Como George R.R. Martin idealizou Game of Thrones?

George R.R. Martin, autor de Game of Thrones

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Como George R.R. Martin idealizou Game of Thrones?

No último domingo, dia 24 de abril, a sexta temporada de Game of Thrones retornou às telinhas mundiais através da HBO. Pela primeira vez na história, acompanhamos eventos 100% inéditos, já que a série de TV já ultrapassou os livros de George R.R. Martin – mesmo com os produtores já afirmando que o seriado tomará um rumo próprio que será, provavelmente, diferente do rumo dos livros da saga As Crônicas de Gelo e Fogo.

Quem conhece George R.R. Martin e já se interessou pelo seu método de trabalho sabe que nem mesmo o próprio autor sabe precisamente como serão todos os detalhes dos próximos eventos dos livros d’As Crônicas de Gelo e Fogo, já que seus planos são sempre alterados. Por isso mesmo, é bem interessante dar uma olhada no passado e descobrir quais eram os objetivos dele quando tinha acabado de escrever As Crônicas de Gelo e Fogo.

Você sabia que, originalmente, a série teria apenas 3 livros e que (quase) tudo que você conhece dos eventos dos livros seria diferente? Vamos descobrir todas essas alterações a seguir!

(você pode conferir todas as páginas da carta nesse site!)

Arte do livro O Mundo de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, mostrando o embate entre Rhaegar Targaryen e Robert Baratheon

Os planos originais de George R.R. Martin para a trama de Game of Thrones

Você sabe o que é um outline de uma história? Quando um escritor quer apresentar sua história para alguém (normalmente um editor), ele apresenta um breve resumo dos acontecimentos da sua trama e suas intenções com a sua obra por escrito. Esse breve resumo chama-se outline.

Essa é uma prática comum em todos os meios de criação de histórias – quadrinhos, games, filmes, livros…

Quando George R.R. Martin procurava por uma editora para públicar A Game of Thrones, o primeiro livro do que viria a ser uma das sagas de literatura fantástica mais poderosas e influentes do mundo contemporâneo, ele também teve de produzir um outline desses e enviar para editoras.

Em fevereiro de 2015, a livraria Waterstones Books, uma tradicional livraria londrina, divulgou no Twitter fotos de uma carta escrita por George Martin para o seu falecido agente, Ralph Vicinanza, com o outline de As Crônicas de Gelo e Fogo – ou, pelo menos, o outline do que ele imaginava que seria a sua obra.

A carta foi escrita em outubro de 1993, incríveis 3 anos antes da publicação de Guerra dos Tronos nos EUA, mas já continha ali muito do que viria a consagrar a série – mas também muita coisa do que estava ali não existiu nas páginas depois.

George R.R. Martin começa sua carta apresentando a estrutura da sua saga: são três os principais eventos que vão mover As Crônicas de Gelo e Fogo (ou, pelo menos, eram 3 os motores da saga que ele imaginava há mais de 20 anos):

  • O conflito entre as casas Lannister e Stark, repleto de “trama, contra-ataque, ambição, assassinato e vingança, com o Trono de Ferro dos Sete Reinos sendo o prêmio final”;
  • A invasão Dothraki liderada por Daenerys Stomborn, que aconteceria no segundo livro e mexeria com o conflito civil em Westeros;
  • A invasão dos Outros vindos das terras de Além-da-Muralha, que marchariam para o Sul para exterminar tudo que existir.

Cada livro da trilogia inicialmente planejada pelo autor trabalharia com um desses conflitos, mas basta ligara TV para assistir Game of Thrones ou simplesmenter ler o primeiro livro para ver como as mudanças aconteceram.

Se anteriormente George R.R. Martin via o conflito entre Starks e Lannisters como uma versão fantástica da Guerra das Rosas, um conflito civil que aconteceu no Século XV e ocorreu entre as casas de York e Lancaster, fica óbvio que essa recriação serviu de base para a costura de uma trama ainda mais complexa envolvendo cinco reis, várias casas e muitas nuances de cinza – os Greyjoy, Martell ou os Tyrell, por exemplo, nem mencionados são.

A invasão Dothraki nunca aconteceu e Daenerys acabou reunindo um exército muito maior, alterando quase que completamente a sua linha de acontecimentos. A última Targaryen conquistou cidades longínquas, se tornou Rainha e enfrenta obstáculos poderosos – porém, a ameaça de sua invasão continua existindo.

Já o confronto contra os Outros é, aparentemente, a única trama intocável, já que eles continuam ameaçando no Norte da Muralha – embora, nos livros, essa ameaça ainda esteja mais sutil do que na série de TV.

