A Morte de Jean DeWolff | Crítica

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A Morte de Jean DeWolff | Crítica

Ultimamente, as coisas não andam lá muito bem para o Homem-Aranha, o melhor super-herói do Universo Marvel. Nos cinemas, o coitado ganhou um reboot prematuro que só fez reafirmar o quanto os dois primeiros filmes de Sam Raimi são bons; nos quadrinhos, é só lambança, do patético fim do seu casamento com Mary Jane até a possessão do seu corpo por um de seus maiores inimigos, o Dr. Octopus.

Mas quadrinho de super-herói é assim mesmo, sempre em busca da audiência perdida – por isso esses altos e baixos qualitativos.

Porém, houve uma época na qual os quadrinhos de super-heróis não sofriam com a concorrência de outras mídias como videogames e IDA’s (Instrumentos de Dispersão da Atenção, como a internet): os anos 1980!

A década de 80 é um período onde vários personagens tiveram suas fases douradas, com histórias marcantes e que hoje são consideradas clássicas. Foi assim com os X-Men de Chris Claremont e John Byrne e o Demolidor de Frank Miller.

O Homem-Aranha não estava fora dessa leva. Entre tantas histórias de qualidade que foram publicadas naquele período, uma sequência ganhou destaque: A Morte de Jean DeWolff, publicada em quatro partes (Peter Parker – The Spectacular Spider-Man #107-110, 1985-1986) e que se tornou uma das melhores hq’s do Cabeça de Teia.

A Morte de Jean DeWolff acaba de ser republicada pela Panini em uma edição especial encadernada (17×26 cm, 172 páginas, cor, capa cartão, lombada quadrada, papel LWC, R$ 21,90) que vale muito a pena. A hq tem roteiro de Peter David, um cara acima da média que também teve brilhantes passagens pelo Hulk e pela X-Force, e desenhos de Rich Buckler e Sal Buscema.

HOMEM-ARANHA_A MORTE DE JEAN DEWOLFF.inddJean DeWolff era capitã da polícia de Nova Iorque e foi criada por Bill Mantlo e Sal Buscema em 1976. Atuou em diversas hq’s dos heróis da Marvel, mas era na revista do Aranha onde ela mais se destacava, já que era uma das únicas integrantes da polícia que não implicava com o aracnídeo.

A hq começa com uma breve biografia da personagem, explicando porque ela se tornou uma policial, para logo em seguida nos mostrar a descoberta do seu corpo pela polícia. A morte da capitã mexe com toda a corporação. Nesse meio tempo, Peter Parker caminha pela cidade com o, na época, namorado de sua Tia May, Ernie Popchik.

Ao se despedirem, Ernie é violentamente atacado por uma gangue. Peter, já como o Aranha, captura os bandidos e os entrega a polícia. E aí fica sabendo da morte de Jean.

Decidido a encontrar o assassino de sua amiga, o Aranha entra em contato com Stan Carter, o detetive que ficou responsável pelo caso. Ao entrar no apartamento da capitã para ver se encontrava alguma pista, o Aranha termina descobrindo que Jean DeWolff era mais do que uma admiradora – ela estava apaixonada por ele. Isso dá ao herói uma motivação maior para encontrar o assassino.

O vilão da história só dá as caras no dia do julgamento da gangue que atacou Ernie Popchik. Chamando a si mesmo de Devorador de Pecados, ele assassina o juiz Rosenthal, que acabara de julgar os agressores de Ernie Popchik. Ao fugir do fórum (onde foi confrontado rapidamente por Matt Murdock, a identidade secreta do Demolidor), ele termina enfrentando o Homem-Aranha no meio da rua – nessa luta, algumas pessoas são baleadas e o herói, depois de descobrir que o misterioso mascarado é o assassino de Jean, leva uma surra do bandido.

Homem-Aranha-A-Morte-de-Jean DeWolff - 01

O que vem a seguir é um jogo de gato e rato, com o Homem-Aranha, o Demolidor e a polícia caçando o assassino, que mata mais uma pessoa. A trama, escrita por Peter David, é cheia de reviravoltas e também chama a atenção pelos temas que discute (contradições da justiça, violência urbana, política, mídia) de maneira fluida, sem didatismos.

No fundo, é uma excelente história de investigação policial que não esquece o lado “super” do Universo Marvel. O embate entre o Homem-Aranha e o Demolidor é antológico e vai além do físico – na verdade, ele é mais ideológico. Enquanto Matt Murdock quer que a lei seja cumprida, Peter Parker quer se vingar do assassino. E acredite, você nunca viu um Homem-Aranha tão surtado como nessa hq.

E não estranhe o uniforme negro – não é o Venom, que nem existia na época. Nesse período, o Aranha já tinha se livrado do simbionte alienígena que trouxe do planeta das Guerras Secretas achando que era uma roupa especial. Mas como ele gostou do design, costurou (eita rapaz prendado) uma igualzinha. Tem gente que não gostou e preferia o uniforme tradicional. Eu gostei muito e acho que ele deveria usar esse pretinho básico de vez em quando.

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Só pelas quatro hq’s que compõem a saga da morte de Jean DeWolff a revista já valeria a pena. Mas a edição ainda traz a sequência, que mostra o retorno do Devorador de Pecados (Peter Parker – The Spectacular Spider-Man #134-136, 1988). Essa vale por mostrar o que acontece quando um super-herói perde a cabeça e passa dos seus limites. Tadinho do Homem-Aranha.

Contar mais estraga as surpresas para quem nunca leu as histórias. E apesar de terem sido publicadas nos anos 1980, as hq’s não ficaram velhas e não fazem feio – acho até que chuta muitas bundas de hq’s atuais.

Como nem tudo são flores, uma reclamação: a edição que comprei três dias atrás já apresenta problemas na encadernação – a capa e as duas primeiras páginas parecem que vão descolar. Pô, Panini! Quero uma nova!

Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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