O Recife Assombrado – Histórias assombradas de Pernambuco em formato de HQ

Livros e HQ

O Recife Assombrado – Histórias assombradas de Pernambuco em formato de HQ

[rightbox]Imagine aquelas histórias de terror e ‘malassombros’ que a gente gosta de contar quando falta energia ou quando reúne amigos em casa a noite, ou ainda quando vai acampar. Histórias sobre espíritos, sobre casas velhas que rangem, sobre portas que batem, sobre a brincadeira do jogo do copo que deu certo ou aquelas velhas lendas urbanas populares.

Algumas delas são inventadas, outras você “jura de pés juntos que aconteceu com a tia da mãe de uma vizinha”, ou com sua avó, e outras estão entranhadas no subconsciente das pessoas, e você acaba contando, propagando sem nem mesmo se dar conta. Por mais medroso que você seja você deve curtir um pouco da sensação de medo e insegurança que histórias desse tipo podem proporcionar. Seja você a pessoa que diz que não tem medo de nada, mas se aparecer um espirito você corre, ou aquele que diz o mesmo, mas dorme de luz acesa.[/rightbox]

Já imaginou essas histórias ambientadas num cenário local, na sua cidade, no seu estado? Já pensou em ler essas histórias em forma de quadrinhos? Pois  O Recife Assombrado pensou e lançou o álbum Histórias em Quadrinhos d’O Recife Assombrado.

geek recife2 Presente macabro Olhos vermelhos O tesouro da Judia O homem que ria Histórias assombradas de Pernambuco Editora Bagaço Como matar um fantasma Adeus Carminha A vindita A maldição circular  Histórias assombradas de Pernambuco em formato de HQ

[leftbox]Organizado por André Balaio e Roberto Beltrão, criadores do site, o encadernado trás oito histórias originais retratadas em formato de HQ. As histórias vão desde adolescentes que enfrentam almas penadas ao fazerem a “brincadeira do copo”; uma estátua que ganha vida para cumprir uma vingança; bandidos em busca de um tesouro antigo que encontram uma terrível mulher fantasma; e coisas do tipo.

Segundo Balaio a proposta surgiu como uma forma de “tirar das sombras do esquecimento as mais medonhas lendas do imaginário pernambucano”, e assim criar um espaço para a ficção fantástica no estado. No ano 2000 essa ideia tornou-se site, que esse ano completa 14 anos de existência. Com o material do site foram produzidos livros com pesquisas e contos dessa temática.[/leftbox]

Depois de um tempo surgiu a ideia de retratar as histórias em formato de quadrinhos (mas nenhum dos dois sabia desenhar). Ano passado, após vencer o prêmio Funcultura 2013, a ideia pode ganhar forma com ajuda da P.A.D.A. (Produtora Artística de Desenhistas Associados) e assim algumas contos originais em formato de HQ tomaram as páginas dessa publicação.

Os roteiros são de: André Balaio, Leonardo Santana Milson Marins, e duas das histórias foram baseadas nos contos de Roberto Beltrão. As artes são dos quadrinistas e desenhistas:  Arnaldo Luiz, Luciano Félix, Milson Marins, Rafael Portela e Téo Pinheiro.

Segundo Leonardo Santana, roteirista de três histórias:

Foi necessário buscar referências (regionais) que muitas vezes não são utilizadas e resgatar. Como, por exemplo, na história O Tesouro da Judia, que é uma história clássica (um tipo de lenda urbana do local) onde foram aproveitadas as referências, mas foi construída uma história original para o roteiro.

Para os envolvidos no trabalho esse álbum acaba sendo algo único e cultural. Ao abordar uma temática diferente, que são historias terror, em um formato de mídia própria, os quadrinhos, ele acaba por resgatar parte da memória de Pernambuco, sendo, também, um registro histórico de acontecimentos que o povo conta como real, as tais lendas urbanas. Pra quem é de Pernambuco (e pra quem apenas tem curiosidade sobre o tema) é uma forma de conhecer um pouco mais sobre aspectos interessantes e instigantes do estado através de um formato jovem (não enfadonho) e pouco usual, além de poder se divertir lendo as histórias numa noite de lua cheia à meia noite (pouco aconselhável para os mais medrosos).

