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Geeks, quadrinhos e cinema: como tudo começou

Uma ode aos Comic Book Geeks

25mai2012
Geeks, quadrinhos e cinema: como tudo começou

Eu sou de um tempo em que ler quadrinhos era coisa de desocupado, coisa de criança; quadrinho era “cultura inútil” – expressão repetida por todos os professores que confiscavam meus gibis, mesmo quando eu não estava lendo os mesmos durante a aula.

Como as primeiras histórias em quadrinhos, surgidas lá no finalzinho do século 19, eram basicamente do gênero cômico, rapidamente foram associadas ao publico infantil e esse estereótipo se perpetuou por um bom tempo. Assim, qualquer não-criança que fosse pego em flagrante lendo uma HQ era logo vítima de bullying.

Só que, enquanto muita gente via apenas historinhas engraçadinhas e banais, os produtores de cinema tiveram outra percepção e viram boas ideias (e dólares) explodindo naquelas páginas coloridas! Foi por isso que já em 1900 (!!) os cinemas norte-americanos exibiram a primeira adaptação de uma HQ: Happy Hooligan, baseado na hq escrita e desenhada por Frederick Burr Opper (publicada entre 1900-1932), foi dirigido por J. Stuart Blackton e inaugurou o namoro entre as duas linguagens.

Outras hq’s foram adaptadas no decorrer dos anos, mas foi com os super-heróis que o cinema fez a festa. O Superman, criado em 1938 por Jerry Siegel e Joseph Shuster, foi o estopim de um dos gêneros mais rentáveis da história das histórias em quadrinhos e a gênese de toda uma indústria do entretenimento. Em 1939 o sombrio Batman (de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson) veio fazer companhia ao azulão. E em 1940 mais de 400 super-heróis (!) enchiam as bancas de jornal com colantes coloridos e poderes fantásticos.

Reign of the Superman thumb Zack Snyder Superman Super Heróis Nerd Isaac Asimov Irmãos Wachowski Geek Ficção científica Destaques Batman  Geeks, quadrinhos e cinema: como tudo começouscience fiction siegel thumb Zack Snyder Superman Super Heróis Nerd Isaac Asimov Irmãos Wachowski Geek Ficção científica Destaques Batman  Geeks, quadrinhos e cinema: como tudo começousiegel e shuster thumb Zack Snyder Superman Super Heróis Nerd Isaac Asimov Irmãos Wachowski Geek Ficção científica Destaques Batman  Geeks, quadrinhos e cinema: como tudo começou

Todo esse sucesso não passou despercebido dos estúdios, que rapidinho produziram dezenas de séries semanais para o cinema com aquelas figuras que usavam as cuecas por cima das calças: Capitão América, Batman, Superman, Capitão Marvel (hoje rebatizado de Shazam) foram os primeiros supers a encantar toda uma geração com seus feitos mirabolantes.

Mas o que toda essa aula de história (espero que ninguém tenha cochilado aí) tem a ver com geeks, nerds e afins?

É que muito antes desses termos terem sido inventados, os criadores dos super-heróis se encaixavam direitinho na descrição. Jerry Siegel, Joe Shuster, Bob Kane, Jerry Robinson e Will Eisner (só para ficar nos mestres) eram fãs de cinema, quadrinhos e de histórias de ficção científica, fantasia e detetives que acompanhavam avidamente em livros baratos (os pulps) como Amazing Stories, Astounding Science Fiction (que publicava contos de Isaac Asimov), Story Detectives e The Popular Magazine.

Siegel e Shuster chegaram a publicar fanzines com contos de ficção-científica e foi num deles (o Science Fiction #3) que surgiu a primeira versão do Superman.

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Pois bem. Graças a esses “geeks primordiais” (Siegel e Shuster, Kane, Finger, Robinson, Eisner), toda uma geração de “novos geeks” foi surgindo, agora se alimentando com toneladas de quadrinhos que mesclavam os gêneros policial, aventura e ficção científica; com o tempo, esses novos geeks foram crescendo e alguns deles queriam ir além de colecionar/ler os seus heróis preferidos: eles também queriam criar seus próprios heróis e universos!

