Resenha: Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

Livros e HQ

Resenha: Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

“Eu queria escrever sobre a vida e olha prá mim agora…
eu só escrevo sobre morte”
Brás de Oliva Domingos

Todos os dias quando acordo a primeira coisa que me vem à cabeça é: estou vivo. A partir daí começa a correria para mais um jornada – banho, café, ônibus, trabalho, almoço, trabalho, ônibus, casa, banho, jantar, TV e cama. Para começar tudo de novo no dia seguinte. E no outro também. E no outro.

E é assim por anos, décadas – para algumas pessoas, a rotina é essa até nos finais de semana. Claro que no meio disso tudo tem a família, os amigos, a cerveja, a praia, aquele show imperdível, o cinema…

Todos os dias nós lutamos pela sobrevivência. Todos os dias nós lutamos contra aquela que já foi chamada de a indesejada das gentes.

Enfim, todos os dias nós lutamos contra a morte.

Apesar de geralmente ser considerada como uma inimiga a ser vencida, a morte é encarada de diversas formas: o fim de tudo, o fim de um ciclo, um recomeço, uma renovação… e como uma metáfora para desejos, anseios e sonhos nunca realizados, concretizados.

Para Brás de Oliva Domingos a morte é, de certo modo, seu meio de vida: ele escreve obituários para um jornal enquanto tenta começar uma carreira de escritor, tal qual o seu pai. Seus obituários descrevem, com poesia, o fim da vida de outras pessoas. É um trabalho importante.  Mas quando o conhecemos, aos 32 anos, Brás está passando por um bloqueio criativo, não consegue escrever seu romance. Quando Jorge, seu melhor amigo, pergunta pelo livro, ele responde:

“Estou evitando. Ou não tenho tempo, ou não tenho o sentimento. A vida anda muito complicada. Eu não consigo me desligar, sabe? É muito barulho. Muito adulto.”

É durante esse diálogo com Jorge que Brás diz a frase que abre esta resenha. Então, quando chegamos ao final do primeiro capítulo somos arrebatados por um acontecimento inesperado.

A partir daí, cada um dos dez capítulos nos mostra um período da vida de Brás de Oliva Domingos – ora nós o vemos com 21 anos, encontrando aquela que parece ser a mulher da sua vida numa aventura cheia de misticismo passada na Bahia; ou com 41, vivendo a emoção do nascimento do primeiro filho e ao mesmo tempo tendo que enfrentar a perda do pai; se emocionando com a emoção arrebatadora do primeiro beijo aos 11 anos; ou aos 38, quando busca incessantemente seu amigo Jorge, desaparecido a alguns anos atrás; vivendo o sucesso como escritor aos 47 anos em uma turnê de divulgação pelo país.

Nesse movimento de idas e voltas, as vidas que ele teve/poderia ter/terá vão se revelando diante de nossos olhos. Todas sob a sombra inevitável da morte.

Fábio Moon e Gabriel Bá, os gêmeos brasileiros dos quadrinhos, contam de maneira poderosa, tocante e poética a história de um homem que só quer falar sobre a vida, viver e ser feliz – assim como eu, você, seu vizinho e o motorista do ônibus que você pega todo dia. Com um texto foda, diálogos tão naturais que você chega a escutá-los e personagens tão vivos que nos dão a sensação de conhecê-los de verdade, Daytripper é um conto sobre vida e morte e o que acontece no período entre elas.

Os irmãos estão em sua melhor forma (roteiro e arte) com essa HQ premiada, que ainda tem as belas cores de Dave Stewart. O legal é que apesar de tratar de temas universais, a história é ambientada no Brasil. Assim, Daytripper é uma das melhores hq’s brasileiras publicadas nos últimos anos. Aliás,  Moon e Bá já tinham mostrado a força de seus quadrinhos desde o início, lá nos anos 90, com a publicação da série de fanzines 10 Pãezinhos, que chegou a 40 números publicados. O primeiro livro da série, O Girassol e a Lua, foi lançado em 2000 e chamou a atenção do país para os gaúchos, que mostraram ali o seu potencial para contar histórias.

Daytripper foi publicada originalmente como uma mini-série pela Vertigo, selo adulto da DC Comics. Em 2011 ganhou vários prêmios (Eisner  Awards – o “Oscar” dos quadrinhos, Harvey Awards, Eagle Awards, Publishers Weekly, Best Book of 2011 Amazon, HQMix ) de Melhor Mini Série, além de ter ficado por quatro semanas como o álbum mais vendido na lista do New York Times.

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A edição resenhada é a versão luxo publicada no Brasil pela Panini  capa dura, formato americano (17 x 26 cm), 260 páginas, lombada quadrada e papel couché. A edição custa R$ 62,00, mas dá para você encontrar preços mais atrativos fuçando pelas web – por exemplo, a Ricardo Eletro e a Siciliano estão vendendo o álbum com excelentes descontos.

Para quem não quer/pode gastar tanto, a Panini lançou recentemente uma versão mais econômica, com capa em papel cartão, custando R$ 24,90. Mas, quer um conselho? Prefira a versão capa dura, que é um luxo só.

Quer um preview do álbum? Aqui!

Prá finalizar, a primeira coisa que eu disse quando terminei de ler Daytripper foi (com perdão pelo palavreado): puta que o pariu!

Bruno Alves: É professor universitário (disciplinas na área de comunicação, arte e metodologia de pesquisa) e também dá cursos de história em quadrinhos. É membro da Associação dos Cartunistas de Pernambuco, escreve no blog Macaxeira Geral e, a partir de hoje passa a integrar a equipe de colunistas do GeekCafe.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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