CRÍTICA | Guardiões da Galáxia: todos somos Groot!

Cinema

CRÍTICA | Guardiões da Galáxia: todos somos Groot!

Quando o primeiro X-Men estreou nos cinemas em 2000, os filmes baseados em quadrinhos de super-heróis estavam em baixa, resultado do idiota Batman e Robin (Joel Schumacher, 1997). Com o sucesso dos mutantes, Hollywood viu que aquilo era bom e uma sequência de adaptações invadiu as telonas.

No entanto, a bola da vez era o pé no realismo e a seriedade – nada de uniformes coloridos, nada de muito exagero na ação.

Quando a Marvel entrou no jogo, só tinha em mãos personagens desconhecidos do grande público (com exceção do Hulk). Mas apostou alto, criou um universo interligado e nos deu um dos melhores filmes de quadrinhos de todos os tempos, se levarmos em conta o espírito aventureiro de uma história com super-heróis: Os Vingadores!

Quando foi anunciado que o estúdio ia produzir um filme com o grupo Guardiões da Galáxia, todo mundo perguntou: “Quem?

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A aposta foi alta e os riscos também. Será que o estúdio conseguiria emplacar um filme com personagens totalmente desconhecidos (até de alguns leitores de quadrinhos) confiando apenas na sua marca?

Pois bem, eles conseguiram de novo. Seis anos depois do Homem de Ferro, o Marvel Studios lançou um filme que se passa em uma galáxia muito, muito distante e que é protagonizado por um grupo disfuncional que tem entre seus integrantes um ent do espaço uma árvore viva e um… GUAXINIM!!!!

Guardiões da Galáxia (James Gunn, 2014) já é um sucesso absurdo de público e crítica com seu jeitão de filme pipoca dos anos 1980 e abre novas possibilidades para a Casa das Idéias brincar com seu universo cinematográfico.

A história é simples:

Peter Quill (Chris Pratt) é um terráqueo que foi abduzido ainda criança em 1988, logo após a morte de sua mãe. 26 anos depois, se tornou um lendário (quer dizer, marromenos) mercenário espacial que se autointitula O Senhor das Estrelas.

Quill trabalha para Yondu (Michael Rooker), que o envia atrás do artefato esférico conhecido como Orbe. Só que outros personagens estão em busca do Orbe: Thanos (Josh Brolin), o Titã Louco que deseja dominar a galáxia; e Ronan, o Acusador (Lee Pace), um alienígena da raça Kree que se alia a Thanos e que pretende destruir o planeta Xandar (embora seja cheio de segundas intenções).

Quando Quill escapa com o Orbe, outros personagens entram em cena: Gamora (Zoe Saldana), filha adotiva de Thanos que deseja se redimir de seus pecados e adquirir o artefato para garantir a sobrevivência da galáxia; e os caçadores de recompensa Rocket Racoon, um guaxinim falante e esquentado que é resultado de experimentos genéticos e seu amigo Groot, um alienígena da raça de árvores humanóides inteligentes e que se movem.

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Todos vão parar na prisão e lá conhecem Drax, o Destruidor (Dave Bautista), que perdeu sua família por causa do maluco do Ronan e planeja assassiná-lo.

Esses cinco personagens terminam se unindo, embora cada um tenha um objetivo distinto. E a partir dessa união surge uma inusitada amizade que irá definir o destino da galáxia.

Quem prestou atenção na cena pós-créditos de Thor O Mundo Sombrio já tinha percebido que a Marvel ia chutar pro alto todo tipo de “realismo”. O Lulu Santos do espaço, também conhecido como Colecionador (Benicio Del Toro), arrancou risos da platéia assim que surgiu em cena. O cenário, a iluminação, o figurino… tudo muito kitsch, afetado, exagerado. E divertido!

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O roteiro, escrito por James Gunn e pela novata Nicole Perlman (que está envolvida com o roteiro do filme solo da Viúva Negra), transita entre o humor e o drama, com mais ênfase no primeiro. Isso não é um problema já que o filme não se leva a sério em momento algum – e isso é uma qualidade, acredite. A maneira como os personagens são apresentados e interagem até se tornarem um grupo flui tão naturalmente que quando menos se espera já estamos torcendo por eles, se importando com o destino de cada um.

O design de produção é deslumbrante e consegue transmitir toda a grandiosidade do universo cósmico da Marvel. As sequências que mostram os planetas onde se passa a trama lembra as páginas de quadrinhos feitas por Jack Kirby – não é um espaço negro com alguns pontinhos de luz, ele é cheio de movimento, cores e profundidade. Do pós-apocalíptico planeta de abertura ao iluminado e limpo planeta Xandar, passando pelo lugar chamado de LugarNenhum (que nada mais é do que a cabeça decepada de um Celestial!!!!!!), o filme é de encher os olhos, auxiliado pela belíssima fotografia de Ben Davis (que trabalhou em Kick-Ass).

