Batman vs Superman: A Origem da Justiça | CRÍTICA

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Batman vs Superman: A Origem da Justiça | CRÍTICA

Os quadrinhos sempre tiveram uma estreita relação com o cinema e não é difícil ver as influências mútuas entre as duas linguagens. No quesito adaptações, só para ter uma ideia, em 1920 tivemos a primeira transposição de um quadrinho para o cinema: Bring up Fahter, (batizado de Pafúncio no Brasil) teve uma série de três curtas produzidos.

E o primeiro super-herói a ter uma adaptação live-action foi o Capitão Marvel (hoje conhecido como Shazam), que em 1941 teve uma série semanal exibida nos cinemas – um ano depois de ter aparecido pela primeira vez nos quadrinhos. Vejam só: são 75 anos de super-heróis invadindo as telas do cinema e da televisão, às vezes em adaptações mais fiéis às suas origens, outras nem tanto.

Falando especificamente da DC Comics, a editora tem seis filmes do Superman e oito do Batman (incluindo o filme do seriado dos anos 1960). Poucos podem ser considerados obras-primas do gênero – na minha modesta opinião, apenas os dois primeiros do Super, os dois primeiros do Morcego (Tim Burton) e a trilogia Nolan entram nessa lista. No resto do tempo, a DC ficou metendo os pés pelas mãos, desperdiçando oportunidades de fazer algo épico com seus personagens (sim, estou falando de Superman Returns e Lanterna Verde).

Quando a Marvel entrou com os dois pés na porta do cinema com Homem de Ferro (2008) estabelecendo um universo compartilhado, igual aos quadrinhos, a DC percebeu que estava em franca desvantagem e começou a planejar seu contra-ataque.

Man of Steel foi um sopro de esperança da DC, mas foi uma aposta no certo e dividiu os fãs. Então, como a DC poderia criar um universo cinematográfico interligado para seus personagens clássicos, muito mais populares do que aqueles do Marvel Studios?

Simples, ora: é só chamar o Batman!!!!!

E foi assim que aquele que seria a seqüência de Man of Steel virou Batman v Superman: A Origem da Justiça. De um easter-egg no filme Eu Sou a Lenda para a realidade foi um longo caminho.

Mas, será que a DC chegou lá?

Senta que lá vem história….

A trama acontece dezoito meses depois dos eventos mostrados em Man of Steel. Metrópolis foi reerguida e há uma estátua em homenagem ao Superman (Henry Cavill). Porém, a população fica dividida entre considerar o alienígena um herói, um salvador da Terra, ou um superser que não dá a mínima para os humanos e comete atos sem pensar nas conseqüências – afinal, foram milhares de vidas perdidas durante seu confronto com Zod.

Num flashback, a luta entre os kryptonianos ganha ares muito mais dramáticos do que os mostrados no filme original – pois estamos observando o embate de dois deuses ao nível do chão, percebendo pela primeira vez o terror nos olhos das pessoas – é um terror palpável, concreto. Nessa parte, somos apresentados a Bruce Wayne (Ben Affleck) que chega à cidade tentando salvar seus funcionários. O bilionário fica chocado e revoltado com o descaso do Superman em salvar vidas. Seu olhar de ódio é assustador!

O Homem de Aço não passa incólume pelo que aconteceu. Apesar de continuar dando o melhor de si para salvar vidas, ele ainda carrega dúvidas sobre o seu papel na Terra. Porém, enquanto ele pensa, outros se movem para entender qual o peso que um alienígena superpoderoso pode ter em nossa sociedade e como podem detê-lo caso necessário: a senadora Finch (Holly Hunter) quer responsabilizá-lo pelas mortes em Metrópolis, o jovem milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) pretende destruir sua aura de bom moço e o nosso velho conhecido Bruce Wayne/Batman quer fazer justiça.

Quando um resgate seguido de mortes no Oriente Médio e um atentado em solo americano acontecem, o Superman é mais uma vez responsabilizado, tanto por ter agido quanto por ter se omitido. É o ponto que faltava para o Batman decidir que tem de detê-lo. Ao mesmo tempo, Lex Luthor segue adiante com seu plano, que envolve a tecnologia da nave kryptoniana que trouxe Zod à Terra, e adquire contornos grandiosos e mostra toda a sua megalomania.

Movidos como peões por um inimigo que desconhecem, o Cavaleiro das Trevas e o Homem de Aço partem para um embate mortal, onde apenas um poderá sair vencedor.

Basicamente, esta é a trama do filme – falar mais seria arriscado e poderia estragar a experiência para quem ainda não viu.

O lado bom…

Batman vs Superman - A Origem da Justiça Gal GadotComo porta de entrada para o universo cinematográfico da DC, podemos dizer que o filme cumpre o seu objetivo. Temos um novo Batman, muito mais próximo à sua contraparte dos quadrinhos e perfeitamente pronto para interagir com meta-humanos; uma Mulher-Maravilha de forte presença, como deveria ser; e um vislumbre dos demais membros do grupo (Flash, Aquaman e Cyborg), com destaque para o velocista escarlate em uma cena foda que remete a uma grande saga da DC!

Para quem ficou receoso com a escolha de Ben Affleck para o papel do Batman, pode ficar tranqüilo: Affleck já é o melhor Morcego de todos os tempos e já quero um filme solo dele prá semana que vem. Durão, ele transpira experiência e segurança, seja como Bruce Wayne, seja como seu alter ego vestido de preto. Ágil, violento e de poucas palavras, o herói encarna com precisão uma versão mais jovem do Batman de Frank Miller na HQ O Cavaleiro das Trevas. Ele não diz “I’m Batman”, mas sua voz alterada eletronicamente é assustadora. A seqüência de luta contra os capangas de Luthor é belissimamente coreografada e um dos pontos altos da produção.

