X-MEN APOCALIPSE | CRÍTICA

Mundo Geek

X-MEN APOCALIPSE | CRÍTICA

O ano 2000 entrou para a história das adaptações cinematográficas de super-heróis como o marco inicial de uma nova abordagem para aqueles seres coloridos que usam cueca por cima das calças – guardadas as devidas proporções, digamos que esse foi o início da Era de Prata dos filmes de super-heróis.

X-Men, de Bryan Singer, foi um divisor de águas ao renovar um gênero que estava praticamente morto, desacreditado depois de Batman & Robin (Joel Schumacher, 1997), aquela coisa à qual me recuso a chamar de filme.

Deixando de lado os uniformes coloridos e as máscaras espalhafatosas, Singer se deteve no principal: a essência dos personagens! Ou seja, ele manteve a premissa dos heróis mutantes temidos e odiados por aqueles que protegem e que servem como metáfora para todo o tipo de preconceito. Com um tom mais sério, o filme agradou público e crítica e de certa forma abriu as portas para outras produções do gênero.

Enquanto X-Men 2 (2003) elevou o nível da franquia mutante, X-Men: O Confronto Final (Brett Ratner, 2006) praticamente decepcionou meio mundo de gente e deixou os mutunas de molho por cinco anos.

Quando a Fox decidiu retomar a franquia, optou por não rebootar o universo apresentado até então e sim tentar consertar os furos narrativos e cronológicos que viraram uma bagunça depois de X-Men Origens: Wolverine. Então X-Men Primeira Classe (Matthew Vaughan, 2011) tornou-se o novo e canônico universo mutante nos cinemas, abrindo portas para o conserto geral perpetrado por X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (Singer de novo, 2014).

Ou seja, a história dos X-Men que vale agora é essa, contada de dez em dez anos – a esperança é que, ao final (se é que teremos um final para a franquia), tudo faça sentido.

X-MEN APOCALIPSE

E é justamente essa história linear iniciada em X-Men Primeira Classe (anos 1960) e continuada em Dias de Um Futuro Esquecido (anos 1970) que vai desaguar no mais novo filme da franquia: X-Men Apocalipse (Bryan Singer – 2016 – 144 minutos), que se passa nos anos 1980, aquela década esquisita onde existiam mullets, ombreiras, gravatas com estampa de teclado e calças coloridas.

Nos anos 1960, vimos como o plano de Sebastian Shaw terminou por revelar ao mundo a existência dos mutantes. O confronto entre os X-Men e Shaw deixou as nações do mundo temerosas diante de pessoas com tanto poder.

X-MEN APOCALIPSE[leftbox]Dez anos depois, em 1973, o mundo ainda está preocupado com os mutantes, principalmente depois que Magneto (Michael Fassbender) é preso injustamente, acusado de ter assassinado o presidente John Kennedy. Mais uma vez disposto a iniciar uma guerra, Erik tenta assassinar o presidente Nixon, mas é impedido por Mística (Jeniffer Lawrence) – cujo ato mostra à humanidade que nem todos os mutantes são malignos. Isso reestabelece a confiança no Homo Superior.

É justamente nesse contexto de paz entre mutantes e humanos que se passa o novo filme. Em 1983, tudo parece ok, mas Mística sabe que essa paz é relativa, já que vive resgatando mutantes de prisões onde são explorados e violentados – como na arena clandestina onde o Anjo (Ben Hardy) e Noturno (Kodi Smit-McPhee) são forçados a lutarem entre si. Tendo se tornado uma lenda pela comunidade mutante, ela rejeita a alcunha de heroína e se vê como uma guerreira que luta pela sua raça.

Já na Escola para Jovens Superdotados de Charles Xavier (James McAvoy) o clima é de tranquilidade, com o professor realizando seu sonho de proteger e orientar seus jovens alunos no controle dos seus poderes e na convivência pacífica com os humanos, contando com a ajuda de Hank McCoy (Nicholas Hoult).

Magneto abandonou sua militância pró-mutante e tenta levar uma vida normal dez anos depois dos eventos em Washington. Escondido na Polônia, ele constituiu família e está em paz.

Toda essa tranquilidade começa a ruir com o ressurgimento de En Sabah Nur (Oscar Isaac), também conhecido como Apocalipse, o primeiro e mais poderoso mutante da Terra. Ele era venerado como um
deus no Antigo Egito, talvez mais por medo do que por convicção religiosa. Sempre protegido pelos seus quatro cavaleiros, Apocalipse absorvia os poderes de outros mutantes e com isso tornou-se praticamente imortal.

