Quadrinhos clássicos encadernados para comprar antes de morrer #2

Livros e HQ

Quadrinhos clássicos encadernados para comprar antes de morrer #2

E aqui estamos nós com a segunda parte da nossa lista de quadrinhos clássicos que todo mundo deve ler antes de você sumir no limbo (desconsidere se acreditar em reencarnação). Vamos lá?

 

Estórias Gerais

(Roteiro de Wellington Srbek e Arte fenomenal de Flávio Colin)

Estórias GeraisUma das maiores baboseiras que se fala sobre o quadrinho nacional é que temos excelentes desenhistas, mas que nossos roteiristas são ruins.

O Brasil sempre teve bons escritores de quadrinhos, desde os seus primórdios – quem ler As Aventuras de Zé Caipora, de Angelo Agostini, vai ter certeza disso. Mas nessa lista podemos incluir Rubens Luchetti, Ziraldo, Maurício de Sousa, Ivan Saidenberg, Julio Emilio Braz, Ataide Braz, entre outros.

(Bem, nesse simples post não dá para filosofar sobre as possíveis causas dessa mentira que virou uma “verdade” que cansei de escutar em todos esses anos.)

A atenção para o quesito “roteiro” nas hq’s brasileiras só veio aparecer nos anos 80, principalmente por causa da produção do trio paulista Angeli, Glauco e Laerte. Com o aumento da produção nacional nas bancas a partir desse período, novos autores foram surgindo e se tornando importantes, como Wander Antunes, Gian Danton e André Diniz, entre outros.

O mineiro Wellington Srbek é um desses importantes roteiristas. Ele ganhou destaque com a série Solar, um super-herói nacional cujos poderes têm origem em elementos culturais essencialmente brasileiros, embora contenha seminais pitadas norte-americanas do gênero. A produção seguinte de Srbek (Mirabilia e Fantasmagoriana) manteve a qualidade de sua escrita e seu caminho em busca de um quadrinho que, ao buscar resgatar elementos da cultura brasileira, se tornasse universal. E o mais emblemático produto dessa busca é Estórias Gerais, assumidamente, e sem vergonha nenhuma, um manifesto político-cultural em forma de declaração de amor ao Brasil”, como o próprio autor afirma na apresentação do álbum.

Em Estórias Gerais, passado na década de 20, o personagem Ulisses de Araújo é um repórter de um grande jornal da capital mineira que vai até Buritizal, pequeno município do norte de Minas, para fazer uma reportagem sobre o bandoleiro que aterroriza a região: Antonio Mortalma. No início seu olhar racional enxerga o povo local com diversos pré-conceitos, principalmente quando eles mostram suas superstições e crenças. Assim, o trabalho de Ulisses, enquanto repórter, letrado, erudito e racional, torna-se uma missão: resgatar essas pobres almas das trevas da ignorância.

Na caça ao bandoleiro, Ulisses presencia diversos fatos inexplicáveis que desafiam sua razão e permitem que o mesmo conheça a fundo os valores do povo com o qual conviveu durante a aventura; isso faz com que o personagem tem sua visão de mundo modificada. Este tema é desenvolvido em meio a uma narrativa repleta de ação, personagens marcantes e excelentes diálogos, que prendem o leitor num universo que nos remete aos sertões descritos por Guimarães Rosa em suas obras. Para contar essa aventura visualmente, temos a belíssima arte do saudoso mestre Flávio Colin, um dos maiores quadrinistas do mundo!

Estórias Gerais figura entre os grandes clássicos do quadrinho universal e é uma excelente oportunidade para ver dois artistas no exercício pleno de sua arte. Infelizmente, Colin já não está entre nós. Srbek ainda produz e hoje é editor da Nemo, que vem relançando clássicos imortais como A Garagem Hermética, já resenhada aqui.

 

A Queda de Murdock

(Roteiro de Frank Miller e Arte de David Mazzuchelli)

A Queda de MurdockFank Miller é um cara que merece figurar entre os grandes mestres dos quadrinhos por ter escrito hq’s fenomenais como Batman O Cavaleiro das Trevas, Ronin, Batman Ano Um, Elektra Assassina, Elektra Vive e A Queda de Murdock. E foi justamente com o Demolidor que o roteirista/desenhista começou a chamar atenção para seu trabalho. Em janeiro de 1981 ele assumiu os roteiros do personagem (na edição 168 da revista Daredevil), que vinha desenhando desde maio de 1979. Miller deu uma guinada nas histórias, jogando o Demolidor em tramas policiais de clima noir e deixando de lado as lutas com supervilões.

