a Marvel Studios decidiu negociar outros personagens e acabou fechando um pacote com a Artisan Entertainment (via).

Esse acordo consistia no seguinte:

  • A Marvel forneceria 15 personagens/franquias para a Artisan, que bancaria toda a produção de filmes ou séries de TV desses personagens, além de toda a distribuição. A Marvel dividiria o comando criativo dessas franquias e ficaria com os lucros de produtos de merchandising.

Dentro desse pacote de 15 personagens que a Marvel comercializou com a Artisan estavam o Capitão América, o Thor (que viraria série de TV), o Punho de Ferro, o Pantera Negra (que teria Wesley Snipes como protagonista), o Homem-Formiga e… o Deadpool.

Ironicamente, o único filme da parceria Marvel-Artisan que acabou saindo foi um filme reboot do Justiceiro (em 2004), aproveitando o fato que as duas empresas já tinham feito o Justiceiro de 1989, com o Dolph Lundgren.

Como esse projeto não foi pra frente, a Casa das Ideias acabou negociando os personagens com outras empresas e manteve alguns pra si.

No meio do caminho tinha uma Fox, tinha uma Fox no meio do caminho

O filme do Deadpool com a Artisan nunca saiu do papel ou sequer entrou em desenvolvimento DE VERDADE, com o personagem voltando para a Fox. Em 2004, porém, a New Line Cinema, que produziu a Trilogia do Blade e tinha os direitos do Homem de Ferro, se interessou pelo Deadpool.

Para cuidar do longa, o estúdio contratou David Goyer para escrever o roteiro. Para quem não conhece o nome, Goyer escreveu toda a Trilogia Blade e Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D. antes de se tornar o queridinho da Warner com adaptações de super-heróis, co-escrevendo a Trilogia do Cavaleiro das Trevas, O Homem de Aço e a série de TV do Constantine.

Foi nesse momento também que Ryan Reynolds foi contratado para interpretar o Deadpool. Veja bem: o cara já está envolvido no projeto desde 2004, há 12 ANOS! Muito antes sequer do Deadpool fazer parte do Universo X-Men nos cinemas.

Por falar nisso…

filme do deadpool 02

Em 2005, a New Line Cinema colocou o filme do Deadpool em turnaround. Essa é uma expressão utilizada em Hollywood quando estúdios “penhoram” propriedades intelectuais. Funciona mais ou menos assim: o estúdio percebe que só gastou dinheiro com o desenvolvimento de um filme que não vai sair e quer se livrar dessa franquia sem perder dinheiro. Então, ela coloca a marca em turnaround para outros estúdios interessados – esses outros estúdios pagam o que o estúdio inicial gastou com o desenvolvimento do projeto + uns trocados de lucro e passam a comandar a propriedade intelectual.

Foi o que a 20th Century Fox fez. Aproveitando o fato de que o Deadpool era um mutante e ela não tinha seus direitos até aquele momento (lembrando que em 2005 a Fox surfava na onda dos mutantes, preparando o terceiro filme dos X-Men e já preparando uma série de spin-offs), o estúdio foi lá e arrebatou Deadpool.

Nessa época, a Fox tinha um projeto chamado “X-Men Origens”. A ideia era fazer uma série de filmes de origens dos mutantes mais famosos. O primeiro que ganharia esse spin-off seria o Wolverine, seguido do Magneto. Nomes como a Tempestade e o Professor Xavier também estavam cogitados para ganhar projetos dentro dessa série.

Em 2004, a Fox contratou David Benioff (que depois viria a criar a série de TV Game of Thrones para a HBO – BICHO, O MUNDO DÁ CADA VOLTA!) para escrever o roteiro de X-Men Origens: Wolverine. Com a recém-aquisição do Deadpool, o personagem foi inserido dentro do roteiro do longa em uma das suas muitas revisões e retrabalhos nas mãos de difrentes roteiristas.

O plano da Fox era o seguinte: apresentar o Gambit e o Deadpool em X-Men Origens: Wolverine e, em seguida, começar a produzir filmes dos dois personagens (via). Porém, X-Men Origens: Wolverine foi um fracasso de crítica.

Inicialmente, o longa estreou com muita força nas bilheterias, o que fez a Fox dar o “sinal verde” para que um projeto solo do Deadpool fosse produzido. Porém, com as primeiras reações do público chegando à rede e a resposta sendo negativa (tanto ao projeto, quanto ao Deadpool nele), algumas coisas mudaram dentro do estúdio.

