O Hobbit: Uma Jornada Inesperada – Crítica

Cinema

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada – Crítica

No ano de 2001, chegava aos cinemas o filme O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, primeira adaptação da trilogia O Senhor do Anéis de J.R.R. Tolkien, escritor consagrado no mundo geek/nerd. Dirigido por Peter Jackson, o que poderia ter sido apenas mais um ótimo filme feito para os fãs mais apaixonado, se mostrou um marco na história da sétima arte. A terra média com seus personagens incríveis como Hobbits, magos, anões, elfos, orcs e nobres guerreiros humanos passou a fazer parte da cultura pop, extrapolando as barreiras do universo geek.

Desde então, os milhões de novos fãs espalhados por todo o mundo passaram a nutrir uma nostalgia especial por tudo relacionado a obra de Tolkien, relembrando cada filme, devorando a riquíssima bibliografia do autor e posteriormente fazendo da versão extendida dos filmes (em DVD e Blu-ray) um dos maiores sucessos de home video da história.

Numa toca no chão vivia um hobbit

hobbit_jornadainesperadaQuase uma década se passou e então veio a notícia de que o primeiro livro do universo Tolkien, O Hobbit, seria adaptado para a telona. Seria quase a mesma equipe responsável pela trilogia do anel, com a adição de Guillermo del Toro, que durante alguns anos ficou encarregado do filme. Não tem um fã que não estivesse empolgado. Vocês sabem o quanto eu estava ansioso? Na época eu não tinha grana pra ir ao cinema e só pude acompanhar via “dvds que dão troco em bala”, if you know wath i mean. Mas isto já é outra história e hoje tenho o box da trilogia na minha biblioteca que sempre traz bons momentos.

A princípio seriam dois filmes. Mesmo achando que o melhor seria um único filme, aceitei de boa e fiquei feliz por acreditar que em dois volumes poderíamos ter uma melhor abordagem da obra e nos livrar do pensamento de “faltou tal cena ou poderiam ter explorado melhor tal ato/personagem”. Foi quando os produtores encarnaram o espírito de Smaug – dragão que ama ouro e é o principal antagonista da história – e decidiram que teriam de dividir O Hobbit em 3 filmes, com um hiato de 1 ano entre os dois primeiros e outro de 6 meses entre o segundo e o terceiro.

Pra deixar todo mundo ainda mais apreensivo, Peter Jackson completa seu retorno à Terra-média com uma novidade tecnológica: os 48 quadros por segundo (3D HFR), o que poderá ser o futuro do cinema.

Na útima quinta-feira (13), eu junto com a equipe do Geek Cafe e cerca de 40 leitores, fomos à pré-estreia de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, no Recife. Compartilho aqui minhas impressões e digo porque O Hobbit é inferior a trilogia O Senhor dos Anéis.

Na trama, o jovem Bilbo (Martin Freeman) se une a Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage), o líder do grupo de anões que parte, ao lado de Gandalf (Ian McKellen), em uma jornada para reivindicar seu legado na Montanha Solitária: a cidade de Erebor e seus tesouros roubados por Smaug, o dragão.

 
Os primeiros minutos são sensacionais! Antes de começar a história do O Hobbit, propriamente dito, temos uma pequena introdução que gera uma espécie de hexalogia com o mundo do Senhor dos Anéis, onde Bilbo (Ian Holm) – mais velho como no início da trilogia do anel – começa a escrever seu livro “Lá e de volta outra vez” para compartilhar com seu sobrinho Frodo (Elijah Wood) suas aventuras vividas 60 anos atrás, no que então passaremos a conhecer como a trilogia do hobbit.

A partir daí o filme se perde se torna mais interessante pelos detalhes que costuram fatos como gatilhos para os eventos da saga O Senhor dos Anéis – como Gollum perdendo o anel que ficou bom Bilbo e Radagast, o castanho, avisando sobre Sauron – do que pela jornada inesperada.

Após assistir ao primeiro filme, infelizmente ficou na cara que ele não chega nem perto da trilogia O Senhor dos Anéis. E apesar dos elogios que vi várias pessoas fazendo do filme, não me agradou tanto. Não que o filme seja ruim. Longe disto. Achei o filme “OK”. Vale muito a pena conhecer, mas não temos um novo clássico.

Não dá pra comparar o Senhor dos Anéis.