Dothrakis invadindo

Mortes diferentes e  romances insólitos

Como não poderia deixar de ser, George R.R. Martin já dizia nessa carta que manteria o padrão de acontecimentos que fez com que As Crônicas de Gelo e Fogo se tornassem tão emocionantes para os seus leitores: mortes e muito drama no conflito entre os personagens.

Segundo George Martin, são cinco os personagens centrais na sua obra (pelo menos como ele idealizava no passado): Bran e Arya Stark, Tyrion Lannister, Daenerys Targaryen e Jon Snow. Quem leu os livros sabe que esses 5 nomes realmente lideram os acontecimentos da história – apesar de outros personagens como Sansa Stark, Theon Greyjoy, Jaime Lannister e até mesmo Sam Tarly, da Patrulha da Noite, terem suas doses de protagonismo em diferentes momentos.

Com o foco nos cinco nomes citados acima, o autor formula quase toda a carta ao redor deles. Bran Stark é um dos que sofreu menos alterações na história até aqui: ele realmente se volta para a magia ao descobrir que não pode mais andar e vai para o Norte – mas a diferença é que vai acompanhado de sua mãe e de Arya Stark.

Arya, aliás, é quem tem a maior quantidade de mudanças na história. Toda a sua jornada desde a morte de Ned até a sua chegada na misteriosa Ilha de Braavos foi totalmente re-imaginada por George Martin com o tempo: inicialmente ela conseguiria escapar de Porto Real, voltar para Winterfell e ir até a Muralha com a mãe e o irmão.

Jon, por sua vez, também sofreu poucas mudanças: ele permanece na Muralha e se torna sucessor do seu tio como o Comandante da Patrulha da Noite (sim, na época Benjen Stark seria o líder da Patrulha). Não há menção de suas desventuras com os selvagens, então dá pra imaginar que George Martin só pensou nessa linha de história depois.

Daenerys também sofreu muitas alterações na sua jornada imaginada inicialmente. Ao invés da história de amor com Khal Drogo, Dany viveria momentos de terror com o marido, chegando a fugir dele após a morte de seu irmão – só para achar ovos de dragão, que garantiriam à ela o direito deseu próprio khalasar e a sua invação à Westeros.

Já em Tyrion temos as mudanças mais interessantes. Inicialmente, no lado da sua família da guerra entre Lannisters e Starks, Tyrion ajudará a família a ser vitoriosa ao derrotar Robb Stark em batalha ao lado de seu irmão (fica subentendido que Tyrion age como um estrategista e o irmão como o guerreiro que derrota Robb). Depois disso, Tyrion ainda se torna o responsável por sitiar e queimar Winterfell, colocando os Starks sobreviventes para fugir.

Porém, um pouco após a morte de Joffrey Baratheon pelas mãos de Robb Stark (sim, a tão desejada vingança pela morte de Ned viria!), Jaime Lannister começaria seu plano para assumir o trono: se vingaria de Robb e mataria todos os outros a sua frente na linha sucessória, colocando a culpa pelos asssassinatos em Tyrion (e pensar que ele foi o único que acreditou na inocência do irmão quando o acusaram injustamente na versão final do livro…).

Exilado, Tyrion iria procurar abrigo com os Starks para ajudá-los a derrotar Jaime Lannister – porém, ele acabaria se apaixonando perdidamente por Arya Stark. Pior: Arya teria se apaixonado por Jon Snow, que corresponderia a esse amor, mas viveria no conflito de ser um homem da Patrulha da Noite além de irmão de Arya, causando um complexo e confuso triângulo amoroso.

O parentesco entre Arya e Jon seria algo que atormentaria os dois por toda a trilogia, até que a verdadeira identidade de Jon Snow (que os fãs acreditam estar relacionada a Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark).

Que loucura, não é mesmo? Essa é a grande prova de como um planejamento intrínseco de cada detalhe da obra não é segredo infalível de sucesso. As Crônicas de Gelo e Fogo se beneficiaram muito de tantas mudanças e da liberdade de Martin de deixar a história fluir seu ritmo.

Agora é aguardar por cenas dos próximos capítulos e ver se algumas dessas ideias serão reaproveitadas por George R.R. Martin.

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Leandro de Barros

Campeão de Chess-Boxing por W.O. da minha rua, nerd de nascença, babaca por opção. Depois de muito analisar a sociedade moderna, só tenho uma coisa a dizer: með þýðandi? Veik!

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