Jurassic World | CRÍTICA

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Jurassic World | CRÍTICA

Tenho certeza de que o Jurassic Park dirigido por Steven Spielberg explodiu a mente das pessoas em 1993. Até ali, o mundo jamais vira dinossauros com aquele nível de fotorrealidade e não por menos o deslumbre gerado por aquele filme certamente marcou a vida de muita gente.

Passado mais de 20 anos de lá pra cá, o cinema de entretenimento de Hollywood deu uma mudada. Os efeitos inovadores daquele filme só fizeram avançar, naturalmente, com o passar do tempo e cada vez mais os filmes passaram a empregar a computação gráfica para criar criaturas e mundos antes impossíveis de serem postos em prática.

Uma consequência negativa disso é que vem sendo cada vez mais difícil engajar o público mais distraído de hoje com um filme de 2 horas sem que seja necessário jogar toneladas de ação absurda e descerebrada modelada por computação gráfica. Parece que boa parte dos cineastas que fazem blockbusters deixaram de lado o poder da narrativa e passaram a focar mais no impressionável dos “maior”, “melhor”, mais “épico”, mais “foda”.

Jurassic World Crítica

Como então, Jurassic World poderia encantar o mundo com dinossauros de novo, agora que as pessoas já estão mais sedadas após anos e anos de criaturas extraordinárias fazendo “megalomanices” cada vez maiores e não se transformar em mais um blockbuster genérico do verão americano?

Jurassic World parece seguir este caminho fácil da “sem-gracice” que se tornou habitual. E não me refiro apenas a computação gráfica mas também ao roteiro mais mastigável e bobo – outra característica recorrente do que se faz presente neste tipo de cinema hoje. Os personagens são todos rasos e suas motivações pouco desenvolvidas de forma que o se vê são apenas receptáculos de clichês muito bem conhecidos.

O lance é que Jurassic World é tão isso, é tão assim que não demora muito para você começar a se perguntar se o filme não está no fim das contas fazendo justamente um comentário, crítica ou paródia desse tipo de filme espetaculoso e bobo.

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Existem alguns pontos que corroboram com minha suspeita:

► O Indominous Rex, o grande monstrão deste filme é um dinossauro geneticamente modificado para ficar mais impressionante em todos os aspectos, já que os visitantes estão interessados em uma nova atração (sacou?);

► O personagem de Irrfan Khan, Masrani, um milionário que financia o parque e pilota muito mal helicópteros, protagoniza um momento que os lembrará do saudoso presidente Thomas Whitmore, personagem de Bill Pullman em Independence Day. Só para citar apenas um de seus momentos;

► O nível de estupidez da segurança e dos personagens que fazem a segurança do parque ultrapassa o limite de qualquer suspensão da descrença;

► Os personagens de Chris Pratt, Owen, e o da Bryce Dallas Howard, Claire, são tão sexualizados que só pode ser zoeira. Enquanto Owen é o macho alfa em todos os sentidos, o arco de Claire consiste em começar o filme limpa, bem vestida e tapada e terminar suja, rasgada, suada e… tapada. Além disso, os conhecimentos que a moça demonstra sobre as criaturas torna risível o fato dela ser a gerente daquele parque;

► Owen tem uma cambada de Velociraptors treinados que irão interagir amigavelmente com ele. Então vai ter Chris Pratt e seus amigos raptors sim, e se reclamar vai ter raptors fazendo outros tipos de amizade, mas vou parando por aqui. Só pra fechar, chega uma hora que achei que os Raptores iriam falar;

► Tem ainda o Hoskins que interpreta um funcionário da InGen que quer usar os Raptores como arma de guerra. E se Vincent D’Onoffrio construíra um dos melhores vilões do ano até então na série Demolidor, neste filme ele entrega um dos piores, graças à sua motivação superficial e seus diálogos horríveis;

SPOILER neste ponto: a única cena em que notei um uso óbvio de animatronic (dinossauros mecânicos ao invés de modelos em computação gráfica) é a cena da morte de um dinossauro. (sacou?);

► Minha gente, o clímax. Apenas assistam.

Diante de tanta merdagem (e só citei algumas) é muito fácil, especialmente sendo fanboy do filme original, achar Jurassic World um filme para lá de ruim. Mas o filme parece ter consciência disso ao dar a impressão de que está, na verdade, reafirmando estes problemas e clichês e parece chutar o pau da barraca transformando tudo em basicamente uma “grande” e “épica” correria com dinossauros comendo gente e se digladiando entre si enquanto outros personagens fazem piadas bobas ou vão passando por situações absurdas. É quase como se o diretor Colin Treveorrow estivesse dizendo “é isso que vocês povão, querem? Então segura aí! Agora segura cum força!

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Assistindo por esse ponto de vista, até mesmo os dinos CGI meio fake – que, a exceção do Indominous, parecem grandes montes de cocô cinzento não importando a espécie, e a direção de câmera pra lá de genérica de Trevorrow, acabam acrescentando a narrativa. E com isso, se você for de boa, é possível curtir e se divertir com o filme, como uma muito descerebrada aventura que realmente parece não se levar a sério já que o que parece ser problema na verdade pode ser visto como uma tiração de onda.

O filme é longo (2h20) mas tem bom ritmo e nível de incredulidade de várias cenas manterão você aceso (leia-se rindo) até o final.

Eu não tenho como afirmar se esse lado zoeiro é proposital. Sai do cinema bastante cético com relação a isso na verdade mesmo com as suspeitas, mas a conversa com um colega pós sessão mais o tempo pensando no filme na viagem de volta para casa me fizeram acreditar mais nisso. De toda forma, intencional ou não, o filme agora é meu e do mundo e não mais do Treverrow como se diz. Então, é uma leitura válida e uma que me fez apreciar o filme.

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Agora, se não entrar nessa onda e estiver muito apegado ao lado um tanto quanto mais sério e sci-fi do original então prepara-se para desejar que todos os realizadores deste filme sejam extintos. Por mais que o filme apele para nostalgia – usando muito mais do que cameos e easter eggs e a trilha original de John Willams, Jurassic World não se parecerá em com nada a não ser como uma cópia alternativa, genérica e piorada do filme original caso o parque estivesse aberto para o público.

 

NOTA:

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Acaba de se graduar em Cinema. Busca se especializar em direção de fotografia para filme, área em que atua de forma independente. Antes disso porém, estudou Star Wars no ensino médio, graduou-se em Harry Potter e fez pós em O Senhor dos Anéis. Ama: filmes de ficção científica, chocolate, filmes de Spielberg, viajar, passear por paisagens naturais e lugares altos, fotografar animais e celebrar com os amigos.

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