Mulher-Maravilha é a redenção do Universo DC no cinema

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Mulher-Maravilha é a redenção do Universo DC no cinema

Mulher-Maravilha é a redenção do Universo DC no cinema

Diferente da Marvel Comics, que para evitar a falência vendeu os direitos de seus principais personagens para diversos estúdios cinematográficos, a DC Comics sempre esteve numa posição confortável por fazer parte da Warner Brothers. Ou seja, o estúdio tinha em suas mãos TODOS os personagens da editora para usar como quisesse.

Tirando um desvio aqui e ali, a Warner optou por focar nos seus dois principais heróis: Batman e Superman. Do morcego são sete filmes solo até aqui (quer dizer, seis porque Batman & Robin de Joel Schumacher não é um filme) e o Super tem seis (não estou levando em consideração a junção dos dois em BvS).

Porém, todo mundo que lê HQ sabe que a DC tem uma trindade principal de super-heróis: Batman, Superman e Mulher-Maravilha. Apesar do sucesso que a amazona teve com sua série dos anos 1970, estrelada pela atriz Lynda Carter, o estúdio nunca levou à frente um filme da heroína.

Com a decisão de criar um universo compartilhado nos cinemas, Diana de Themyscira ganhou sua chance. E no seu primeiro filme, chutou a bunda dos seus predecessores com estilo.

Mulher-Maravilha, a primeira justiceira!

Mulher-Maravilha Gal Gadot Poster

A trama de Mulher-Maravilha (dirigido por Patty Jenkins, 141 minutos) se passa durante a Primeira Guerra Mundial. Porém, antes de sermos inseridos no conflito, conhecemos a história de Diana de Themyscira (Gal Gadot), filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen), soberana das Amazonas que vivem numa paradisíaca ilha. Desde pequena, Diana tem a vontade de treinar e se tornar uma guerreira, como a sua admirada tia Antíope (Robin Wright), embora a sua mãe seja contra. Treinada em segredo pela tia, Diana torna-se uma lutadora admirável.

Hipólita esconde um segredo da sua filha e por isso não a deixa conhecer o mundo além de Themyscira, sempre a alertando do perigo que é o mundo dos homens. Então, fugindo dos alemães depois de uma missão bem sucedida de espionagem, o capitão da força aérea norte-americana Steve Trevor (Chris Pine) cai com seu avião próximo à ilha. Salvo do afogamento por Diana, ele explica às amazonas o que está acontecendo no mundo e pede para completar sua missão, o que é negado.

Diana o ajuda e vai com ele para o mundo dos homens a fim de ajudar a acabar com a guerra. Ao chegar ao nosso mundo, a princesa tem um choque diante da realidade brutal que acomete a humanidade. Certa de que isso é o resultado da influência de Ares, o deus da guerra, sobre os homens, ela assume como missão derrotar a divindade para que o conflito se encerre. Para Steve Trevor, a missão é impedir que a Dra. Maru (Elena Anaya), química conhecida como Dra. Veneno, conclua a fabricação de um novo e mortal gás que poderá decidir a vitória alemã no conflito.

Porém, na sua missão de derrotar Ares, Diana irá descobrir que a realidade pode ser muito mais cruel do que ela imagina.

Somos apresentados às Amazonas e ao universo mitológico da DC de maneira orgânica, por meio de uma narrativa funcional, sem arrodeios. As motivações de Diana são críveis e seu desejo de ajudar a tornar o mundo dos homens um lugar melhor, a exemplo do seu lar, é o que a define enquanto heroína.

A ilha das amazonas é apresentada em uma paleta de cores vivas, brilhantes, que transmite tranquilidade, paz, esperança. Quando a princesa chega a Londres, podemos ver o contraste: a cidade é cinza, suja, esfumaçada, tudo potencializado pelos horrores da guerra.

A atitude de Diana em querer partir para o front e resolver a situação esbarra na política, na diplomacia e nos discursos dos generais. Além disso, o roteiro consegue mostrar de modo incisivo e ao mesmo tempo discreto, sem panfletarismos, como a mulher era vista na sociedade do início do século XX.

Á medida que vão se conhecendo melhor e se aproximando, é inevitável que surja um clima romântico entre Steve e Diana, mas a coisa é colocada com tanta sutileza e naturalidade que não incomoda – ponto para Patty Jenkins! Imagina o desastre que isso seria nas mãos de um diretor menos contido.

Mulher-Maravilha Patty Jenkins

Gal Gadot e a diretora Patty Jenkins

As reações de Diana diante de alguns hábitos e costumes do mundo dos homens é engraçada sem ser hilária; sua ingenuidade flui naturalmente, assim como sua raiva em determinado ponto da trama.