CRÍTICA

Impresso pela editora Bagaço a publicação tem o formato 27×19 cm, com 132 páginas, em papel couché. Quase todo em preto e branco, que confere um pouco mais de obscuridade as ilustrações. Na arte colorida da capa (de Téo Pinheiro) é retratada a Cruz do Patrão, um antigo monumento do Recife, que segundo estudiosos do tema é o lugar mais assombrado da cidade mais assombrada do Brasil (fato que eu desconhecia).

O encadernado é divido em oito histórias: A maldição circular; O tesouro da Judia; Presente macabro; Como matar um fantasma; O homem que ria; Adeus Carminha; A vindita; e Olhos vermelhos. Entre elas há trechos de poemas – com um ar bizarro – de autores pernambucanos como Manuel Bandeira, Carlos Pena Filho e Joaquim Cardozo, que deixam a mente divagar sobre o que aquele autor estava querendo dizer naquelas poucas linhas, além de ser uma forma prestigiosa para com grandes pernambucanos.

geek-recife[leftbox]Cada uma das histórias apresenta ilustrações diferenciadas e ares soturnos. Com ar dramático os enredos contas historias de gente ambiciosa, de gente perturbada, de jovens que se acham espertos de mais e de vinganças (ao meu ver) justas para acontecimentos anteriores. Nas artes das ilustrações é possível observar, de forma geral, um traçado regionalista na retratação da arquitetura de pontos históricos da cidade do Recife, como velhos casarões, a Rua da Aurora (muito famosa) com a Assembléia Legislativa e o caranguejo – monumento do Mangue Beat, o casarão do Açude do Prata e o Cemitério público de Santo Amaro. Outros detalhes pequenos, que podem passar desapercebidos, como os postes de iluminação pública nas partes mais antigas da cidade e as roupas do policiais militares, em uma história de época, também estão presentes e engrandecem o trabalho de pesquisa para a realização das ilustrações. Ainda com relação ao regionalismo, os nomes do personagens respeitam o contexto local, e em algumas histórias nos diálogos dos personagens utilizou-se das figuras de linguagem populares (o que gosto de chamar de pernambuquês) como em “bicho farrapeiro danado”.

Nem todas as histórias passam-se no centro do Recife, como no caso de A Vindita que tem Serra Talhada, cidade do Sertão pernambucano, como plano de fundo. Nessa história, de Milson Marins, é retratado um fato bem peculiar relacionado a uma vingança para com o famoso cangaceiro Lampião. Em A Maldição Circular, roteiro de André Balaio e ilustração de Luciano Félix, três jovem espertinhas resolvem ‘brincar’ com o jogo do copo para invocar algum espirito vagante, o que remete muito a adolescência como fase de experimentação de coisas (forças macabras também entram nesse jogo).

geek-recife4E em O Tesouro da Judia, roteiro de Leonardo Santana e arte de Téo Pinheiro, alguns homens resolvem buscar um tesouro (prataria) que estaria perdido junto as margens do velho Açude do Prata (que tem esse nome por causa dessa fortuna perdida), mas algo os surpreende. Personagens icônicos da infância também estão presentes e em Olhos Vermelhos, roteiro de André Baleiro e arte de Téo Pinheiro, a Monga do circo é figura de destaque.

Diante da originalidade da temática nesse formato, abordando o terror, em forma de assombrações, num cenário totalmente pernambucano o sentimento foi de nostalgia. Alguns histórias, por já fazerem parte do consciente coletivo popular, apesar de terem recebido ares renovados, se apresentaram como um resgate de lembranças de coisas que minha avó contava, o que me deixou com bons sentimentos. Acostumada a consumir histórias de super-heróis (Marvel e DC) e infantis (como A Turma da Mônica e o Mickey) fui pega de surpresa pelas belas ilustrações e pelos roteiros estruturados. Apesar de serem estórias curtas, baseadas em contos, sinto que a proposta inovadora do encadernado é legitima e importante pra incentivar que mais trabalhos nessa área sejam feitos. Fiquei com um gosto de “quero mais” e me animei à querer ler os demais contos do site. E como uma pequena critica, senti falta de alguma história que aproveitasse a Cruz do Patrão (capa do álbum) como plano de fundo, mas isso não desmerece o conteúdo.[/leftbox]

Histórias em Quadrinhos d’O Recife Assombrado é uma excelente forma de apreciar contos de terror em um formato visual inovador, já que esse tipo de conteúdo não é bem explorado, e ganha pontos por ter usado Pernambuco como plano de fundo.

