O Espetacular, pero no mucho, Homem-Aranha

Cinema

O Espetacular, pero no mucho, Homem-Aranha

Um dos recursos mais utilizados pelas editoras Marvel e DC é, frequentemente, recontar a origem de seus super-heróis quando eles ficam “datados”, com vista a atualizá-los para uma nova geração de leitores. Isso é compreensível, afinal estamos falando de personagens criados em outro contexto histórico e social, alguns com mais de 70 anos de história (tá velho, hein Kal-El?).

Geralmente, estas histórias não mudam em absolutamente nada a origem do personagem, não tocam na sua essência, servindo apenas para acrescentar alguns detalhes (alguns interessantes, outros totalmente descartáveis) ao início da carreira de combate ao crime do herói.

O cinema é outra mídia que utiliza este recurso, ultimamente com muito mais frequência. A palavra da vez é reboot. “Ah, aquele filme legal de anos atrás já tá muito velho. Vamos refazê-lo para as novas gerações e ganhar uns milhõeszinhos? deve ser o novo item do manual do produtor hollywoodiano. Contar de novo a mesma história, só que com algumas diferenças com o objetivo de ser atual, contemporâneo, “muderno”.

Com o gênero “filmes de super-heróis” em alta, rendendo bilhões de dólares de lucro (vide Batman O Cavaleiro das Trevas e o recente Os Vingadores), a moda agora é fazer reboot para renovar franquias que já tiveram seu auge (ou não, vem aí o reboot do Quarteto Fantástico).

É nesse contexto que entra o novo filme do Cabeça de Teia. O Espetacular Homem-Aranha, dirigido por Marc Webb (500 Dias com Ela), chega com a difícil missão de recontar uma história que ainda está fresquinha na cabeça dos espectadores, já que a trilogia de Sam Raimi começou em 2002 e teve seu último filme exibido apenas cinco anos atrás.

A convite da Sony Pictures e Shopping Recife, a equipe do Geek Café participou da pré-estreia do reboot do Anderson Silva cabeça de teia pra conferir o que ele poderia acrescentar de novo.

Assim como na crítica de Os Vingadores, faremos uma fusão da visão de nossos colunistas Murilo Lima (Cinema e Mundo Geek) e Bruno Alves (Histórias em Quadrinhos).

E… que tal começarmos pelas boas notícias?

 

Homem aranha e Gwen StacyA melhor coisa desse reboot é a escolha dos atores. Andrew Garfield é o mais próximo que uma pessoa real chegaria em verossimilhança com o Homem-Aranha clássico de Steve Ditko; e depois que veste o uniforme mostra tudo aquilo que faltou na trilogia de Raimi: o Aranha franzino e divertido, que solta piadas enquanto troca sopapos com seus inimigos. Emma Stone é a Gwen Stacy, linda, fofa, um doce! Martin Sheen dá dignidade ao Tio Ben. E Sally Field, tia May, uma boa escolha, é subutilizada na trama. Rhys Ifans está bem como o atormentado Dr. Curt Connors e Denis Leary faz um Capitão Stacy mais jovem que o dos quadrinhos, mas com a mesma determinação de manter a lei e a ordem em Nova York.

O filme acertou em cheio na utilização do 3D real, junto com um belíssima fotografia e planos de câmera em perpectivas super inteligentes [algumas cenas arrancam suspiros de tão perfeitas]. Desde a primeira cena, onde vemos Peter Parker ainda pirralho, nota-se a profundidade proporcionada por um 3D de verdade. As cenas de ação, os efeitos especiais, as sequências de saltos do Cabeça de Teia em primeira pessoa…. tudo isso está no ponto. O Homem-Aranha se movimenta como uma aranha!!!! Podemos ver isso magnificamente quando ele enfrenta o Lagarto na escola.

O Lagarto também está bem desenvolvido no filme, embora tenhamos sentido falta de sua família, que nos quadrinhos é uma peça fundamental. Vale dizer que apesar do Duende ser o vilão dotado de maior potencial nos quadrinhos do Homem-Aranha, vimos que o Lagarto é quase imbatível na telona; perdendo apenas para o Doutor Octopus na lista de melhores vilões dos quatro filmes.