Por isso, deve ter gente engolindo os impropérios que soltou quando anunciaram Gal Gadot para o papel. Quando eu fiquei sabendo, perguntei apenas “Quem?”. Não acompanho a franquia Velozes e Furiosos e não a conhecia. Não me importei com o aspecto físico – fiquei mais preocupado se ela teria condições de interpretar o papel da Mulher-Maravilha. A responsabilidade era enorme.

Pois bem. Gal Gadot é a alma desse filme. Ela encarna com perfeição a personagem e podemos respirar aliviados: Lynda Carter encontrou sua sucessora (embora ainda seja a eterna Mulher-Maravilha!!!).

O que diferencia Mulher-Maravilha dos seus antecessores é a forma como a história é contada. Ela é simples, contida, redonda, sem exageros nem pretensões de discutir questões filosóficas para pagar de “adulto”. Em sua sutileza, o filme levanta questões sociais e sobre a natureza humana que ainda são atuais. Tão fácil fazer uma história assim, porque não acertaram antes?

E afinal de contas, Mulher-Maravilha é um filme feminista? Bem, temos uma mulher como protagonista e outra como diretora. Temos uma personagem que, desde a sua criação, trazia o empoderamento feminino como mote; e que se tornou um símbolo e uma referência para várias gerações de mulheres. Então, é claro que há um discurso de gênero permeando a trama, principalmente em alguns diálogos e falas inspiradas de Diana. Se olharmos por esse lado, MM tem sim um discurso feminista. E isso é bom. O primeiro filme/blockbuster protagonizado por uma super-heroína é um marco e será sempre uma referência para o que virá depois.

Comeu mosca, Marvel!!!!

Eu entendi a referência!!!

O filme tem algumas referências diretas e perceptíveis, como a cena no beco, que remete diretamente ao primeiro filme do Superman com Christopher Reeves.

Como história de origem, o filme segue a estrutura padrão desse tipo de narrativa (não to dizendo que isso é ruim). Então, uma das referências (Homenagem? Citação? Paráfrase?) que mais salta aos olhos é a semelhança com Capitão América: O Primeiro Vingador – e não apenas pelo fato de se passarem em uma guerra. Quem tiver olhos de ver, verá. 😉

Mulher-Maravilha Gal Gadot Chris Pine

Isso não desmerece a história e nem o filme. Claro que eu gostaria de ter visto algo mais ousado, diferente, que fugisse da caixinha, mas entendo que é o primeiro filme e que o estúdio se apoiou numa estrutura confortável.

Dito isso, temos que falar do único ponto destoante da película: os vilões. Eles tem sua função, um deles até é muito bom durante um tempo, mas depois….

É que virou mania nos filmes de super-heróis ter que colocar uma grande batalha ao final, para que a experiência seja épica. Nesse modelo, tudo fica muito repetitivo, muito igual e imutável, o que termina por prejudicar uma experiência que poderia ter sido 100%

Tecnicamente, o filme se sai bem. A ambientação está ok, os figurinos também; nos efeitos digitais, a coisa desanda aqui e ali de vez em quando, o que chega a incomodar.

O que me irritou profundamente foi o excesso de slow motion – e isso é dedo de Zack Snyder, pode apostar. Desnecessário, descontextualizado, irritante. Não sei se Patty Jenkins faria isso, mas como Snyder é o mentor estético da DC, teve que ceder.

E, por fim, a falta de uma trilha sonora realmente impactante é de uma desatenção imperdoável do estúdio. Todo mundo esperou a musica tema nos momentos de ação, ela tocou e é empolgante, mas… e depois?

P.S.: uma nota técnica que não tem nada a ver com o filme, mas merece ser comentada: a sessão apresentada para a imprensa foi numa sala onde tinha uma MANCHA na tela. Depois abstrai, mas no começo ela ficava atraindo meu olhar. Sério, UCI?

Mulher-Maravilha para presidenta da Liga da Justiça!!!

No universo quadrinhístico da DC, o Superman é o cara que inspira os demais heróis. Com cara de poucos amigos desde seu surgimento em Man of Steel (eu gosto do filme, ok?), o Kal-El desse universo cinematográfico não tem envergadura para ser o líder inspirador que a Liga da Justiça merece.

Então, eu se fosse a Warner deixava ele como vice e elegia logo Diana de Themyscira como a presidenta da Liga da Justiça!!!

Boas atuações, uma protagonista forte e segura, um roteiro redondo e autocontido, bom equilíbrio entre ação e drama; como pontos negativos, vilões superficiais e alguns pequenos e repetitivos erros de narrativa e efeitos; assim, Mulher-Maravilha é o filme que todo fã da amazona sempre esperou. Devemos dar graças por isso. E aguardar ansiosamente as sequencias que com certeza virão.

Vá assistir sem medo, sem pré-conceitos e divirta-se!!!!

NOTA: Quatro canecas de Cappuccino Italiano

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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