SOBRE OS ARTISTAS

O Recife Assombrado

Arnaldo Luiz

Experiente quadrinista brasileiro e fundador da P.A.D.A. (Produtora Artística de Desenhistas Associados). Responsável pela arte de: Adeus Carminha.

Leonardo Santana

Um dos mais renomados roteiristas pernambucanos tendo ganhado como Melhor Roteirista o 3º Troféu DB Artes independentes(2005), o 3º, 4º, 5º e 6º Troféu PADA (2005,2006,2007 e 2011), o 1º Troféu Alfaiataria de Fanzines(2007) e o Prêmio da 12º Feira de Hq (2012). Já publicou em revistas de quase todo o Brasil (como a FRONT, QI, AREIA HOSTIL, QUADRINHÓPOLE e muitas outras). Responsável pelos roteiros de: Adeus Carminha; O Tesouro da Judia; e Como Matar um Fantasma.

Luciano Félix

Formado em Licenciatura em Desenho e Plástica pela UFPE (2000), é uma das novas revelações do humor e quadrinhos da sua geração, sendo um dos cinco finalistas do Prêmio HQMix de 2004, na categoria “Desenhista Revelação”. Premiado em vários salões e festivais, entre eles: o VI Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, no 17º Salão de Humor de Volta Redonda e no 31º Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Dentre vários trabalhos, destacam-se as sátiras e capas para a revista Mad e sua participação na primeira edição do MSP 50. Responsável pela arte de: A Maldição Circular.

Milson Marins

É  fundador da P.A.D.A. e foi editor da Prismarte de 1985 até 2011. Em 1995 teve a hq Comandado pela Loucura (Prismarte #4 – 1993) reconhecida pelo Prof. Waldomiro Vergueiro (coordenador do Núcleo de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP) quando esteve na Bienal dos Quadrinhos do RJ. Em 2008 ganhou o 2º lugar no 12 horas de quadrinhos em Recife, com a HQ “Caos”. Responsável pela arte e roteiro de: A Vindita; e pela arte de:  Como Matar um Fantasma.

Rafael Portela

Desenhista, ilustrador e roteirista curitibano. Começou sua trajetória na revista Voyeur nº 21 em 1999, com o personagem Celebro Canibal, que logo entrou para o Entidade Zero (2007). Na revista Medley (2008), participou com a história “O Manifesto da Colina”. Participou do livro Face (2012) e fez pequenas participações em zines. É filho do famoso quadrinista Watson Portela. Responsável pela arte de: Presente Macabro.

Téo Pinheiro

Desenhista, arte finalista e colorista alagoano radicado em Pernambuco. Ganhou em 2004 o prêmio os melhores da Prismarte na categoria arte-finalista com a HQ “O homem Super” criada e desenhada por Luciano Félix. Em 2007, ganhou como melhor ilustrador pela capa da Prismarte nº 46. Atualmente, vem desenvolvendo uma série de trabalhos, principalmente com O Recife Assombrado. Responsável pela arte de: Olhos Vermelhos, O Tesouro da Judia e O Homem de Ria.

SERVIÇO

O encaderno já esta a venda na Fênix Comics e na Livraria Cultura do Shopping Paço Alfandega (ambas em Recife) no valor de R$25. Em breve estará disponível no site da editora Bagaço. Mais informações podem ser obtidas na fanpage  O Recife Assombrado.

NOTA

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Cantora de ocasião, atriz de televisão, bailarina do Faustão, mas queria saber tocar violão. Sei que, às vezes, sou legal mesmo quando não estou dando mole.

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