Peter é um caso complicado de se entender. As gerações anteriores vão dar graças a Deus por não termos um Peter “Emo” Parker (trauma do terceiro filme), porém verão que o cerne do personagem dos quadrinhos foi adaptado com vista a atualizá-lo para uma nova geração de leitores. O resultado é um Peter Parker mais “Pop” (pegando muita inspiração da série animada Ultimate Spider-man, onde o aranha é, de fato, um colegial), contudo apresentando o nerd dos quadrinhos em toda a sua essência, com toda sua genialidade científica, principalmente quando desenvolve seus lançadores de teia.

A relação entre Peter e Gwen também é muito bem desenvolvida. A evolução do romance entre eles é natural e convincente. A cena dos dois tentando marcar um encontro é hilária e ao mesmo tempo serve para mostrar a personalidade de cada um. Nada de errado aqui.

A participação de Stan Lee é ÉPICA! A melhor aparição dele num filme da Marvel!

Personagens de O Espetacular Homem-AranhaO Espetacular Homem-Aranha imagem 2Peter Parker e Gwen Stacy

Agora, vamos aos problemas?

Na verdade, todos eles estão relacionados ao roteiro, que tem alguns furos e peca pela falta de originalidade.

O plano malévolo do Lagarto é igual ao de Magneto no primeiro X-Men. Um dos detalhes que mais incomoda é que a partir de determinado momento do filme, o Lagarto vira uma cópia do Duende Verde do primeiro Homem-Aranha ou do Doutor Henry Jekyll da Liga Extraordinária, mostrando um lado esquizofrênico, com suas duas personalidades conversando. A trama que envolve o personagem também é similar a que motiva Norman Osborn a testar nele mesmo a sua fórmula (preguiça dos roteiristas).

E nem vamos falar do final do personagem, que é igual a todos os finais dos vilões dos outros filmes do Aranha (eita, já falamos, né?).

Em alguns trailers, havia um diálogo entre o Aranha, Curt Connors e um executivo da Oscorp (contato de Norman Osborn, que é citado mas não aparece) nos esgotos. Essa cena não apareceu. Além disso, qual o destino deste personagem? Ele é perseguido pelo Lagarto e some sem explicações.

Tia May, um dos personagens mais importantes do Aranha, é uma coadjuvante de luxo. Até Flash Thompson (quem???) aparece mais do que ela.

A importante e emblemática cena em que Peter deixa um ladrão escapar e que resulta na morte do Tio Ben é rápida, rasteira e não tem a mesma dramaticidade da cena original, mostrada em Homem-Aranha 1. Não vamos nem falar na morte esdrúxula do bom velhinho. Porém, a sequência a partir do momento em que Peter se depara com o tio bem agonizando e o vê morrer em seus braços carrega mais emoção que a cena do inexpressivo Tobey Maguire na primeira trilogia.

A história é cheia de interligações, coincidências forçadas. O pai de Peter trabalhou com Curt Connors e com Norman Osborn e desenvolvia pesquisas genéticas com aranhas – sentimos um cheiro do Hulk de Ang Lee nessa parte.

E tem uma cena com guindastes que é a maior vergonha alheia do filme. Totalmente dispensável.

Para fechar com chave de latão, o filme tem a cena pós-créditos mais lixo de todas os cenas pós-créditos de todos os tempos, pois não diz nada com nada.

Tadinho do Bruno! Ficou muito triste com o resultado:

“Pô, logo com meu herói favorito da Marvel? Ao sair da sessão ficou um vazio. O filme não me emocionou por completo e isso é ruim”.

Esperamos que a sequência corrija esses deslizes e mostre uma história mais coesa e enxuta. Aí sim!!!

O Espetacular Homem-Aranha Peter Parker

Já pode concluir, gente?

Ok, o filme não é um desastre. Pelo contrário, ele é bom. Vale muito a pena. Tem acertos e falhas como qualquer filme. Mas achamos que eles poderiam ter simplesmente ignorado tudo isso de origem e começar uma história direto, com Peter já com seus poderes. Custava muito? Afinal, temos 50 anos de histórias do Cabeça de Teia para aproveitar.

É isso aí galera! Vejam o filme e conversem com a gente nos comentários.

Murilo Lima

Criador e editor-chefe do Geek Café. Administrador entusiasta de novas mídias, inovação e mentes fora da caixa.

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