O Incrível Hulk faz 50 anos! Incompreendido, grosso massa e lutando para ser querido

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O Incrível Hulk faz 50 anos! Incompreendido, grosso massa e lutando para ser querido

Quando a Marvel Comics entrou no negócio de super-heróis, o universo daqueles homens e mulheres sarados vestindo cueca e calcinha por cima das calças nunca mais foi o mesmo.

Até então, os super-heróis comuns seguiam o biótipo estabelecido há anos: belos, fortes, imponentes, capazes de despertar amor e desejo à primeira vista, imbatíveis, seguros de si e um exemplo para a sociedade que os venerava. Era assim com o Super-Homem, primeiro superser dos quadrinhos.

Com a publicação do Quarteto Fantástico em 1961 a mudança foi radical. Era um grupo de super-heróis, mas também era uma família; eles não usavam máscaras; eles se comportavam como pessoas comuns; e um dos membros era um monstro laranja feito de pedra!

O Coisa foi o primeiro super-herói que fugiu do modelo apolíneo. A feiura exterior de Benjamin Grimm contrastava com sua alma generosa. E apesar da desconfiança inicial por parte da população, logo ele se tornou um dos membros mais populares da equipe.

A ousadia de Stan Lee e Jack Kirby em colocar uma aberração numa equipe de super-heróis lindos deu certo e logo eles estavam aprontando coisa maior. E cinza. E verde também.

The Incredible Hulk #1Então, em maio de 1962 chegava às bancas a primeira edição de The Incredible Hulk. Na capa, um homem vestindo jaleco de cientista tinha por trás de si a imagem de uma monstruosa criatura cinza. As chamadas instigavam o leitor: “O mais estranho homem de todos os tempos!”, “Ele é um homem ou um monstro… ou ele é os dois.”

A trama apresentava Robert Bruce Banner, um brilhante cientista nuclear que estava prestes a testar sua criação máxima: a Bomba Gama. No entanto, o jovem Rick Jones entrou na área de testes por causa de uma aposta com seus amigos. Como não havia mais como reverter o processo de detonação da bomba, o Dr. Banner correu para salvar o irresponsável e o jogou em uma trincheira segundos antes da explosão.

Só que toda a radiação gama liberada pela bomba atingiu em cheio o doutor e mudou sua vida para sempre. À noite, enquanto estava sob observação, o lindo Banner se transformou em um monstro forte, feio e… cinza! Nascia uma lenda dos quadrinhos! O personagem foi claramente inspirado no Dr. Jekyll/Mr. Hyde, do clássico O Médico e O Monstro (de Robert Louis Stevenson).

Depois da primeira aparição cinzenta, o Hulk ficou verde por problemas técnicos – a gráfica não conseguia acertar o tom do cinza e, por um erro, o herói saiu verde. Stan Lee e Jack Kirby gostaram e mantiveram a cor. Tai a origem da expressão “verde de raiva”! :

No início, Banner se transformava no Hulk todas as vezes que a noite caia e voltava ao normal pela manhã. Isso depois mudou e as transformações ocorriam quando o cientista ficava zangado. E quanto mais raiva ele tinha, mais poderoso ficava.

Se com o Coisa a Marvel já tinha inovado, com o Hulk a coisa foi mais além. Benjamin Grimm era inteligente e não perdeu essa capacidade quando se transformou no gigante pedregoso. Já quando estava na forma do Hulk, Banner ficava burro – o Golias Esmeralda era movido a puro instinto e fúria. Esse jeito grosso do personagem caiu nas graças dos leitores e logo virou mais um sucesso da dupla Lee/Kirby.

As várias faces do Hulk

Nesses 50 anos de vida nos quadrinhos, o personagem mudou muito. Passou por altos e baixos, teve fases memoráveis e outras dignas do lixo. Eu, particularmente, nunca fui muito fã dele e gosto apenas de duas fases: das hq’s da fase inicial, até ali pelo início dos anos 70; depois, só prestei atenção nele quando John Byrne escreveu uma elogiada (mas abortada) e polêmica fase nos anos 80 – o escritor separou Bruce Banner do Hulk, que virou uma montanha de músculos totalmente irracional e descontrolada. Banner cria a força-tarefa conhecida como Caça-Hulks para impedir a trilha de destruição do verdoso. Pena que Byrne tenha saído do título antes do final, por causa de diferenças conceituais com os editores.

