Faroeste Caboclo | Crítica

Cinema

Faroeste Caboclo | Crítica

Faroeste Caboclo é uma daquelas músicas que desperta paixões: ou você adora ou odeia com todas as forças (assim como a própria Legião Urbana).

Lançada em 1987, a música tinha tudo para não tocar no rádio. Era longa (nove minutos), não tinha refrão e contava uma história com começo, meio e fim. E que história. Mas tocou no rádio e fez um sucesso gigante.

Quem não imaginou seu próprio filme ao escutar os versos que contavam a saga de João de Santo Cristo, que só queria falar pro presidente prá ajudar toda essa gente que só faz sofrer?

Eu mesmo comecei, uma vez, a fazer uma história em quadrinhos baseada na letra da música. E na minha cabeça, a história tinha um ar de faroeste mesmo – apesar de se passar em Brasília, os personagens andavam com armas na cintura e usavam chapéu de cowboy. 😀

Aposto que o René Sampaio também visualizava as imagens quando escutava a música. E aí ele se tornou cineasta e tocou a idéia prá frente.

O resultado é Faroeste Caboclo (Brasil, 2012, 105 minutos, drama), que tem roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein. O filme dirigido pelo René adapta a música de Renato Russo e se sai bem na empreitada.

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Claro que uma história contada em 168 versos e com nove minutos de duração não funcionaria no cinema – para isso, alguns elementos tinham que ser acrescentados, como a origem do protagonista, João de Santo Cristo, que é mostrado ainda criança, sofrendo com a seca nordestina junto à sua mãe. Há uma passagem de tempo e o vemos já adulto, deixando a terra seca em busca de uma nova vida. Antes, ele vinga o seu pai e por isso vai pro inferno pela primeira vez.

Sampaio fez escolhas para adaptar e uma delas é a ausência do lado mais ideológico da canção. Porém, outros males nacionais continuam presentes, como corrupção, drogas, violência e preconceito – e eles são mostrados de maneira crua, sem maquiagens.

Cesar-Trancoso-e-Fabricio-BoliveiraA trama segue, basicamente, a música: João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira, excelente) chega à Brasília à procura do seu primo Pablo (César Troncoso), que vende maconha para os jovens da classe média da cidade. Ele consegue emprego numa marcenaria e demonstra habilidade com a madeira, mas termina acumulando essa função com a venda de drogas. Logo na primeira ação dele como vendedor, é perseguido pela polícia e se esconde no quarto de Maria Lúcia (Ísis Valverde), filha de um senador (Marcos Paulo) e estudante de Arquitetura. Os dois começam um romance a partir daí.

É esse romance proibido entre a mocinha burguesa e o retirante analfabeto que dá o tom do filme. O conflito surge quando entra em cena Jeremias (Felipe Abib), o maconheiro sem-vergonha que organizou a rockonha e fez todo mundo dançar. O tio de Jeremias (Antonio Calloni) é um policial corrupto que também entra na história para enfrentar o João, que começa a ganhar dinheiro quando decide plantar maconha de melhor qualidade (pois a que Jeremias vendia era uma merda). Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:Tem bagulho bom aí!”. Os negócios decolam e uma guerra entre João e Jeremias começa, com consequências trágicas para o herói.

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O filme também dá um motivo para Maria Lúcia ficar com Jeremias, que faz um filho nela. O final da história todo mundo sabe e René Sampaio a manteve, apesar de algumas diferenças em relação à música. Todos os atores principais estão bem e confesso que Ísis Valverde me surpreendeu – sua interpretação não é assim “ohhhhhh”, mas honesta e dedicada. Mas o grande destaque do filme é Fabrício Boliveira, que nos dá um Santo Cristo cru, trágico.

O filme tem uma boa direção de arte e fotografia. E em algumas cenas vemos (na penumbra ou desfocados) e ouvimos bandas como Legião Urbana e Plebe Rude tocando ao vivo. Apesar de se tornar lento em alguns momentos, Faroeste Caboclo é uma boa adaptação da música de Renato Russo e que respeita a essência da história e do personagem.

Nota: 8,0

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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