Quatorze anos depois do Superman, dois desses novos geeks mudaram para sempre a cara dos personagens que usavam cueca do lado errado. Stanley Lieber e Jacob Kurtzberg (mais conhecidos como Stan Lee e Jack Kirby) estabeleceram um novo conceito para os super-heróis: agora nem sempre eles venciam, alguns eram feios, outros enfrentavam problemas como falta de dinheiro, tinham relacionamentos instáveis, viviam todos no mesmo universo e, a revolução das revoluções, as histórias seguiam uma cronologia! Esse pé no realismo sacudiu a indústria dos quadrinhos e estabeleceu um padrão, logo seguido pela concorrência.

E claro, aquele velho namoro entre cinema e quadrinhos foi reatado.

Essa nova maneira de contar histórias de super-heróis (surgida em 1962 com o Quarteto Fantástico) formou toda uma nova geração de geeks (hã… pós-new geeks?). Esses caras cresceram, acrescentaram na receita os primeiros super-heróis, ficção científica no cinema, cultura pop, tecnologia e agora, quarenta anos depois, começaram a botar as manguinhas de fora.

Nos quadrinhos, podemos incluir nessa nova geração (pós-new geeks?) escritores como Grant Morrison, Neil Gaiman, Alan Moore, Warren Ellis, Brian Michael Bendis e Mark Millar como fruto dessa mistura. Seus quadrinhos vendem como água porque são bons e exploram toda essa mistureba, às vezes sutilmente.

Clssicos dos quadrinhos thumb Zack Snyder Superman Super Heróis Nerd Isaac Asimov Irmãos Wachowski Geek Ficção científica Destaques Batman  Geeks, quadrinhos e cinema: como tudo começou

Outros enveredaram pelo cinema. Joss Whedon, Zack Snyder, J. J. Abrams, Bryan Singer, Sam Raimi, Matthew Vaughan, Jon Favreau e os Irmãos Wachowski (só prá citar os mais conhecidos) são geeks por excelência. Em seus filmes (sejam adaptações de heróis de quadrinhos ou conceitos “originais”) as referências à cultura nerd/geek/pop são explícitas (cujos melhores exemplos são Darkman, de Raimi, Sucker Punch, de Snyder e a trilogia Matrix, dos Wachowski); quando levam para as telas heróis surgidos nos quadrinhos, eles tratam os personagens com respeito (quem viu Os Vingadores sabe do que estou falando), tentando levar para os filmes o máximo de fidelidade possível nessa transposição. Para o bem ou para o mal, eles fazem a alegria de Hollywood com seus blockbusters milionários.

Fugindo do estereótipo dos geeks/nerds, esses caras estão longe de serem gordos, solitários, insociáveis e solteiros incuráveis. Quer um exemplo? Matthew Vaughan é casado com a menina mais bonita da escola top alemã Claudia Schiffer.

Todos esses autores, desde Siegel e Shuster, passando por Lee e Kirby e chegando em Bendis, Morrison, Moore, Gaiman e afins – e até os diretores de cinema citados, são Comic Book Geeks, conforme a categorização da Ordem Sagrada dos Geeks.

Esse tipo de geek é aquele que conhece na ponta da língua as diversas formações dos X-Men, da Liga da Justiça e dos Vingadores, o número do CPF de Wolverine, qual a super-heroína mais gostosa dos quadrinhos; recita sem gaguejar frases memoráveis de Watchmen e Batman O Cavaleiro das Trevas (os quadrinhos) e amaldiçoa até a sétima geração do infeliz diretor que perverteu seu personagem preferido (essa foi pra você, Joel Schumacher!); frequenta convenções, encontros, seminários, congressos acadêmicos e mesas de bar onde o assunto é quadrinhos – às vezes vestido como seu personagem preferido. Tem gente que faz até mestrado/doutorado falando de quadrinhos! Eu, por exemplo, me encaixo na maioria das definições citadas. Sou um Comic Book Geek, com certeza. E você??

Pois é, o mundo dá voltas. Quem diria que depois de anos de bullying, gostar de quadrinhos se tornaria uma coisa sexy?

Prá terminar: ser nerd/geek independe de idade. O nerd mais old school que conheço é o meu pai – e bota old school nisso: ele tem 73 anos e foi meu Obi-Wan Kenobi nos ensinamentos da Força do mundo nerd. Quer saber mais sobre essa história? Então dá uma olhada aqui.

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Bruno Alves

Desenha, ensina, bloga, ama...e descansa com preguiça de escrever bio, que ninguém é de ferro.

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