Traído por aqueles que o consideravam um falso deus, En Sabah Nur acabou soterrado dentro de uma pirâmide enquanto absorvia os poderes de um mutante. Milênios depois, o local onde está enterrado é descoberta por seguidores de uma seita que acredita ele ser o salvador. Desperto de seu sono profundo, Apocalipse percebe que o mundo caminha para a destruição por conta dos atos do Homo Sapiens – guerras, violência, destruição ambiental.

Para ele, sua ausência permitiu que a Terra seguisse um caminho errado. Para isso, ele pretende recriar o mundo à sua maneira, recrutando mutantes para recompor sua guarda pessoal e mostrar ao Homo Superior que ele é aquele que vai salvá-los da extinção.

Nessa busca, ele encontra primeiro a jovem Ororo Munroe (Alexandra Shipp), que vive nas ruas do Cairo fazendo pequenos furtos; depois, recruta Elisabeth Braddock, a Psylocke (Olivia Munn), guarda-costas do mutante Caliban; o próximo é Warren Worthington III, o Anjo (Ben Hardy); por fim, Apocalipse encontra um furioso e amargurado Magneto, que se torna seu Cavaleiro mais poderoso.

Nesse meio tempo, Alex Summers (Lucas Till) chega à escola com seu irmão caçula, Scott (Ty Sheridan), para que Xavier o ajude a controlar seus poderes; ao mesmo tempo, Mística aparece na mansão com Noturno preocupada com a situação de Magneto. Ao localizar seu velho amigo, Xavier termina chamando a atenção do Apocalipse, que vê no maior telepata do mundo o elemento que faltava para a concretização de seus planos de conquista.[/leftbox]

x-men-pocalipse-critica

Nesse momento, temos início ao confronto entre  o primeiro mutante e os jovens e inexperientes X-Men para salvar o planeta da destruição.

VAMOS FALAR DE COISA BOA?

Antes de apontar os deslizes, vamos falar dos acertos.

O primeiro é o excelente elenco do filme. James McAvoy e Michael Fassbender , muito à vontade em seus papéis, dispensam comentários – e o arco dramático do Magneto é um dos achados da história, com Fassbender mostrando o que sabe fazer de  melhor.

Oscar Isaac dá imponência ao seu Apocalipse, mesmo que sob toneladas de maquiagem e figurino. Fiquei preocupado com o visual do vilão nos trailers, mas assim que entrei na vibe do filme nem me dei conta. Aliás, acho que todo o exagero do personagem foi proposital: dos diálogos grandiloquentes ao excesso de breguice da roupa – o objetivo foi marcar a época na qual a história acontece.

Jeniffer Lawrence e Nicholas Hoult também não decepcionam, apesar de não serem os destaques.

As novas aquisições também não fazem feio, especialmente os jovens Ty Sheridan (Cíclope), Alexandra Shipp (Tempestade) e Kodi Smit-McPhee (Noturno) ; nossa conhecida Sansa, Sophie Turner, está maravilhosa como Jean Grey; infelizmente, a Psylocke de Olivia Munn não tem o destaque que parecia ter nos trailers, resumindo sua participação a empolgantes cenas de ação (pelo menos isso). Mesma coisa o Anjo de Bem Hardy, que deve ter meia fala e sai calado.

Evan Peters, totalmente à vontade com seu Mercúrio, é novamente o alívio cômico e dono de duas cenas onde mostra todo o potencial de seus poderes – embora uma seja praticamente uma recriação da já clássica sequencia mostrada em DoFP, só que dessa vez ao som dos Eurythimics.

Rose Byrne repete seu papel de Moira McTarget, a agente da CIA que ajudou Xavier em First Class e que surge como um dos fardos que o Professor X carrega nos ombros por conta de suas decisões do passado.

Falando em cenas de ação, o filme é praticamente um gibi dos X-Men dos anos 80/90 em movimento. Os fãs mais roots vão gostar muito das sequencias de luta e da destruição gigantesca causada pelo vilão.  Para quem reclamou da trilogia anterior, esse é o filme mais fiel em termos de representação dos poderes dos personagens.

A relação entre os personagens é bem desenvolvida e podemos ver a forte amizade que une os novos X-Men nascendo, principalmente a aproximação entre Scott e Jean.

Ou seja, todas as peças estavam no tabuleiro, esperando por uma jogada de mestre, um xeque-mate.

PORÉM…

X-MEN APOCALIPSE[leftbox]Assim que reaparece no século XX, Apocalipse inspira medo. Embora a motivação dele lembre muito a de Ultron em Vingadores 2 (o mundo está sendo devastado pela humanidade e a solução é fazer uma limpeza geral exterminando o Homo Sapiens), em nenhum momento o vemos vacilar ou questionar suas ações. Ele tem certeza absoluta do que deseja.

