Star Trek: Sem Fronteiras | Crítica

Cinema

Star Trek: Sem Fronteiras | Crítica

Terceiro filme do reboot surpreende e homenageia suas raízes.

No próximo dia 8 de setembro Jornada nas Estrelas completa 50 anos!

Foi nessa data que a série estreou na TV norte-americana. Audiência estrondosa nunca foi o forte da série, que sofreu ameaça de cancelamento na segunda temporada. Sobreviveu mais uma e saiu do ar em 1969. Porém, pela quantidade de episódios (79) ela conseguiu entrar para a sindicação e passou a ser exibida em um número maior de emissoras durante os anos 1970. A partir daí, a série virou cult e o resto é história.

Quatro spin-offs, uma série animada e dez filmes transformaram Star Trek numa das franquias de ficção científica mais longevas e rentáveis da história. Porém, o último filme estreou em 2002 (o fraquíssimo Nêmesis) e a última série (Enterprise) foi cancelada em 2005. Parecia que a jornada havia terminado.

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Um Novo Começo

A retomada do universo de Star Trek veio em 2009 com o reboot da franquia capitaneado por J. J. Abrams, cuja sacada de mestre foi usar a ideia de universos paralelos. Ou seja, tudo que vimos em todos esses anos da franquia continuam valendo, pois aconteceu em outra realidade. A presença de Leonard Nimoy como o velho embaixador Spock garantiu a ligação com as histórias originais e serviu como uma passagem de bastão. Foi lindo de ver!

Além da Escuridão manteve a chama acesa e é um bom filme, mas hoje já vejo com certas reservas, pois ao comparar com o original (A Ira de Khan) ele perde feio (que Cumberbatch me perdoe). Porém, ao final do filme começa a verdadeira jornada da nave Enterprise em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações…

Essas são as viagens….

Star Trek – Sem Fronteiras (EUA, 2016, 122 minutos), dirigido por Justin Lin, começa justamente mostrando uma das missões da Enterprise. O capitão James Kirk (Chris Pine) está negociando a paz entre duas raças, oferecendo a uma delas um antigo artefato como prova da boa vontade do inimigo em terminar as hostilidades. A intermediação diplomática de Kirk não dá muito certo e ele tem que fugir do planeta antes que os nativos acabem com ele.

A hilária introdução logo dá lugar a sentimentos não tão engraçados. A Enterprise já está no terceiro ano de sua missão exploratória e a solidão no espaço começa a pesar. Kirk está em dúvida sobre sua escolha em comandar uma nave estelar; Spock (Zachary Quinto) terminou seu relacionamento com Uhura (Zöe Saldana) pelo mesmo motivo: com a destruição do seu planeta natal ele acredita que esta negligenciando sua verdadeira missão que seria  se reintegrar aos sobreviventes e trabalhar para evitar que sua raça seja extinta.

Uma parada estratégica na exuberante estação espacial Yorktown dá aos tripulantes um momento de descanso ao mesmo tempo em que concede a Spock e Kirk tempo para confirmar suas decisões. É aí que ficamos sabendo que Kirk fez um requerimento para assumir a função de vice-almirante em Yorktown; e Spock, ao receber a notícia da morte do embaixador Spock (a primeira homenagem a Leonard Nimoy já arrepia), reforça seu desejo de abandonar a Frota Estelar.

Mas um pedido de socorro abrevia o descanso da tripulação quando a Enterprise, que possui o mais avançado sistema de navegação de toda a Frota Estelar, é escalada para uma missão de resgate de uma nave alienígena que ficou perdida em uma perigosa nebulosa.

star-trekPorém, ao chegar à nebulosa, a Enterprise é brutalmente atacada por milhares de pequenas naves que agem como se fosse um enxame de abelhas. O líder da raça hostil é Krall (Idris Elba), que deseja colocar as mãos no artefato que Kirk usou para negociar a paz no início do filme. O objeto é, na verdade, uma poderosa arma que Krall pretende usar contra a Federação dos Planetas Unidos, por motivos desconhecidos.

Feridos, separados e sem conseguir contato com a Frota Estelar, Kirk e sua tripulação tem que correr contra o tempo para impedir Krall de concretizar seu plano genocida.

Velozes e Furiosos no espaço? Não mesmo!!!

O grande receio dos fãs era que esse terceiro filme fosse cheio de adrenalina, explosões e enquadramentos alucinantes. Esse receio começou por conta do diretor escolhido, Justin Lin, que dirigiu alguns episódios da franquia Velozes e Furiosos. O primeiro teaser mostrava justamente o que nós temíamos: muita ação/explosão nível Michael Bay ao som furioso de “Sabotage” dos Beastie Boys enquanto Kirk pilotava uma moto. WTF??? foi minha primeira reação.

