Perdido em Marte – Crítica

Ridley Scott retorna a ficção científica e entrega em Perdido em Marte um filme problemático, mas irresistível e divertido.

Cinema

Perdido em Marte – Crítica

Uma inesperada tempestade assola os membros de uma missão tripulada em Marte. Atingido por um satélite arrastado pelo vento forte, Mark Watney é dado como morto em decisão urgente dos outros astronautas presentes, que precisavam sair daquela área o quanto antes. Watney, porém, sobreviveu e agora precisa habitar o inóspito planeta vermelho com poucos recursos por tempo suficiente para encontrar uma maneira de se comunicar com a Terra e aguardar por um resgate.

A premissa de Perdido em Marte é, como pode ser percebido, simples, mas poderosa ao jogar de cara duas questões básicas, mas extremamente complexas: Como Watney irá sobreviver e como a NASA irá resgatá-lo a tempo? Acompanhamos o desenvolvimento dessas questões em montagem alternada entre ações de Watney em Marte e ações dos membros da NASA na Terra, algo que o filme lida relativamente bem.

Nenhum dos personagens de Perdido em Marte tem grande desenvolvimento

Contudo, se por um lado é muito bacana ver como se dá essa comunicação, por outro é uma pena que o filme passe um pouco do ponto nas constantes exposições de Watney. É natural que a única pessoa em um planeta inteiro crie o hábito de falar sozinho e o fato de ele registrar todas as suas ações em vídeo não só é realista como, naturalmente, serve para passar informações para o espectador. O problema é quando o filme começa a concatenar muitas dessas ações em offs explicados por Watney quando seria bem mais interessante ver como o personagem descobre isso em “tempo real”.

Atrapalha também o fato de que praticamente todos os personagens dependerem quase exclusivamente de seus respectivos carismas para poderem imprimir, uma vez que nenhum deles tem algum desenvolvimento. É verdade que este é um filme muito mais sobre uma situação e como se lida com ela do que sobre personagens, mas não fazê-los minimamente interessantes (e este filme tem tantos que alguns, como o da Kristen Wigg, sobram) acaba colocando boa parte do peso do dinamismo do filme na montagem que nem sempre irá salvar os frequentes momentos um tanto entediantes que acontecem na Terra.

Por sorte, o personagem mais importante, Mark Watney, brilha e é a força de Perdido em Marte. Matt Damon segue em seu habitual modo “nice guy”, mas com uma boa pitada de humor. A maneira prática e otimista com a qual Watney lida com a situação terrível em que se encontra torna quase impossível não nos compadecermos por ele. Em seu vídeo diário, Watney registra com bom humor mesmo algumas coisas que dão errado, e, quando algo grave acontece a ponto de colocá-lo em uma posição de quase resignação, nós realmente sentimos por ele e desejamos fortemente que ele não desista e procure alguma outra alternativa científica que o ajude a tirá-lo daquela situação.

Perdido em Marte é também uma carta de amor a este grande triunfo que é o pensamento prático

Por falar em Ciência, Perdido em Marte além de ser esta ode ao espírito humano representado na resiliência de Watney é também uma carta de amor a este grande triunfo que é o pensamento prático. Utilizando o pouco do que lhe sobrou em Marte, Watney, com muita criatividade e inteligência, realiza todos os cálculos e usa as ferramentas que tem ao seu alcance para encontrar maneiras de prolongar sua vida. Da mesma forma, vemos o mesmo acontecer na Terra ao acompanharmos os cientistas em busca de soluções que possibilitem o resgate do astronauta sem deixar que interessantes questões sejam levantadas como o valor de uma vida perante a grandeza da exploração. Há ainda o bônus de que não há no filme, vilões clichês que querem ferrar com Watney. Os antagonistas são o tempo e a implacável força da natureza.

Perdido em Marte é também um retorno de Ridley Scott a ficção científica, gênero que o consagrou, e também ao bom cinema ante a sequência de decepções que foram seus últimos filmes. Contudo, mesmo vendo que o diretor finalmente conseguiu realizar uma boa obra, é notável que ele já foi mais cuidadoso com a mise en scène (em resumo, a forma como os elementos cênicos se apresentam no enquadramento). A sequência de abertura, por exemplo, é repleta de tensão, porém é filmada de maneira confusa de forma que fica até difícil entender o que realmente está acontecendo – e não ajuda o inútil 3D que só faz escurecer a projeção. Também falta mais inspiração para filmar as constantes sequência de conversas que se passam no planeta Terra o que só contribui para já citado problema de tornar várias delas desinteressantes.

Mesmo assim, o Scott impõe bom ritmo, principalmente emoção e inesperado bom humor ao seu filme tornando-o uma divertida sessão e que, ainda por cima, deverá inspirar uma garotada a querer ser astronauta – Acho bom mesmo por que espero poder ver uma missão tripulada de verdade nas próximas décadas.

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Acaba de se graduar em Cinema. Busca se especializar em direção de fotografia para filme, área em que atua de forma independente. Antes disso porém, estudou Star Wars no ensino médio, graduou-se em Harry Potter e fez pós em O Senhor dos Anéis. Ama: filmes de ficção científica, chocolate, filmes de Spielberg, viajar, passear por paisagens naturais e lugares altos, fotografar animais e celebrar com os amigos.

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