Na grandiosa sequencia inicial do filme, podemos ver como Apocalipse era venerado (e temido) como uma poderosa divindade. No entanto, ao ressurgir, esse lado messiânico, religioso, praticamente desaparece do plot – senti falta do impacto que um ser como ele causaria entre a comunidade mutante, algo que foi mostrado em X-Men 3, onde Magneto torna-se um líder respeitado. E o grandioso plano do vilão termina se transformando em mais um plano genérico de destruição mundial.

Outra coisa é que a Fox precisa desesperadamente de alguém como Joss Whedon ou os irmãos Russo para equilibrar as coisas na sua franquia mutante em termos de apresentar com qualidade todos os personagens que coloca no filme. Há uma profusão de personagens interessantes cujas personalidades não são desenvolvidas e aparecem apenas como fan services que não tem nenhuma função na trama, caso claro dos mutantes Jubileu e Anjo.[/leftbox]

A luta final entre os X-Men e Apocalipse é digna de um gibi, mas senti a falta de mais dramaticidade. Afinal, Apocalipse se via como um salvador da raça mutante e termina sendo atacado por aqueles que queria proteger. Isso renderia alguns diálogos bons, pode acreditar, e daria mais profundidade ao plot do vilão.

E embora goste muito dos personagens, acho que a próxima trilogia deve deixar mais de lado Magneto e Mística e se concentrar nos novos X-Men – existem 50 anos de histórias para serem aproveitadas e precisamos de novas ameaças. Deixem Magneto e Mística descansarem.

Ah, claro, como eu poderia me esquecer de Wolverine? Há uma pequena, mas marcante participação de Hugh Jackman (já revelada pelos trailers) que muitos estão dizendo ser desnecessária por não ter nada a ver com a narrativa do filme; outros que é um puro fan service que deturpa a cronologia dos X-Men; e outros dizendo ser a oitava maravilha do mundo.

De todas, acho graça naquela que fala de “deturpar a cronologia”. De qual cronologia estamos falando? Daquela bagunçada dos quadrinhos? Ou da primeira trilogia, que foi praticamente apagada com DoFP?

É um fan service? É, e dos bons. Não acho que atrapalhou a narrativa. De certa forma, é quase um pedido de desculpas da Fox pelo que tem feito com o Carcaju no cinema e uma prévia do que está por vir no aguardado Wolverine 3, que terá censura 18 anos.

E, claro, ao melhor estilo Marvel, o filme tem uma cena pós-créditos. Só fui entender o que tinha visto depois de pesquisar no Google. Então, acho que muita gente vai passar batido.

VEREDITO

Mesmo não sendo o filme que eu esperava que fosse, gostei de X-Men Apocalipse. Embora seja o mais fraco dessa nova trilogia, está longe de ser um X-Men 3: O Confronto Final.

Ele é coerente com seus antecessores e encerra um ciclo.

Ele é divertido e tem boas ideias.

Tem excelentes atuações e cenas de ação grandiosas.

Talvez seja o filme que mais se aproxima do espírito dos X-Men dos quadrinhos.

Quem é fã roots dos quadrinhos mutantes das décadas 80/90 vai gostar, apesar do desperdício do vilão.

Quem detesta a franquia da Fox e vive rezando para os mutantes voltarem para a Marvel vai continuar detestando.

O QUE ESPERAR DA FRANQUIA

Recentemente, Simon Kinberg, o produtor executivo da franquia, afirmou que o próximo filme irá se passar nos anos 1990 e que, provavelmente, teremos uma adaptação (decente, espero) da Saga da Fênix Negra. Aí Singer arrematou dizendo que gostaria muito que o filme se passasse no espaço.

Será que, finalmente, os fãs terão aquilo que sempre pediram num filme dos X-Men? Será que veremos os Shiars e sua Guarda Imperial? Os Skrulls? Os Krees?

De minha parte, acho cedo para isso. Gostaria muito que a primeira ideia sobre a trama dos anos 1990 fosse reconsiderada: o surgimento do vírus Legado, o que faria uma ponte com a epidemia do vírus HIV, mantendo assim a coerência de relacionar as histórias com acontecimentos reais.

Por fim, parece que Singer não vai largar o osso dos mutantes tão cedo. Tudo indica que ele vai dirigir o próximo filme – mas, claro, tudo isso depende da recepção da crítica (que anda meio dividida) e da bilheteria final. Mas se X-3 e Wolverine: Origens conseguiram arrecadar o dobro do que custaram, acho que Apocalipse se paga fácil, fácil.

Que venha X-Men 4!!

NOTA: 3 xícaras médias de café expresso

Continuar lendo
Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

Deixe seu comentário!

Mais em Mundo Geek

Publicidade

Artigos mais vistos

Publicidade
To Top