Piteco–Ingá: a melhor hq que você vai ler este ano!

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Piteco–Ingá: a melhor hq que você vai ler este ano!

Depois de ter lido Astronauta – Magnetar umas dez vezes, de ter transpirado pelos olhos com Turma da Mônica – Laços e gargalhado como um bobo com Chico Bento – Pavor Espaciar (putz, adoro esse título), eu cheguei a pensar: que dificuldade esse último volume da primeira fase da Graphic MSP vai ter para se igualar aos álbuns anteriores.

O quarto álbum já tinha sido anunciado e, confesso, o fato do Piteco não ser um dos meus personagens preferidos do Mauricio de Sousa influenciou esse pensamento –  mesmo sabendo que a hq seria produzida pelo magnífico artista paraibano Shiko e que o Sidney Gusman não dá ponto sem nó.

Pois bem: a hq protagonizada pelo Piteco é simplesmente uma das melhores hq’s de 2013, empatando em qualidade de roteiro e arte com Astronauta – Magnetar no gênero aventura!

geek-pitecoPiteco – Ingá (Panini, 82 páginas, colorida, capa dura, R$ 29,90) é maravilhosamente ilustrada pelo Shiko, um paraibano arretado que é um dos melhores desenhistas do mundo. Sua arte realista e aquarelada é um deleite. Por ter decidido ficar produzindo para o meio independente, Shiko é um ilustre desconhecido do mainstream quadrinístico.

Ou não. Shiko tem um álbum lindo e esgotado (Blue Note), já participou de um Festival Internacional de Humor e Quadrinhos aqui em Recife, já fez exposição de suas artes em Olinda, já ilustrou um cartaz do RecBeat (em 2013). Com certeza você já viu uma arte dele por aí e nem sabia. Basta clicar aqui e conhecer melhor o trabalho dessa fera. Recentemente, lançou o album O Azul Indiferente do Céu, mais um belo trabalho. Atualmente, o artista vive em Firenze, Itália.

Em Piteco-Ingá, Shiko começa surpreendendo pelo visual que deu aos personagens. Acho que a primeira dificuldade foi: como transformar aquele cabelo/barba do Piteco cartunesco numa coisa real? A solução foi genial! E o mesmo aconteceu com os outros personagens – Thuga, Beleléu e Ogra! São realistas, mas lembram suas contrapartes das revistas regulares da Turma da Mônica.

O álbum já merecia ser adquirido apenas pela arte, que é deslumbrante – o cabra pintou tudo com aquarela!!! Mas Shiko foi além, provando que é um excelente contador de histórias!

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Shiko ligou o cenário pré-histórico das histórias do Piteco a um contexto brasileiro de uma maneira brilhante. O título do álbum já entrega: Ingá é referência direta a Pedra do Ingá, um monumento arqueológico que está situado a 109 km de João Pessoa, capital da Paraíba. A pedra, que tem 250m², é repleta de inscrições em baixo relevo que sugerem figuras de animais, pessoas e até da constelação de Órion.

geek-piteco-3Na trama, o povo de Lem está prestes a migrar para outro local, pois o rio próximo a aldeia secou. A sacerdotisa Thuga é a guia do seu povo. Ela conta que antigamente todos formavam um só povo, mas que eles foram divididos em três: os Homens-Tigre, caçadores natos; o povo de Ur, que pescava e colhia frutas; e eles, o povo de Lem, uma sociedade matriarcal, que conhece as estrelas e plantavam o alimento. Por fim, Thuga diz que a Pedra do Ingá indicou o caminho para encontrar o mítico Rio Vermelho.

Porém, na noite que antecede a partida, ela é sequestrada pelos Homens-Tigre. No dia seguinte, antes do povo de Lem começar a sua jornada, Piteco fica sabendo o que aconteceu a Thuga. Assim, ele decide partir para resgatá-la junto com o inventor Beleléu e a guerreira Ogra.

No caminho, eles enfrentam deuses (recriações brilhantes do Curupira e do Boi-Tatá) e o povo da aldeia de Ur, que vive nas árvores. Enquanto isso, Thuga corre risco de vida na aldeia dos Homens-Tigre ao ter seus poderes de sacerdotisa colocados à prova.

Os acontecimentos gerados a partir do sequestro de Thuga terão um desfecho surpreendente para todos os três povos, mudando significativamente suas vidas. A maneira como Shiko entrelaça esses fatos é genial. E apesar do nome de Piteco estar na capa do álbum, essa é, definitivamente, uma história da Thuga.

E a grande surpresa do álbum é justamente essa: destoar completamente do estilo de histórias dos personagens originais, dando uma abordagem mais crua e até sangrenta (um pouquinho só…) a eles. Todos se tornaram personagens redondos, com consistência e motivações verossímeis, fazendo com que o leitor crie uma identificação com eles e suas histórias de vida.

Piteco-Ingá encerra com brilhantismo a primeira fase do projeto Graphic MSP.  Parabéns, mais uma vez, ao Sidney Gusman pela idéia genial – e ao Mauricio por ter topado. E ao Shiko por essa obra de arte! E claro, NOTA 10!!!

A segunda fase do projeto começa ano que vem. Os próximos álbuns já foram anunciados – e mais uma vez, só tem fera envolvido. Duro vai ser aguentar a ansiedade!

E prá fechar, nossa tradicional pergunta: e aí, Sidney Gusman, quando Piteco-Ingá chega aos cinemas de todo o Brasil?

Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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