No final, depois de enfrentar meio-mundo do universo Marvel e causar uma destruição quaquilionária na cidade, o descerebrado Hulk é enviado para outra dimensão pelo Dr. Estranho. Depois dessa fase parei de ler as hq’s do verdoso.

E nem me perguntem como o personagem está hoje nos quadrinhos!

Mas se quer uma dica de leitura, procure os encadernados da série Os Supremos, de Mark Millar e Bryan Hitch. A versão Ultimate do Hulk é fodona e dá de dez a zero na versão original. Eu recomendo!

Na fossa vive o Hulk, Hulk!

Curioso é que não conheci o personagem nos quadrinhos. A primeira vez que vi o Hulk foi naquele famoso desenho desanimado da Marvel dos anos 70. É, aquele que tinha uma música legal mas com letra estranha na abertura.

 

Junto com o Homem-Aranha e o Bátema, o Hulk é outro personagem de quadrinhos que deve à televisão sua fama entre os não-iniciados. Esse reconhecimento todo veio com a série de TV O Incrível Hulk (1977-1990), estrelada por Bill Bixby (na TV chamado de David Banner) e Lou Ferrigno (como o rabugento Hulk). O programa rendeu 80 episódios e quatro filmes para a tv e, apesar de não ser fiel aos quadrinhos, era interessante e foi um grande sucesso – apesar das tramas repetitivas e de um herói pintado toscamente de verde (que Lou Ferrigno não me escute).

O tom melodramático das desventuras de Banner dava um nó na garganta. O coitado vivia andando pelo país com identidades falsas e arrumando subempregos ao mesmo tempo em que tentava achar uma cura para sua maldição. Todo episódio terminava com a musiquinha instrumental The Lonely Man, aquela do pianinho triste tocando enquanto Banner caminhava solitário pela estrada…. snif!!!!

Com o sucesso dos filmes de super-heróis da Marvel, o Hulk ganhou um longa-metragem audacioso em 2003, dirigido por Ang Lee. O diretor atualizou a origem do personagem e nos deu um dos mais densos filmes de super-herói antes dos Batman de Chris Nolan. A história é totalmente centrada nos traumas de infância de Bruce Banner por causa do relacionamento conturbado com seu pai, o cientista maluco e antiético David Banner (olha a homenagem à série de TV aqui), e isso explica seu alter ego verde e resmungão. Além da trama, Ang Lee nos deu um experimento interessante: uma narrativa que utiliza, literalmente, a sequencialidade dos quadrinhos para contar a história – quadros sobrepostos, tela dividida em vários requadros, vários ângulos mostrados ao mesmo tempo. Eu achei a ideia excelente, embora concorde que isso tenha contribuído para os não-iniciados (e alguns iniciados também) malharem o filme.

 

É uma visão de Ang Lee sobre o Hulk, assim como o Batman da franquia atual é uma visão de Chris Nolan sobre o personagem.

Mesmo com esses méritos o filme não foi tão bem assim nas bilheterias e nas críticas.

Em 2008, a Marvel tomou as rédeas do Verdão e lançou um novo filme, agora com Edward Norton no papel principal e um Hulk digital mais perfeito. A produção é mais fiel aos quadrinhos e faz parte do universo cinematográfico da Marvel, a partir do momento que é citado nas outras produções da casa, como Homem de Ferro 2 e Thor. Aqui, o Hulk ganhou mais moral, o filme foi um sucesso e todos ficaram felizes (menos os fãs xiitas).

Mas foi em Os Vingadores (2012, de Joss Whedon), o mega-hiper-plus melhor filme de super-heróis de todos os tempos até agora, que todo fã do verdoso (e até quem não é tão fã assim) chorou de emoção (nerd também chora) ao ver a mais perfeita representação do Hulk em todos os tempos. O personagem foi um dos destaques do filme e até o insosso Mark Ruffalo (quem diria) se saiu bem no papel de Bruce Banner.

 

Pois é. Quem diria que um monstro verde, feio, meio burro, com jeitão de vilão e usando a mesma calça roxa rasgada desde os anos 60 pudesse conquistar a simpatia de tanta gente e durar tanto tempo. Qual a explicação?

Simples.

O Hulk, assim como as principais criações de Stan Lee e Jack Kirby, são um sucesso até hoje porque contém, em sua essência, aquilo que nos identifica com eles: humanidade – mesmo que ela esteja escondida sob uma pele verde, uma montanha de músculos e um limitado vocabulário.

Hulk esmaga

Parabéns ao Hulk pelos 50 anos esmagando homenzinhos!!!

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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