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Um dos maiores destaques do longa é a trilha sonora, repleta de músicas dos anos 80 que tocam em momentos marcantes da história. As músicas fazem parte de uma fita k7 (Awesome Mix vol. 1) que Peter Quill carregava quando foi abduzido e não estão lá gratuitamente – todas tem importancia e complementam a narrativa. E é por meio delas que descobrimos a importância do lendário Kevin Bacon para a cultura da Terra!

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E as atuações?

Bem, o Peter Quill de Chris Pratt é bem diferente do Peter Quill dos quadrinhos – lá, ele é mais centrado e menos engraçado. No entanto, como é um personagem desconhecido, essa mudança de personalidade caiu bem para dar o tom do filme. E Pratt consegue transmitir o cinismo do personagem com perfeição. Zoe Saldana está ok no papel de Gamora – embora eu ache que faltou ela mostrar mais ferocidade para que a alcunha de “mulher mais perigosa da galáxia” se justificasse.

Dave Bautista não é um ator, mas eu gostei dele interpretando Drax, principalmente porque o personagem não exige muito. Por ser bastante literal, a incapacidade dele em entender metáforas rende boas e divertidas cenas e casa bem com as limitações do ex-lutador de MMA.

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O vilão da vez, Ronan, o Acusador, é visualmente bem fiel aos quadrinhos e extremamente cruel. E dos vilões da Marvel mostrados até agora, ele foi o que mais transmitiu a sensação de perigo – depois de Loki, claro.

Mas os grandes personagens dos Guardiões da Galáxia são o guaxinim Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper) e a árvore viva Groot (voz de Vin Diesel). Apesar de serem criados totalmente em CGI, a dupla de caçadores de recompensas é a alma do grupo e do filme e transmite um realismo surpreendente. Estrategista desbocado e violento, o guaxinim é resultado de experimentos genéticos que o transformaram em uma criatura única que tem lá seus traumas e se sente sozinho. Groot só diz uma frase o tempo todo – “Eu sou Groot” – mas as entonações diferentes tornam suas falas compreensíveis até certo ponto.

A ligação com o universo cinematográfico da Marvel se faz presente na trama do Orbe, que é uma das Jóias do Infinito – as outras são o Tesseract que apareceu nos Vingadores e o Éter de Thor o Mundo Sombrio. Essas jóias, quando reunidas, conferem ao ser que as possuir um poder capaz de destruir galáxias inteiras – e é esse o desejo de Thanos. Ainda faltam três jóias e essa busca pelo poder vai desembocar na grande (e aguardada) aventura que fechará a Fase 3 da Marvel no filme Os Vingadores 3 – onde esperamos ver todo esse povo reunido!

Além disso, existem diversos easter-eggs, principalmente na sala do Colecionador – desde os que fazem referências aos filmes anteriores do estúdio aqueles que citam personagens cósmicos que poderão surgir no futuro.

Com Guardiões da Galáxia a Marvel manda os seguintes recados:

► Tem controle total de seu universo e seus personagens; nem só de realismo e heróis sombrios se vive; sabe o que está fazendo e onde quer chegar; não existe personagem difícil e sim falta de coragem para dar vida a eles.

► GdG É um dos filmes mais divertidos do ano e que nos dá exatamente aquilo que prometeu desde o começo: as aventuras de uma turminha do barulho aprontando altas confusões no espaço sideral para defender a galáxia de um terrível vilão! Aprende, Michael Bay!

► Num cenário onde a principal concorrente da Marvel fica pisando em ovos para fazer um filme da Mulher-Maravilha com o argumento de que ela é um personagem difícil, a Casa das Idéias solta uma produção cujo melhores personagens são um guaxinim carregando um trabuco e uma árvore humanóide carismática que conquistam a todos – de leitores de quadrinhos a espectadores comuns!

Parabéns a Marvel, mais uma vez.

E que venham os Inumanos!

Ah, mas e a cena pós-créditos?

Para quem não é um leitor de quadrinhos hard, ela é totalmente indecifrável e dispensável. Na verdade, a cena serve mais como uma homenagem a um dos personagens mais inusitados da Marvel e a seus criadores. Mas eu ri muito! Mas não contaremos aqui 😉 Lembre-se, tem uma cena logo quando acaba e essa no final. 

Nota: cinco canecas de cappuccino italiano! 

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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