Quarteto Fantástico – Crítica

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Quarteto Fantástico – Crítica

Aviso: o texto contém alguns spoilers.

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Quando saiu o primeiro trailer de Quarteto Fantástico, choveram brincadeiras que comparavam o vídeo com o último filme de Christopher Nolan, Interstellar, graças ao clima sci-fi e tom de reverência dado a Ciência. Ao assistir essa reimaginação dos quatro super poderosos, nota-se que estes elementos estão lá de fato, pelo menos até certo ponto.

Quarteto Fantástico já inicia com um embate entre um professor sem imaginação, que tanta conter as ideias ambiciosas de seu ainda muito jovem aluno Reed Richards. Adultos já doutrinados por mecanismos sociais sem dúvidas são um dos maiores entraves à ciência ao conter a curiosidade e poder de exploração das crianças. Com essa introdução, o filme já convida o espectador para uma abordagem interessante.

Com os olhos de quem acredita que a nova geração é a esperança de um mundo que está sendo destruído graças aos erros da mais velha, o velho cientista Franklin Storm logo nota o potencial de Reed e o reúne com outros três jovens gênios: Susie e Johnny Storm e o deslocado Victor Von Doom. Juntos, eles deverão desvendar os mistérios da viagem interdimensional e dessa forma, Franklin indaga, poderão encontrar respostas sobre o universo a perguntas que eles ainda sequer fizeram.

Existe então, uma clara curiosidade perante o desconhecido e um forte desejo de exploração e a primeira parte do filme vai trabalhando a interação destes jovens na construção de um portal para tal fim com relativa calma. Quando está tudo pronto, o exército, que financia o projeto para fins militares, decide revogar o direito dos quatro inventores a serem os primeiros a fazer a viagem para a dimensão inexplorada. Dispostos a não verem outros roubarem seus sonhos, Reed e seus companheiros decidem fazer uma primeira viagem de forma clandestina.

Por mais brilhantes que sejam, os quatro personagens são adolescentes e acho que isso justifica bem o ímpeto de realizarem algo tão perigoso no intuito de serem pioneiros (apesar da motivação rasa de Johnny, que falarei mais a frente). Como já se sabe, um grave acidente acontece com a chegada a outra dimensão e, tomados pela energia desconhecida que escorre por sua topografia, os personagens tem seus corpos transmutados na melhor sequência do filme por mostrar o terror e a tragédia que é passar por aquela transformação.

Reed, responsável por levar seu amigo de infância, Ben Grimm, à sua viagem proibida, agora deverá lidar com o peso de ter sido indiretamente culpado por transformar seu companheiro em pedra – sem dúvidas a transformação mais dura por desfigurar a aparência física. Um fardo interessante para trabalhar a relação dos dois personagens.

Mas…

Uma porção de bons elementos que tornariam Quarteto Fantástico um filme bem interessante são deixados de lado em prol de uma trama ordinária.

A partir deste ponto exatamente, o filme se perde e aos poucos começa a largar o terreno do sci-fi e a força dramática gerada pela mutação e começa a se enveredar pelo terreno do filme de super herói genérico. O que antes era encarado como uma maldição para os personagens, agora deverá ser bruscamente tratado como uma benção em função da destruição de um vilão com motivações pavorosas.

Não posso precisar o que exatamente começou a dar errado em um filme que, até a primeira metade, estava em uma crescente. Mas fica a impressão de que algum material (mais interessante) ficou na sala de edição, uma vez que o espectador é brutalmente privado de conhecer melhor a reação e a descoberta das novas habilidades especiais dos personagens para cair em uma trama previsível e furada.

Um corte temporal nos leva do ápice do drama que é se ver desfigurado daquela forma para ver Sue, Johnny e Ben com suas habilidades já aprimoradas e envolvidos em uma trama clichê sobre serem reaproveitados como armas de guerra enquanto Reed está desaparecido. Um tremendo coito interrompido.

Não se percebe direito em que momento Reed obteve uma redenção por ter fugido logo após o acidente. Johnny até mesmo o cumprimenta como se nada tivesse acontecido quando se reencontram e, em especial, sua relação com Ben, certamente a mais comprometida, é resolvida sem que sequer nos demos conta. Considerando que a personalidade de Reed não é muito bem definida, essa resolução mal feita me fez vê-lo praticamente como um idiota já que o remorso do rapaz assim como a raiva de Ben, vão evaporando sem um catalisador específico. Voltando a Johnny, se poderemos engolir o motivo banal de que ele só estava trabalhando junto com os demais a fim de recuperar o carro que seu pai tomara, o que justifica sua empolgação em fazer a viagem interdimensional? Não há passagens no filme que demonstrem que o rapaz tem algum apreço pela exploração e pela ciência. Sue acaba sobrando durante todo o filme e sua personagem conta apenas com o carisma e beleza de Kate Mara para provocar alguma empatia já que ela não parece passar por alguma trajetória minimante interessante.

O Sr. Destino em Quarteto Fantástico tem motivação pavorosa

Mas ninguém é mais perdido do que Victor Von Doom. Já apresentado como um “babaca” desde o início do filme para forçar uma antipatia junto ao espectador, Victor ainda alimenta uma paixonite meio boba e não correspondida por Sue. Sem conseguir voltar da primeira viagem interdimensional e dado como morto, Victor eventualmente retorna para a Terra, em estado crítico, apenas para se recuperar sem a menor explicação e desejar voltar de novo para o “Planeta Zero” (como é chamado o espaço na outra dimensão) para sugar o planeta Terra pois não pode permitir que o homem destrua aquela região também. Todas essas informações citadas vão sendo jogadas no filme sem que um link forte as interligue e nos ajude a compreender as ações do personagem. É lamentável pois, ao menos visualmente, o vilão é assustador e a sequência em que ele se revela como um assassino é digna de um bom filme de horror. Porém, tudo isso parece ser colocado só para alimentar uma reviravolta mequetrefe contida em algum manual de roteiro medíocre de filmes hollywoodianos que obriga que em algum momento, algum vilão malvado e com objetivo tolo e ambicioso surja, mesmo que isso não faça sentido ou que não tenha estofo, perante o que é apresentado sobre ele.

Depois de jogar fora todo o potencial que tinha, Quarteto Fantástico finalmente chega a um clímax que seria pelo menos bacana pelo clima sombrio e pelos momentos mais dramáticos, mas que é completamente prejudicado por efeitos especiais horrendos e discursos de última hora que parecem ser suficientes para resolver os problemas que aqueles personagens deveriam ter uns com os outros.

Com isso, por mais que tenha bons momentos (alguns excelentes), o que fica mais é a sensação de que havia ali um filme muito mais interessante e positivamente esquisito que poderia ter explorado melhor o estranhamento diante da transformação física e todas as consequências e dilemas isso poderia trazer para aquele núcleo de personagens. Chega a ser inacreditável como o filme joga essas ideias fora de maneira tão rasgada para se transformar em um filme de ação ruim e esquecível. Ainda não fizeram total justiça ao potencial do Quarteto Fantástico.

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Acaba de se graduar em Cinema. Busca se especializar em direção de fotografia para filme, área em que atua de forma independente. Antes disso porém, estudou Star Wars no ensino médio, graduou-se em Harry Potter e fez pós em O Senhor dos Anéis. Ama: filmes de ficção científica, chocolate, filmes de Spielberg, viajar, passear por paisagens naturais e lugares altos, fotografar animais e celebrar com os amigos.

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