O Som ao Redor – Crítica

Cinema

O Som ao Redor – Crítica

 

Quando a tela do cinema se torna um espelho…

Fazia tempo que um filme brasileiro não despertava em mim essa urgência em vê-lo como O Som ao Redor, do conterrâneo Kleber Mendonça Filho (acho que a última vez que senti isso foi com Tropa de Elite).

O Som ao Redor tornou-se obrigatório pela quantidade de prêmios que arrebanhou mundo afora e no Brasil e também pelas críticas elogiosas que li. O trabalho anterior de Kleber também pesou – Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio (meu sonho de consumo) são curtas imperdíveis que ajudaram a criar essa expectativa em torno do seu novo filme.

Mesmo diante de tudo isso, ficou aquele medo lá no fundo de que o filme fosse uma grande decepção. Sei lá, vai entender esse pessoal de cinema… 😀

Mas aí o filme começa e pega você pelo ouvido. Literalmente.

Depois de uma série de fotografias antigas que mostram situações de escravidão e poder, a câmera segue uma menina andando de patins pelo estacionamento de um prédio residencial. O ruído das rodas sobre o piso é ensurdecedor. Em seguida, a menina chega à quadra esportiva do prédio, que está cheio de crianças jogando bola, andando de skate, bicicleta, patins. Todos os sons vão se misturando ao blá blá blá das empregadas domésticas que tomam conta das crianças. Ao fundo, um bate-estacas.

Um excelente trabalho de edição de som. Primeiro ponto para o filme.

O Som ao Redor 03

Aí o filme te pega mais uma vez.

Uma das personagens principais vive às voltas com o cachorro do vizinho que passa a madrugada uivando, latindo, ganindo e wathever. Imediatamente fui transportado da sala do cinema para meu apartamento e parecia que estava escutando minha mulher e meus filhos reclamando dos cachorros dos vizinhos que praticamente todos os dias fazem uma serenata de latidos na alta madrugada.

O som ao redor 7Tendo o Recife como cenário (o chique bairro de Boa Viagem, zona sul da cidade) os sons presentes no filme nos trazem logo uma grande identificação. O sotaque típico e original dos personagens (nada de pernambuquês global), os carrinhos dos ambulantes de cd’s piratas no último volume, as expressões coloquiais.

Mas, afinal, qual é a história de O Som ao Redor? Bem, falar muito estraga as surpresas. Basicamente: o filme se passa em uma rua de classe média da zona sul do Recife. Alguns personagens têm suas vidas capturadas e compõem o núcleo central: Bia (a ótima Maeve Jinkings) mulher casada e com dois filhos que vive procurando meios de silenciar o barulhento cachorro do vizinho; Seu Francisco (W.J. Solha), antigo dono da rua e ainda proprietário de vários imóveis no local. É uma espécie de coronel urbano, respeitado e sempre ouvido em questões que dizem respeito ao local; João (Gustavo Jahn) é neto de Francisco e trabalha como corretor dos imóveis da família. Tem um relacionamento com Sofia (Irma Brown); Dinho (Yuri Holanda) também é neto de Francisco e uma alma sebosa que vive praticando pequenos delitos apesar de sua família abastada.

O Som ao redor 05Quando o CD player do carro de Sofia é roubado, João desconfia de seu primo Dinho. Logo em seguida, surge Clodoaldo (Irandhir Santos) com a oportuna oferta de segurança privada para a rua. Depois de conversar com vários moradores, Irandhir e seus homens tem que se apresentar a Seu Francisco, que autoriza o trabalho da milícia mas faz um alerta: não mexer com o neto Dinho, aconteça o que acontecer.

A partir daí há uma crescente tensão no filme. Kleber Mendonça alterna momentos de humor (como o gringo perdido no bairro), suspense e terror (em uma cena digna do gênero) para contar sua história que prima pela naturalidade nos diálogos e na interpretação de seus atores praticamente desconhecidos (com exceção de Irandhir Santos). E apesar de temas como violência urbana, insegurança, relacionamentos e conflito de classes estarem visível e silenciosamente claros no filme, em nenhum momento ele cai nos recursos fáceis do didatismo ou do discurso panfletário, tampouco se perde em digressões sociológicas.

O Som ao Redor

Assim, minha expectativa diante do filme foi atendida de várias maneiras: pela história, atuações, apuro técnico, direção segura de Mendonça, pelos personagens e seus medos e pesadelos tão iguais aos meus, diálogos naturais que parecem um bate-papo na esquina e pelo segurança Clodoaldo parecer com um que circulou aqui pelo bairro com sua turma do apito.

Porém, ao término da exibição, saí da sessão tentando entender como esse filme tão particular, tão recifense, tão brasileiro, conseguiu conquistar o mundo. Só no dia seguinte foi que me lembrei da frase de Liev Tólstoi:

Se quiseres ser universal, começa por pintar tua aldeia.

E foi aí que entendi.

Mendonça nos presenteia com um filme em forma de espelho que nos reflete e coloca pulgas atrás de nossas orelhas. E isso é arretado!

Por fim, O Som ao Redor junta-se, com mérito, ao pequeno grupo de filmes nacionais que considero divisores de águas na produção cinematográfica brasileira (Central do Brasil, Baile Perfumado, Amarelo Manga, Cidade de Deus, Tropa de Elite).

Agora fica a expectativa do próximo filme de Kleber Mendonça.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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