“Game não é cultura!” Ministra diz não haver boa vontade em colocar games no Vale Cultura

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“Game não é cultura!” Ministra diz não haver boa vontade em colocar games no Vale Cultura

O consumo de literatura, cinema, música, dança e obras instaladas em museus para apreciação do público contará ainda em 2013 com um grande aporte financeiro do Vale Cultura – programa do governo federal que direciona uma verba de R$ 50 mensais para cada trabalhador (com carteira assinada e renda de até cinco salários mínimos) gastar no mercado de bens culturais. A ministra da cultura Marta Suplicy esteve esta semana na Assembleia Legislativa de São Paulo e participou de uma audiência pública sobre a adoção do Vale Cultura, que deverá acontecer até a metade deste ano.

Como o projeto está em fase final de regulamentação antes de entrar em vigor, a agenda de discussões nos próximos meses pode pautar algumas mudanças na aplicação do programa. Uma vertente da discussão foi colocada na audiência pelo designer de games Francisco Tupy e narrada por Kao ‘Cyber’ Tokyo no post “Para ministra, game não é cultura. Sim, ele é”.

martaO que acontece é que na visão da ministra game não seria “cultura”, mas entretenimento – sendo sua cadeia de consumo mais voltada para crianças e adolescentes estudantes do que adultos trabalhadores formais. O implicativo desse patamar a que os games estão colocados é que os bens de consumo do mundo dos jogos eletrônicos não estarão dentro do alcance previsto no programa Vale Cultura.

O fechamento do programa aos games lança uma discussão conceitual sobre o que está dentro e o que está fora daquilo que pode ser considerado “cultura” na perspectiva governamental. E neste ponto de vista a ministra Marta Suplicy fez a seguinte provocação a Francisco Tupy, deixando claro que será preciso um grande esforço para que os games sejam incluídos na caixinha oficial do que é “cultura”, uma vez que não existe “boa vontade” para que isso aconteça:

Na hora em que vocês conseguirem apresentar alguma coisa que seja considerada arte ou cultura, eu acho que pode ser revisto. No momento o que eu vejo é outro tipo de jogo. Encaminhem para o ministério as sugestões que vocês estão fazendo. Eu tenho certeza que talvez vocês consigam fazer alguma coisa cultural. Mas, por enquanto, o que nós temos acesso, não credencia o jogo como cultura. O que tem hoje na praça, que a gente conhece (eu posso também não conhecer tanto!) não é cultura; é entretenimento, pode desenvolver raciocínio, pode deixar a criança quieta, pode trazer lazer para o adulto, mas cultura não é! Boa vontade não existe, então, vocês vão ter que apresentar alguma coisa muito boa.

Este será o desafio e sobre isto vamos tratar neste post. O Geek Café resolveu escrevê-lo a seis mãos para explorar melhor as visões críticas sobre o assunto, já que Thiago Leite escreve sobre games há muitos anos e André Raboni sempre foi chegado em discussões políticas.

 

Thiago Leite Hellsing Fullmetal Alchemist Desenhos Death Note Cowboy Bebop Animes Animação  On The Rocks #2 – Trilhas Sonoras de AnimesPor Thiago Leite

@thiagomtleite

O debate iniciado a partir da fala da ministra com certeza pressiona algumas feridas que gamers da velha guarda, como eu, não conseguimos superar. A mais visível é o fato de que, no Brasil, games ainda são vistos como ‘brinquedo’ voltado para o público infanto-juvenil. Na verdade, a medida que a tecnologia avançou, seus então principais consumidores, nós – os gamers das primeiras gerações -, amadurecemos junto com ela. Isso forçou os jogos a terem abordagens cada vez mais profundas para se manterem relevantes, "bebendo" de inspirações artísticas e culturais complexas.

A censura da maioria dos lançamentos também mudou para "Teens" (adolescentes), similar ao cinema. Indo além, dentre as quatro grandes plataformas (PlayStation, Xbox, Wii e PC), apenas o console da Nintendo mira ativamente o público infantil. Do ponto de vista de mercado, com certeza games não são um entretenimento para crianças, mas será que é apenas entretenimento?

Para ser sincero, me entristece ver essa distinção entre entretenimento e cultura quando se tratam de games. Por que livro e cinema podem trazer entretenimento e cultura, mas os games só podem ser entretenimento?

  • Será que o enredo de conflito político, romance e religião de Final Fantasy Tactics não merece o mesmo tratamento que a saga de Game of Thrones?
  • O belíssimo Journey não é capaz de evocar o estado da arte como o consagrado curta Paperman, da Disney?
  • Misturando um pouco as coisas, o que define Harry Potter (o livro) como cultura e Harry Potter (o jogo) "apenas entretenimento"?
  • Por que os desenhos da Disney são considerados cultura, mas suas manifestações em Kingdom Hearts não?

É como se, por sermos capazes de interagir com o nosso formato de mídia favorito, isso elimina qualquer possibilidade de ser considerado cultura. O que continua não fazendo sentido, pois existe interação no teatro e na música, ambas manifestações culturais ainda mais tradicionais que o livro ou cinema. Além disso, quando fãs se apropriam de determinadas obras para produzirem suas próprias versões, também não desqualificam as peças originais como cultura.

TorenPor fim, o próprio governo brasileiro se contradiz na sua visão acerca dos jogos eletrônicos, visto que em 2011 a Lei Rouanet de Incentivo à Cultura incorporou os jogos eletrônicos no seu programa. Inclusive recentemente tivemos o primeiro game aprovado para captar recursos através da lei, o Toren, do meu colega Alessandro Martinello.

Se game é cultura segundo a Lei de Incentivo à Cultura, porque não é cultura segundo o Vale Cultura? Quem está errado? Porque tanta contradição quanto diz respeito aos jogos eletrônicos?

 

Andre Raboni Ozzy Osbourne Nina Becker Explosions in the Sky Destaques Clarice Falcão Black Sabbath  On The Rocks #5 – O que estou curtindo atualmente...Por André Raboni

@andreraboni

Percebo toda essa discussão conceitual como a ponta de um debate fortemente motivado por questões econômicas. Isso porque o programa Vale Cultura injetará no mercado de bens culturais um valor de mais de R$ 11 bilhões por ano – uma grana considerável que estará a disposição da indústria cultural. Um dos sintomas que me faz colocar o fator econômico em primeiro plano é o fato de que antes da polêmica que o Vale Cultura despertou no mundo gamer, pouco ou quase nada vi de discussão sobre o enquadramento dos games na caixinha do conceito de “cultura”.

Em se tratando de Brasil, infelizmente é visível que existe uma percepção de que assuntos políticos são “chatos”, ou “inúteis”, ou que no mundo político “só tem bandido”. Discutir política pode até ser chato e muitas vezes inútil; mas me pergunto: por que apenas nessas horas em que a política bate em nossa porta com uma cifra econômica estratosférica é que nos preocupamos com seus caminhos?

Aqui vai uma crítica construtiva ao mundo gamer: se por acaso a preocupação em conceituar os jogos eletrônicos como Cultura tivesse brotado há 10 anos nos círculos sociais e empresariais da indústria de games, certamente essa polêmica não existiria, ou existiria em menores proporções. Isso por que está longe de ser impossível, ou mesmo difícil, enquadrar a indústria de games como vetor cultural.

Quando notamos que produtos como os livros e filmes Harry Potter ou Senhor dos Aneis estão comodamente assentados no conceito de cultura, e os jogos de videogames dos mesmos produtos ficam fora do bolo, é preciso notar que o meio em que o produto circula é fundamental para compreender o conceito de “cultura” que norteia o programa do Ministério.

Nos casos citados, Harry Potter por Harry Potter não diz absolutamente nada. A questão é que os suportes Livro e Cinema já estão confortáveis dentro daquilo que é considerado Cadeia da Cultura. Aqui a forma parece mais importante do que o conteúdo: enquanto o videogame é considerado apenas como entretenimento, no livro e no cinema além de entretenimento, ele também é cultura.

Aliás, Cultura neste contexto é uma palavrinha mágica que abre as portas do cofre do tio Patinhas. A Música, o Cinema, o Livro, o Teatro e o Museu são equipamentos culturais bem estabelecidos no painel do mundo sacralizado da Cultura.

O Videogame está longe de ocupar esse lugar confortável – e muito disso, repito, é responsabilidade do próprio mundo gamer, que em grande parte sempre se furtou de entrar no mérito da preocupação política até o dia em que 11 bilhõezinhos de Dilmas tocaram a campainha de sua casa

Aqui fica uma reflexão: tudo isto poderia ter sido evitado caso os gamers e sua indústria tivessem se antecipado às decisões políticas. Teria sido inclusive “fácil” de se evitar esses mamilos; agora que estamos há poucos meses de entrar em vigor o Vale Cultura, o tempo corre contra porque é notória a indisposição da Ministra Marta Suplicy em colocar os games na rubrica do programa.

Mas depois dos fortes incrementos do governo Lula no mundo das políticas públicas de cultura, a caixinha conceitual do que é ou não cultura foi tão alargada nos editais de fomento e de incentivo, que enquadrar os games neste universo não será uma tarefa impossível. Pelo contrário, com boas argumentações sociológicas e econômicas acredito ser tarefa realizável, mas muito trabalhosa.

Sou sim favorável a inclusão dos games ao Vale Cultura, mas não por pensar que existe alguma pureza incontestável do game como cultura, mas porque acredito que o incremento econômico à indústria dos games poderá fortalecer toda uma vasta cadeia da Cultura Digital e Economia Criativa.

Só que pelo pouquíssimo tempo, o esforço será dobrado ou triplicado, e pode até mesmo ser em vão, gerando uma grande frustração no mundo gamer caso o Ministério desconsidere os apelos e argumentos.

Eu só espero mesmo é que disto fique uma lição: política pode ser chato, mas precisamos estar atentos, porque o desleixo produz exatamente esse efeito: a política vem carcomendo pelas bordas silenciosamente até que quando percebemos, já não teremos um mínimo de privacidade na internet, nossos e-mails serão monitorados, downloads serão criminalizados… e o vale Cultura será apenas uma frustração no currículo dos entusiastas dos jogos eletrônicos.

Uma vez que a atitude majoritária do mundo gamer foi relaxar e gozar durante tantos anos, a tarefa será árdua. Mas não deve ser considerada uma missão impossível sob nenhum ângulo. Por isso, mãos à obra quem deseja ver o game como produto cultural no conceito governamental para as políticas públicas de cultura, porque uma boa batalha política está anunciada.

Update 26/02:

O jornal O Globo desta terça-feira trouxe a notícia de que o Vale Cultura poderá ser utilizado com tv’s por assinatura. A notícia surpreendeu a todos, pois até o momento absolutamente nada relacionado às televisões havia sido mencionado pelo governo.

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Murilo Lima

Criador e editor-chefe do Geek Café. Administrador entusiasta de novas mídias, inovação e mentes fora da caixa.

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