A primeira mudança foi o fim do projeto X-Men Origens. Ao invés de um solo do Magneto, nós teríamos uma adaptação e acabamos ganhando X-Men: Primeira Classe. O resto é história.

A segunda mudança seria que o Deadpool do seu filme solo teria elementos dos quadrinhos que foram removidos no filme do Wolverine. Para isso, a produtora Laura Shuler Donner contratou os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick para escrever o roteiro do longa em janeiro de 2010. Esse roteiro acabou vazando logo depois na Internet, gerando uma resposta muito positiva dos fãs. Com esse apoio, a Fox liberou uma graninha para que os responsáveis gravassem um pequeno teste com uma cena do longa, enquanto a busca por um diretor começou.

O primeiro nome a entrar em negociação com a Fox foi Robert Rodriguez (Sin City, Machete), mas as conversas não foram pra frente. Logo depois, o nome do sueco Adam Berg surgiu na imprensa, mas eventualmente foi Tim Miller (especialista em efeitos visuais) que foi o contratado para fazer sua estreia como diretor.

Tudo parecia bem, só que… Watchmen foi um “fracasso financeiro”.

O filme que custou $130 milhões de dólares + custos de marketing e distribuição lucrou só $180 milhões de dólares nos cinemas e causou a queda de um monte de projetos de blockbusters para maiores de 18. Filmes como o novo Highlander, a adaptação de Bioshock e o próprio Deadpool encontraram resistência dos seus executivos, que não queriam investir milhões num filme que não desse retorno.

Assim, a Fox não tinha o interesse de financiar um Deadpool para maiores de idade, mas toparia bancar o projeto para o público adolescente. Por sua vez, tanto os roteiristas, produtores, diretor e até mesmo Ryan Reynolds não queria comprometer o personagem dessa forma – não depois dele ter sido comprometido em X-Men Origens: Wolverine.

Isso fez com que o longa ficasse na gelaradeira até…

Hackers fizeram o filme do Deadpool sair do papel

Em julho de 2014, a Internet recebeu aquele teste filmado em 2011/2012, com o próprio Ryan Reynolds, que a gente comentou acima. O teste foi feito com o ator usando uma roupa de captura de movimentos e os efeitos visuais todos criados pela Blur Studio.

Segundo o Escapist Magazine, o vazamento dessa cena de teste do filme do Deadpool foi causado por hackers, que conseguiram obter o material e divulgá-lo na Internet. Logo depois, a própria Blur Studio e seus funcionários divulgaram o material oficialmente na rede, tendo de retirá-lo pouco depois a pedido do diretor Tim Miller.

O “estrago”, porém, já estava feito. o público adorou o que viu e, em setembro de 2014, a Fox confirmou o início da produção do filme do Deadpool, com lançamento marcado para 2016. Antes do “Ok!”, porém, os roteiristas Reese e Wernick trabalharam em vários rascunhos diferentes – incluindo uma famigerada versão para menores de idade – mas não precisaram comprometer seu “conceito” do personagem, já que segundo eles mesmos, serca de 70% do rascunho inicial deles está no longa.

Deu tudo certo no final!

Deu tudo certo no final!

Ryan Reynolds, depois de passar mais de 10 anos esperando a chance de realmente fazer o filme do Deadpool, disse o seguinte sobre esse vazamento:

Se eu soubesse que causaria tudo isso, eu mesmo teria vazado a cena. Agora nós poderemos fazer o filme. Nós não teremos o orçamento que a maioria dos filmes de super-heróis tem, mas faremos o filme do jeito que queríamos fazer“.

O projeto ainda passou por alguns problemas de pré-produção (como um corte de $7 milhões de dólares depois das filmagens terem começado), mas eventualmente deu tudo certo e o longa está aí nos cinemas pra alegria da galera.

Que história incrível, hein? Por pouco não é mais vantagem fazer um filme sobre a história do filme do Deadpool do que o longa do Mercenário Tagarela em si. Valeu a pena essa espera toda?

Leandro de Barros

Campeão de Chess-Boxing por W.O. da minha rua, nerd de nascença, babaca por opção. Depois de muito analisar a sociedade moderna, só tenho uma coisa a dizer: með þýðandi? Veik!

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