Cinderela | Crítica

[leftbox]O grande sucesso de Alice no País das Maravilhas dirigido por Tim Burton em 2010 mostrou a Disney uma possível nova oportunidade lucrativa: criar releituras em live actions de suas animações clássicas. Veio então, Malévola, com Angelina Jolie, baseado no clássico “A Bela Adormecida”, que fez enorme sucesso de bilheteria no ano passado.

Se não colocarmos animação como filtro, é possível encaixar Oz – Mágico e Poderoso, com James Franco no meio dessa lista. Embora não feito tanto sucesso mundialmente, o prequel de “O mágico do Oz” obteve ótimo retorno entre os americanos. Cinderela é a mais nova empreitada desta “franquia não oficial”.

Antes de mais nada uma nota bastante pessoal: Embora este que vos escreve seja uma apaixonado por animações da Disney, ele não tem forte conexão emocional com nenhuma que veio antes de “O Rei Leão”. Cresci junto com a Pixar e a maioria das animações tradicionais dos anos 90 e, se assisti aos filmes de princesa que marcaram tantas pessoas, devo tê-los apagado completamente da memória. Não por tê-los achados ruins, mas provavelmente porque os assisti (se assisti mesmo) muito no início da infância. Não estivesse a história Cinderela tão enraizada em nossa cultura, eu teria entrado para a sessão sem saber nada sobre este conto de fadas.[/leftbox]

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Pois bem…

cinderela-critica-04[rightbox]Dirigido por Kenneth Branngh (“Thor”) e escrito por Chris Weitz (“A Bússola de Ouro”), Cinderela apresenta a jovem e gentil Ella (Lily James), que depois da morte inesperada do pai que tanto ama, se vê obrigada a conviver sob os abusos de sua cruel madrasta (Kate Blanchet) e suas duas filhas irritantes. Impedida por elas de ir ao baile real convocada pelo príncipe Kit (Richard Madden) que conhecera por acaso na floresta, a sorte de Ella começa a mudar quando ela encontra sua Fada Madrinha (Helena Boham Carter).

Sem medo de ser feliz, o filme já inicia com um claro tom de fábula dos mais tradicionais, algo que percorrerá toda a narrativa de forma tal que cria-se uma sensação realmente mágica e de encantamento. Várias vezes me senti como se estivesse vendo uma animação com todas as concessões que ela permite e deslumbres que ela gera. É uma pena porém, que a direção de Branngh não apoie essa sensação.

O diretor filma de forma pouco criativa, faz algumas transições desajeitadas, não patina muito bem entre tomadas com óbvios efeitos digitais e em vários momentos filma de maneira confusa e às vezes irritante. Como exemplos, temos a cena em que Cinderela conhece o príncipe Kit na floresta. Note como a câmera gira de forma intrusiva ao redor dos atores que também estão em movimentos circulares na encenação. Acaba sendo um recurso que distrai o espectador e quase tira a força da cena. Em outro momento, na cena em que Cinderela tenta encontrar o príncipe Kit no baile, note como Branngh se perde nas linhas dos olhares e mal entendemos onde estão localizados cada personagem no espaço.

Em um filme cujo design de produção oferece tanta beleza, espaço e oportunidade é uma pena que Branngh o desperdice com uma direção quase “cara crachá”.[/rightbox]

[leftbox]Outro ponto fraco é o excesso do velho e famigerado recurso da narração em off. Se pareceu apropriado ao iniciar o filme com um off que diz “era uma vez…”, o recurso se torna redundante e enfadonho ao longo do filme já que a voz onipresente volta constantemente para, ou informar algo que já estamos vendo ou sentindo através da imagem, ou para adiantar pontos da história que o filme não cobre muito bem.

cinderela-critica-03A compensação vem por parte dos atores. Nenhum deles entrega uma performance incrível mas todos estão muito bem e são eles que enchem o filme com essa vida e magia que descrevi acima.

A Lily James (da série Downtown Abbey) está adorável como Ella e não é difícil sentir pela moça quando esta sofre tanto pelas mãos de sua madrasta, vivida por uma maliciosa Kate Blanchet, que está divertida na maior parte do tempo em sua personagem caricata.

O príncipe Kit (O Robb de Game of Thrones) faz o típico galã e realiza a maioria das suas cenas com um sorriso estampado no rosto mesmo quando o momento nem parece pedir, uma composição meio esquisita, mas que torna o rapaz extremamente simpático e feliz, portanto o “par perfeito” para Ella, que também tem o espírito tão forte mesmo diante das adversidades.

Já as irmãs Drisella e Anastacia maltratam Cinderella e espectador já que a maioria de seus momentos são de piadas sem graça com exceção, talvez, de um divertido momento em que elas demonstram seu talento artístico.

Há também participação constante de Stellan Skarsgarkd (aquele cara que sempre faz cenas tontas nos filmes da Marvel) e Nonso Anozie (esse cara é gigante!) mas nada de marcante.

Me surpreendi ao saber como a magia de fato é colocada na história. A Fada Madrinha (Helena Boham Carter, sendo estranha como sempre) aparece do nada e faz uma série de mágicas para a protagonista sem pedir algo em troca. A tentação é chamar isso de deus ex machina, mas provavelmente este é um elemento essencial da história original que o roteirista Weitz não quis modificar. Além disso, o tom da narrativa permite esse tipo de intervenção sem que façamos muitos questionamentos.[/leftbox]

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A pincelada final da atmosfera de contos de fada é dada por Patrick Doyle que compõe uma música melodramática que pontualmente soará intrusa, mas na maior parte do tempo está apenas cumprindo sua função de extrair o máximo de emoção possível, especialmente dos momentos mágicos e de consagração.

Por fim, apesar dos deslizes técnicos e de narrativa, Cinderela ainda é um filme com bastante energia e coração. Repassa mais uma vez a boa e velha lição de que o amor deve estar acima das suas origens e que é preciso ser generoso sempre, mesmo nas situações mais difíceis. Certamente deve agradar a quem gosta de contos de fadas, e, a julgar pelo enorme sucesso que está fazendo desde seu lançamento e com versões de “A Bela e a Fera” e “Mogli – O Menino Lobo” já agendadas, espere muito mais adaptações da Disney neste estilo.

PS: Antes do filme, o curta metragem “Frozen – Uma febre congelante” é exibido. É apenas legalzinho valendo mais para rever os queridos personagens da animação que fez gigante sucesso de bilheteria ano passado.

NOTA: