3 Mangás que abordam o bullying

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3 Mangás que abordam o bullying

[rightbox]De uns anos para cá aumentou-se a preocupação – principalmente midiática – em relação ao bullying. O que na minha época de escola era tratado como “zuera”, hoje seria considerado bullying. E já era bullying na época, claro; mas a abordagem sobre o assunto aqui ainda era tímida.

Mas desde sempre são conhecidos casos, principalmente norte-americanos, de casualidades relacionadas ao bullying, geralmente na forma de um estudante ou ex-estudante que, ao ter alcançado seu limite, vai à escola armado para se vingar dos bullies. Nem que seja por um filme ou outro, todos nós conhecemos a face do bullying nas escolas dos estados unidos e suas conseqüências.

Menos conhecido é, entretanto, o cenário japonês desta doença social.[/rightbox]

Dezenas de milhares de casos de bullying ocorrem anualmente nas escolas japonesas, sob os olhos de autoridades escolares omissas, se aproveitando da vergonha da própria criança em procurar ajuda. Professores, temerosos de serem considerados inadequados a cumprir suas funções, e diretores, tentando evitar que os casos sejam divulgados pela imprensa e, assim, criem uma má imagem de sua instituição, o que resultaria em perda de prestígio e dinheiro. E assim as vítimas prosseguem sofrendo os mais diversos tipos de torturas – em sua maioria psicológicas – que vão desde obrigar o alvo a se humilhar ou roubar algo, até ameaças contra sua vida. Em situações mais extremas a tortura chega ao nível sexual, forçando a vítima a expor seu corpo e afins.

Há uma grande quantidade de estudantes que cometem suicídio anualmente no Japão, muitas vezes por não agüentarem o que sofrem no dia a dia escolar. É verdade que só uma pequena parcela dessas tragédias é confirmada estar ligada a casos de bullying escolar, mas acredita-se que isto se dá por conta das escolas terem pouco ou nenhum interesse em investigar a fundo este tipo de problema. Num dos casos conhecidos mais recentes – e confirmado ter sua culpa no bullying – uma criança de treze anos se jogou do décimo quarto andar de um prédio para se livrar do seu sofrimento diário.

Psicólogos acreditam que a própria cultura escolar japonesa, que preza o grupo e não o individual, torna as crianças mais solitárias ou tímidas em alvos para seus colegas. Quando até mesmo os professores as enxergam como crianças diferentes e que estão agindo de maneira errada, não é de se espantar que seus alunos sigam o mesmo pensamento.

Somente ano passado começaram a se tomar medidas verdadeiramente incisivas quanto à observação, controle e resolução de casos do tipo, criando-se até mesmo uma equipe especializada dentro das escolas para resolver estes problemas.

Mas já deu de momento didático por hoje.

Quem acompanha mangás deve saber que o Japão é um dos maiores produtores de quadrinhos do mundo, e lá é o tipo de leitura que atinge todas as classes sociais e faixa etárias, portanto tem-se mangás pra crianças até adultos, desde humor e porradaria mágica até mangás sobre economia e negócios. É, isso mesmo. Assim sendo, não é de se espantar que existam mangás que foquem na problemática do bullying, certo? Então indicarei três obras para os interessados no tema iniciarem sua leitura.

Koe no Katachi

koe no katachi manga[leftbox]Koe no Katachi (A forma da voz, em português) é um one-shot que conta a história de Nishimiya, uma garota surda que é transferida para uma nova escola. Por conta de sua condição, que torna também sua capacidade de falar precária, ela anda sempre com um caderno, que usa para interagir com as pessoas ao seu redor. Tudo prossegue tranquilamente até que seus colegas cansam da dependência da garota e a tornam o alvo de bully da sala.

A obra causou bastante polêmica pelo seu tema, e mesmo tendo ganhado um concurso para autores novatos, ficou um tempo em suspensão até que se decidisse onde seria adequado publicá-la. Por fim, a Magazine – segunda revista shonen mais famosa do Japão, e a organizadora do tal concurso – decidiu publicá-la em sua revista mensal.

A autora, mesmo que novata, mostra um domínio excelente da narrativa para nos prender à história e conectar a seus personagens principais – Nishimiya e Ishida, um dos bullies – tornando as meras cinqüenta páginas em uma leitura extremamente interessante e emocionante, crítica e que lhe faz pensar.

Algum tempo depois foi confirmada uma série para Koe no Katachi, que já está em publicação na Weekly Magazine.[/leftbox]

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vitamin-manga

Vitamin

Sawako vive como uma estudante comum até que é vista em uma cena comprometedora com seu namorado, dentro de uma sala de aula. Deste dia em diante seus colegas de sala começam a torturá-la diariamente, e nem mesmo seu namorado se move para defendê-la.

Vitamin é uma obra já bem conhecida, mesmo por aqui, e de uma autora também de certa fama, Suenobu Keiko, conhecida por suas obras que abordam temas escolares de bullying e relacionados. Vitamin tem somente um volume e é uma leitura bem rápida.

Esta obra se diferencia bastante de Koe no Katachi, e retrata o tipo clássico de bullying escolar japonês, onde há somente um alvo, que é atacado diariamente por um grupo de alunos, enquanto os outros membros da turma apóiam tudo à distância ou simplesmente se omitem. Apesar de ser bem mais simplista que as outras obras indicadas, ainda é uma leitura interessante por mostrar alguns aspectos do bullying que os outros não mostram, assim como sua conclusão.

Vale notar que o mangá apresenta conteúdo somente indicado para maiores de idade, então leia à sua própria conta e risco.[rightbox]

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Onani Master Kurosawa

Onani Master Kurosawa

Kurosawa é um garoto colegial comum, excetuando que ele possui um hobby secreto, que executa diariamente no banheiro da escola. Quando é descoberto por uma colega de sala que sofre bullying, ele é obrigado a realizar tudo que ela pede, se não quiser ter sua atividade diária revelada.

É, eu sei. O título e a premissa fazem parecer que o mangá vai rumar pra um hentai, mas não se preocupem que não é nada perto disso. Pra quem não entendeu, Onani Master Kurosawa seria traduzido como Kurosawa, o mestre do onanismo. Se não sabe o que significa onanismo, pesquise; mas pelo amor de deus, não pesquise por imagens, ainda mais se tiver alguém por perto. Pra não correr riscos, pegue um dicionário. Depois não digam que eu não avisei.

Apesar da premissa bizarra, OMK é na verdade um ótimo mangá, maduro e inteligente. A vida escolar e a prática do Kurosawa são usadas como pano de fundo para uma trama psicológica, que se desenvolve de forma excepcional, desde os conflitos até os personagens. O traço é um espetáculo à parte, dando ao mangá um tom mais cru e até sombrio, com um uso auxiliar perfeito de películas. Dá pra ficar elogiando esse mangá o dia todo, então é mais fácil simplesmente indicar que o leiam. Ele é o maior da lista, com quatro volumes.

E, assim como Vitamin, eu indico somente para maiores de idade. Apesar de ser menos explicito que o anterior, ainda assim há bastante insinuação. Mais uma vez, estejam avisados.[/leftbox]

Alguns de vocês podem se perguntar o porquê de eu ter escolhido exatamente estes três. Um dos motivos principais é porque eles se diferenciam bastante, apesar do tema em comum. O primeiro é um shonen, simplista em alguns aspectos, bastante profundo em outros – principalmente pra um shonen – e do tipo que a leitura é extremamente fluída, com uma conclusão que remete à aceitação das diferenças e amadurecimento pessoal. Vitamin por sua vez é um shoujo, e ainda que se valha bastante dos artifícios do estilo, sendo bastante romantizado, portanto dramático, não peca no que faz, e acaba sendo uma obra muito interessante sobre busca de sonhos e objetivos e superação. Onani Master Kurosawa é um seinen, e a mais complexa das três, explorando muito do psicológico dos personagens, com ótimos diálogos e abordagem madura sobre a vida de um adolescente e seus conflitos e problemas escolares. É um mangá sobre erros e acertos, e amadurecimento, acima de tudo.

Creio que essas três obras possuam aspectos interessantes e qualidade o suficiente para ser uma ótima porta de entrada pra temática do bullying nos mangás. Boa leitura!

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Estudante de Geologia e portanto sommelier de RU, leitor voraz de quadrinhos, pretenso escritor, gato polar nas horas vagas e aluno da Escola Mangá Khan de Melodrama.

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