Ouvi muito isto e digo que realmente não deveria dar para comparar, afinal estamos falando de dois livros que apesar de pertencerem ao mesmo autor, possuem gêneros e perspectivas diferentes. Enquanto O Senhor dos anéis é um epico de fantasia com uma narrativa mais densa, rica em detalhes, subtramas e uma pegada mais adulta, O Hobbit foi feito para Tolkien ler para seus filhos antes de dormir. É um livro bem mais simples, com narrativa corrida e sem muitos mistérios, mais bem humorado e de fácil digestão para o público infantil.

hobbit_peter_jackson

Acontece que a própria equipe não soube como se desligar de seu legado. Peter Jackson ficou na corda bamba entre assumir o espírito de conto de fadas mais leve, próprio do livro O Hobbit (como faz com os anões cantando e se divertindo, na sequência de Bilbo com os trolls e depois com Gollum) ou se preza novamente pelo clima mais sério e épico da clássica trilogia. Isto acabou afetando diversas questões narrativas e visuais como a fotografia de Andrew Lesnie, que ora investe em tons sombrios, ora em cores vivas, prejudicando muito a identidade cinematografica.

o-hobbit-anoes-posterA música “Misty Moutains” cantada pelos anões ficou épica no trailer e poderia “A música” do filme, gerando uma identificação como a que ocorre nos clássicos Rocky, De volta para o futuro, Caça Fantasmas e tantos outros (sem querer compará-los entre si). Mas quando ela vai decolar, acaba de forma xôxa. No filme, só não é esquecível porque Howard Shore faz questão entonar seus acordes na trilha incidental a todo momento e as partes boas de verdade da trilha sonora terminam sendo as que são baseadas no Senhor dos Anéis.

Eu entendo que a maioria dos filmes são influenciados pela linguagem da época em que são feitos. Também entendo que atualmente o grande público precisa da estrutura segura de seus blockbusters, mas fazer de um filme infantil não quer dizer fazer um filme bobo. E foi isso o que vi. Anões brincalhões, cantando, arrotando, peidando, mesmo diante de uma situação daquela? Narnia e Harry Potter são exemplos de filmes mais infantis, mas não chegam a ser bobos.

The Hobbit: An Unexpected Journey

Não espere por um 3D revolucionário. O uso é digno, mas discreto. Gollum (Andy Serkis), retoma sua coroa de melhor personagem 3D #EVER, com um modelo ainda mais detalhado e capaz de mais nuances de expressão. O personagem encontra-se num momento totalmente diferente da vida e por isso, suas atitudes podem lhe estranhar em primeiro momento ao lembrar de seu encontro com o Frodo, portador do Anel. Gollum continua sendo uma das melhores coisas da Terra Média.

Ainda falando sobre a parte visual, eis um ponto fortíssimo. A equipe de Jackson realmente sabe como nos transportar para outro mundo. Todos os detalhes são muito bem pensados para nos guiar visualmente através da jornada inesperada. Ambientação, cenários, maquiagens e figurinos estão ótimos.

hobbit_1

Pena que ao tentar nos guir pela jornada inesperada, o filme se perde no tempo se mostrando extenso e enrolado demais. Meia hora a menos cairia bem. Sério.

Entendo que adaptação não quer dizer tradução literal e defendo alterações, quando as mesmas são executadas de forma a gerar valor para à obra. Existem cenas que não existem no livro ou estão nos apêndices que foram incluídas com este objetivo e ficaram legais.

Foi muito legal ver a história que mostra a derrota dos anões para o Smaug e toda a motivação de Thorin Escudo de Carvalho, bem como ele adquiriu tal nome e se tornou tão digno de ser seguido rumo a uma missão suicida como esta. O mesmo vale para a explicação de Gandalf sobre escolher Bilbo para tal missão  e o destaque de orc Azog, que no livro possui uma pequena participação, mas como um bom blockbuster precisa de um bom vilão, ele serviu como tal.

Radagast

O mesmo não acontece com Radagast, o castanho, personagem bobo e descartável cuja importância se resume unicamente a de avisar sobre Sauron. Assim como Peter Jackson excluiu Tom Bombadil da trilogia, poderia excluir facilmente o Radagast “trenó estranho a lá Anakin Skywalker pod racer”.

Ainda na tentativa de tornar o filme acessível ao maior número possível de pessoas, vemos inúmeras batalhas inúteis – todas terminando com Gandalf salvando a pátria – e humor demasiado.

A trilogia O Senhor dos Anéis é gigante e um pouco cansativa. Mas só é gigante por causa do que envolve, dos personagens que participam e das dezenas de subtramas. Ela precisava ser assim. O Hobbit não. A Sociedade do Anel tem 468 páginas e gerou um filme de 178 min. O Hobbit tem 310 páginas e gerou um filme de 169 min. Só nos 6 capítulos iniciais dos 19 que compõem o livro.

É um filme que deixará muitos fãs contentes e vale muito a pena ver no cinema. Pessoalmente espero que os próximos sejam realmente bons e no futuro valha a pena rever Uma Jornada Inesperada porque faz parte de uma trilogia! Como acontece hoje com Batman Begins na trilogia do Batman de Nolan. Senão, só verei mais uma vez em 48fps (porque quero conhecer a tecnologia que tanto falam) e o deixarei jogado em minhas lembranças, sem carinho ou nostalgia.

Continuar lendo
Publicidade
Murilo Lima

Criador e editor-chefe do Geek Café. Administrador entusiasta de novas mídias, inovação e mentes fora da caixa.

Comments

Mais em Cinema

To Top