O segundo trailer amenizou na adrenalina, mas foi bem genérico e não entregou nada da trama. Resumindo: fui assistir com o mesmo receio de antes. Seria o fim trágico de Star Trek?

Surpreendentemente, Star Trek – Sem Fronteiras é excelente, um autêntico Jornada nas Estrelas! Justin Lin está lá, mas acredito que o braço forte de J.J. Abrams na produção deu uma segurada nos arroubos do diretor. E, claro, o mais importante: o roteiro de Simon Pegg e Doug Jung! Redondinho e repleto de easter-eggs, a história consegue resgatar todo o clima da série clássica, principalmente na relação entre os personagens.

Os diálogos afiados e humorados remetem aos melhores momentos da série original, principalmente na dinâmica entre Spock e o Dr. Leonard McCoy (Karl Urban), que passam boa parte do filme atuando juntos – dá para perceber como os atores estão à vontade e se divertindo com seus personagens. O humor tem presença constante mas dentro do contexto e nos momentos certos – nada de ficar soltando piadinha enquanto o mundo se acaba (estou falando de você, Vingadores: A Era de Ultron).

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Os demais personagens tem seu espaço garantido – com exceção de Uhura, que ficou um pouco apagada. Simon Pegg está perfeito no papel de Montgomery Scott, assim como o Sulu de John Cho – e a cena que revela sua homossexualidade é delicada e sutil; o Chekov de Anton Yelchin continua carismático, mas era olhar para ele e lembrar de sua morte estúpida.

A trama também é ok, fechadinha, lembrando a dinâmica de um episódio de tv, só que de luxo. O assustador e misterioso antagonista vivido pelo excelente Idris Elba debaixo de toneladas de maquiagem tem peso, consistência e uma motivação que convence.  A alienígena Jaylah de Sofia Boutella tem uma função na trama e possui as melhores sequencias de luta do filme.

A excelente trilha sonora continua a cargo do competente Michael Giacchino – praticamente todos os dias eu escuto a trilha do primeiro filme do reboot. E por falar em música, o público riu alto depois do seguinte diálogo:

Dr. McCoy (ouvindo “Sabotage” no ultimo volume): Isso que estou ouvindo é música clássica?

Spock:  Sim, doutor, acredito que é.

Os efeitos estão ok e é muito bom ver referências aos cenários de papelão da série original no planeta onde acontece boa parte da trama. Da mesma forma a maquiagem dá um show na caracterização das diversas raças alienígenas que circulam pelo filme.

star_trek_beyond_ver10E apesar do medo do Justin Lin, as cenas de ação estão na medida certa – até a sequencia de Kirk pilotando uma moto tem função e é devidamente contextualizada.

Algumas referências são nível hard, que apenas fãs mais dedicados vão perceber:

–  Yorktown (a base estelar) foi o primeiro nome que o criador Gene Roddenberry pensou para a nave da série original;

– “rasguei minha camiseta de novo”, diz Kirk logo no início do filme – essa é uma referência à série original, onde o Kirk de William Shatner vivia exibindo os músculos quando sua camiseta era rasgada;

– no início do longa, Kirk diz que a missão já dura 966 dias – 9/66, referência à setembro de 1966, data de estreia da série original;

– apesar de ter parecido estranho no trailer, a música “Sabotage” entra de forma orgânica na trama e faz a ligação com o primeiro filme do reboot, quando um jovem Kirk dirige o carro do padrasto ao som dos Beastie Boys. VAMO FAZER BARULHO AÊ!!!

– por fim, há uma cena hilária de Chekov flertando com uma alien e dizendo que “o whisky foi inventado por uma jovem dama russa”, o que remete à série clássica, onde o jovem alferes vivia dizendo que todas as grandes invenções da humanidade foram russas.

Mas a maior, melhor e mais arrepiante homenagem do filme é quando Spock (Zachary Quinto) recebe alguns pertences do falecido embaixador Spock (Leonard Nimoy). Ao abrir a caixa,  podemos ver alguns objetos de uso pessoal do velho vulcano. Não vou contar o que tem lá para não estragar a surpresa. Mas deu um nó na garganta, confesso. Que homenagem linda!

E, por fim, essa cena é emblemática porque define os rumos do personagem na trama. Afinal, como diz Kirk em certo momento do filme: “O que eu faria sem você, Spock?”.

Star Trek – Sem Fronteiras é uma agradável surpresa que recoloca a franquia no rumo certo, atendendo tanto os fãs mais antigos quanto ao público que conheceu esses personagens a partir do reboot. Ao mesmo tempo em que abre um leque de possibilidades para as sequencias que certamente virão, o filme deixa para a Paramount a difícil tarefa de manter o nível lá em cima.

A aventura está apenas começando. Que ela tenha vida longa e próspera!

NOTA: cinco canecas de Irish Coffe (que segundo Chekov foi inventado pelos russos)

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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