Henry Cavill continua bem na sua interpretação de Superman, embora eu tenha ficado frustrado com a abordagem dada ao personagem. Um ano e meio depois, ainda vemos um Kal-El sério, com expressão dura. Why so serious, Kal? Cadê a evolução do personagem? Desse jeito, fica meio forçado descrever a luta entre os heróis de “combate entre a luz e as trevas” – está mais para trevas X trevas. Espero que da próxima vez que aparecer ele seja realmente esse herói mais solar que todos nós conhecemos dos quadrinhos.

 

Fiquei com medo do Lex Luthor de Jesse Eisenberg quando o vi nos trailers. Mas não é que ele surpreendeu? O personagem transita entre a genialidade e a megalomania, mostrando um pouco de inaptidão com relações sociais que às vezes beira o ridículo. Mas não se engane: ele não é engraçadinho. E toda a sua periculosidade aparece no terceiro ato do filme, comprovando que ele é um vilão na melhor acepção da palavra.

Quando anunciaram Gal Gadot para o papel da Mulher-Maravilha eu me perguntei: quem?

Ao ver de quem se tratava, achei, como todo mundo, ela muito mirradinha para encarnar Diana de Themyscira. Mas esperei para ver, já que não conhecia seus dotes interpretativos.

Só posso dizer uma coisa: já quero um filme da Mulher-Maravilha urgente muito mais do que um do Batman (sim, eu sei que o filme dela está em pré-produção e tals e que vai estrear em junho do ano que vem), mas pense numa personagem que desde a primeira aparição já nos magnetiza com sua segurança e imponência, mesmo sendo mirradinha. Sua entrada em cena na pele da guerreira amazona eleva o nível do filme e nos deixa com um gostinho de quero mais! Além disso, sua presença na trama é orgânica, sem pára-quedismos. Ponto para os roteiristas.

Os demais personagens cumprem sua função. Gosto muito da Holly Hunter e sua senadora Finch, apesar de pouco tempo em tela, é apresentada de forma correta. Laurence Fishburne está à vontade com seu Perry White.

Alfred Pennyworth é um personagem importante e carismático do universo do Morcego e aqui, interpretado por Jeremy Irons (um puta ator), mais uma vez não faz feio, empatando sua performance com o Alfred de Michael Caine.

Outra coisa boa do filme são as referências diretas a hq’s como Batman O Cavaleiro das Trevas (de Miller) e Crise nas Infinitas Terras (de Wolfman e Perez) em diálogos e cenas que farão leitores veteranos abrirem um sorrisão.

E a tão prometida batalha entre os dois heróis é tudo aquilo que esperávamos, uma versão live-action do embate mostrado na HQ de Miller e já adaptada para uma animação. O Batman com sangue nos olhos decidido a despachar o Super dessa prá melhor é de arrepiar. Para ficar melhor só faltou o Oliver Queen cotó mandando a flecha de kryptonita nas fuças do Superman…
Resumindo: ele serve como introdução ao universo mitológico dos heróis da DC, os atores cumpriram com louvor sua missão em dar veracidade aos personagens e as referências aos quadrinhos são ok.

Batman vs Superman

Tá tudo muito bom, ta tudo muito bem, mas…

Apesar dos pontos positivos apontados acima, Batman v Superman não é tudo aquilo que se esperava dele.

Um problema sério é o ritmo bastante irregular do filme e a montagem tem culpa nisso. Em vários momentos percebemos que faltou uma cola que ligasse as sequências. Por exemplo, nos trailers vemos Batman ligar seu batsinal e em seguida o Homem de Aço surge flutuando, ameaçador. No filme, o hiato entre o batsinal e o surgimento do Superman é de looongos minutos – não sei como a armadura do morcego não enferrujou. Esse tipo de estrutura só serve para acabar com a tensão gerada pela expectativa.

Snyder também desperdiça tempo ao mostrar, pela enésima vez, a origem do Batman – com muita câmara lenta, claro. Sério que precisava disso? Do mesmo jeito vários minutos são desperdiçados com os devaneios do Morcego. Alguns são belíssimos, como a sequência do deserto, quase que totalmente exibida nos trailers e que tem uma fotografia excelente – mas parece que foram colocadas lá apenas para ser isso mesmo: esteticamente bonitas.

Outra coisa são as motivações dos personagens para se estapearem. O Batman tem um motivo para confrontar o Superman e isso foi bem construído durante os dois primeiros atos; já o Super entra na briga por um motivo um tanto quanto forçado, graças ao plano queijo-suíço de Luthor, o grande maestro por trás de tudo.

O grande problema do filme é que ele não consegue, em nenhum momento, ser emocionante. São duas horas e meia de aridez – correta, na linha, cumprindo o riscado – mas sem alma.

Então é ruim?

Não, longe disso. É um bom filme de quadrinhos de super-heróis que cumpre o objetivo de juntar duas lendas com toda a grandiosidade que eles merecem. A DC está seguindo um caminho inverso ao da Marvel e isso é bom, pois nos dá outra visão sobre o gênero e nos deixa na expectativa de como pode funcionar, por exemplo, termos um filme da Liga antes dos filmes solo do Flash e do Aquaman.

Eu quero que BvS faça sucesso e dê muito dinheiro, pois isso ajuda na concretização dos demais projetos dos dois estúdios – e isso é tudo o que nós, fãs de super-heróis, queremos, certo? Mas também espero, sinceramente, que a DC consiga (e ela pode) fazer melhor nos próximos filmes que virão, principalmente no agora aguardadíssimo Liga da Justiça Parte 1 (novembro de 2017), que tem a missão de juntar todos os heróis e amarrar as enigmáticas pontas soltas de BvS.

Nota: 3 canecas grandes de Capuccino.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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