A nova onda dos quadrinhos pernambucanos

Livros e HQ

A nova onda dos quadrinhos pernambucanos

Quadrinistas veteranos e jovens talentos movimentam a cena dos quadrinhos pernambucanos!

Eu comecei a ler quadrinhos aos cinco anos de idade – na verdade, aprendi a ler com eles. Nesses 47 anos, já fiz quase tudo nesse mundo: editei fanzine, ministrei cursos e oficinas, dei palestras, fiz trocentas resenhas de HQs, organizei eventos, além de, claro, fazer quadrinhos.

Em todos esses anos presenciei as idas e vindas da produção nacional. Num momento, a HQ brasileira estava em evidência; logo depois, sumia da cena oficial – embora nos subterrâneos ela sempre estivesse viva e pulsante.

Como pesquisador da área, esse movimento é perceptível na trajetória histórica do quadrinho nacional. Então, como não poderia deixar de ser, esse movimento errático também acontece aqui na província.

 

Pernambuco tem nomes importantes na história da HQ brasileira, com grandes contribuições para a arte quadrinística: Péricles Maranhão (criador do Amigo da Onça), Conceição Cahú (talvez a primeira quadrinista pernambucana), Pedro Zenival, os irmãos Watson e Wilde Portela; depois temos Lailson Cavalcanti (do já clássico Pindorama), Clériston, Samuca, Miguel Falcão e Ronaldo Câmara (esses três últimos mais focados na charge/cartum, mas que passearam com maestria pelas HQs); o coletivo PADA e sua revista Prismarte, na ativa há 30 anos, capitaneada por  Milson Marins + uma leva de artista bom como o nosso querido Arnaldo Luiz.

A geração seguinte nos apresentou ao quadrinho mais experimental/autoral com João Lin, Mascaro, Flavão e toda a turma da Ragú; a geração pós-ACAPE hoje brilha no cenário: Luciano Félix, Silvino, Jarbas Domingos,Thiago Lucas, Rafael Anderson, Liz França, Téo Pinheiro, Milton Estevam, Adriano dos Anjos.

 

Ainda temos Leonardo Santana, José Carlos Braga, Wamberto Nicomedes, Thony Silas e Eron Villar, Pedro Ponzo e Roberta Cirne , André Balaio e Roberto Beltrão, Silvio DB – e artistas não-pernambucanos que se instalaram por aqui, como o paulista Eduardo Schloesser. A grata surpresa é a presença de toda uma nova leva de artistas: Felipe Soares, Felipe Moura, Marcos Santana, Glaydson Gomes, Rafael Cavalcanti, Roger Vieira e  mais uma leva de ilustradores e ilustradoras que não trabalham com quadrinhos (Clara Azuos, Clari Cabral, Stéhanie Villas-Bôas, Bárbara Machado, Érika Ferreira).

Com certeza estou esquecendo de alguém aqui….

Da minha parte, retomei a produção de HQs com meu amigo Romo Oliveira – estamos no Imagenista (imagenista.com) e muita coisa boa vem por aí.

Eventos, eventos, eventos!!!!

O Festival Internacional de Humor e Quadrinhos (nosso saudoso FIHQ) foi um dos mais importantes eventos da área do Brasil. Ganhou dois prêmios HQ Mix e trouxe gente como Jerry Robinson, Don Rosa, Will Eisner, Peter Kuper, Jano e tantos outros quadrinistas internacionais e nacionais; além disso, foi o pontapé para a reunião de artistas e simpatizantes das HQs. Em dez edições, o FIHQ fez história.

Depois dele tivemos eventos pontuais, mas sem regularidade e sem a dimensão do festival. Temos a Supercon, mas o evento tem outro foco e seria injusto comparar.

Então, desde a edição da CCXP Tour em maio desse ano, as porteiras se abriram para os quadrinistas locais. Com a visibilidade que o evento trouxe, logo em seguida surgiram outros movimentos para apresentar os quadrinistas e sua produção. Qualquer encontro estabeleceu como regra básica a instalação de um Beco dos Artistas (Artist’s Alley o escambau!!!).

Shoppings, espaços culturais, comic shops… todos começaram a realizar eventos com quadrinistas. E isso é muito bom!!!

A cereja do bolo foi a presença da programação geek da XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Foram sete dias com painéis sobre cultura geek/pop e um Beco dos Artistas. Segundo as avaliações da imprensa especializada, dos organizadores e dos próprios artistas, a área geek foi um sucesso.

Em meio a tudo isso, a Feira Asgardiana organizada por Orlando Oliveira – ou Odin, como é conhecido – é um ponto fora da curva nessa agenda de eventos pelo seu caráter totalmente informal. A quarta edição, que aconteceu no dia 21/10, ganhou um reforço de área (a rua ao lado da Banca Guararapes foi fechada) e um número maior de expositores.

É de admirar a generosidade de Odin em realizar um evento desses – afinal de contas, ele é dono de uma banca de revistas especializada em quadrinhos. Ao lado de seu negócio, se instalam mesas com quadrinhos usados para troca ou venda e não é difícil encontrar revistas que ainda estão à venda na Banca Guararapes pelo preço original serem vendidas pela metade do preço nessas mesas.

 

 

Além da divulgação dos artistas locais e da possibilidade de encontrar aquela edição perdida, a Feira Asgardiana tem como grande mérito o reencontro de pessoas que amam os quadrinhos para colocar a conversa em dia, sonhar projetos, relembrar os velhos tempos, rir e se divertir. Quer coisa melhor do que isso?

Os eventos são importantíssimos para ampliação do público leitor e a realização da Feira no meio da cidade, ao ar livre, é o grande diferencial para atrair pessoas para esse universo.

Mas… e as editoras?

Voltando a falar dos autores: essa nova geração que citei mais acima está publicando suas HQs. Alguns de modo artesanal, outros com mais apuro técnico, seja via independente ou via financiamento coletivo. Iniciativas como a publicação da revista Plaf só vem contribuir para esse fortalecimento.

Apesar dessa presença consistente, nunca tivemos um cenário que pudesse sustentar uma publicação regular de quadrinhos. Lailson e Cia. tentaram com a Zona Tropical, mas a coisa não decolou. A Ragú ainda teve uma sobrevida boa, mas atualmente está fora do ar. A citada Prismarte resiste, mas não tem periodicidade.

Como era de se esperar, os artistas locais estão se mobilizando,aproveitando essa nova do quadrinho pernambucano, com o objetivo de se fortalecer e conquistar público e estabilidade.

É nesse ponto que entra a maior lacuna: a falta de investimento de editoras que acreditem no potencial do quadrinho local. Poderia até falar aqui de fomento público, mas é um assunto que merece um post específico.

Temos editoras como a Bagaço (privada), a CEPE (estadual) e a Massangana (federal ligada à Fundação Joaquim Nabuco). Se cada uma delas abrisse um edital para seleção de pelo menos um álbum de quadrinho anual já seria um gigantesco estímulo à produção e aperfeiçoamento artístico na área. Esse é um assunto que com certeza pautará as discussões no campo da literatura no próximo ano e nós, quadrinistas, estaremos atentos ao debate que se seguirá.

Por fim, eu, como um velho nerd consumidor/produtor de quadrinhos, só tenho a comemorar o momento atual e, ao meu modo e com meus recursos disponíveis, colaborar para que esse fortalecimento aconteça. E acredito que falo por todos do Geek Café quando digo que estamos à disposição para ajudar nessa jornada.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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