Nessa passagem, criou personagens fundamentais como a ninja Elektra e elevou a níveis estratosféricos a importância de outros, como o assassino Mercenário e Wilson Fisk, conhecido como o Rei do Crime de Nova York, originalmente inimigo do Homem-Aranha. Quando deixou a revista em 1983, o Demolidor tinha saído da Série C e figurava na Série A dos grandes super-heróis da Marvel.

Depois de Miller o personagem manteve a relevância, mas em nenhum momento as histórias tiveram o apelo daquela fase áurea. Então, em 1986, depois da hoje esquecida Ronin e de reformular o Batman com a mini-série Batman O Cavaleiro das Trevas, o escritor voltou ao Demolidor com o arco Born Again (no Brasil, A Queda de Murdock), que contou com a bela arte de David Mazzuchelli.

Na trama, Karen Page, antiga secretária do escritório de advocacia de Matt Murdock e Franklin Nelson e que tinha ido à Hollywood com o sonho de ser atriz, reaparece (ela não aparecia nas hq’s desde os anos 60). O sonho virou pesadelo e ela é uma decadente atriz de filmes pornôs e viciada em heroína. Por uma dose da droga, vende a identidade secreta do Demolidor. A revelação vai passando de mão em mão até chegar a Wilson Fisk, o Rei do Crime e arquiinimigo do herói. Fisk manda checar a informação e ao confirmá-la, ordena a execução de todos aqueles que puseram os olhos no segredo.

Karen consegue fugir e vem pedir ajuda ao amigo que traiu. Nesse meio tempo, usando toda a sua rede de subordinados infiltrados na política e nos órgãos públicos da cidade e do país, Fisk tira tudo de Murdock, da casa até a sua licença para advogar. Totalmente surtado, Murdock é literalmente jogado na sarjeta, desconfiando de tudo e de todos e deixado para morrer. Só que Wilson Fisk não contava com uma coisa: um homem sem esperança é um homem sem medo!

A HQ conta a queda e ascensão de Matt Murdock de maneira arrebatadora, com diálogos perfeitos, abordagens políticas e narrativas visuais marcantes, como o resgate do herói por sua mãe, o ataque do psicopata Bazuca à Cozinha do Inferno, a chegada dos Vingadores e o confronto final do Demolidor com seus fantasmas.

Li essa HQ em formatinho e ela me marcou profundamente na época. Então, se você gosta de uma abordagem mais realista de super-heróis e quer ver uma história tão grandiosa quanto O Cavaleiro das Trevas, A Queda de Murdock é obrigatória. A Panini lançou a edição encadernada faz um tempo, mas ainda é possível encontrá-la em algumas lojas online.

 

Zap Comix

(Robert Crumb, Gilbert Shelton, Victor Moscoso, S. Clay Wilson e outros)

Zap ComixQuadrinho norte-americano não é só super-herói, embora muita gente pense assim. Pois justamente quando os caras com cueca por cima da calça estavam fazendo o maior sucesso na cultura pop uma turma do barulho apareceu para aprontar grandes confusões no mercado de quadrinhos!

Sexo, drogas, rock’n’roll, nonsense, crítica ao american way of life e à política e um chute no saco do Código de Ética dos Quadrinhos: assim eram os quadrinhos underground que surgiram nos anos 60 nos EUA.

Liberdade era a palavra de ordem de quadrinistas como Robert Crumb, Gilbert Shelton, Moscoso, Wilson e outras feras. Nada era sagrado, nenhum assunto era intocável; o experimentalismo era constante. Crumb é, sem sombra de dúvidas, o mais importante desses autores. Foi ele que aglutinou toda a turma no seu fanzine Zap Comix, cujo primeiro número produziu sozinho. Diversas outras publicações fizeram parte do movimento, mas a Zap Comix se tornou um símbolo.

O impacto desses artistas foi imenso na cultura pop e na sociedade, tanto como influência para toda uma nova geração de quadrinistas (no Brasil, talvez Angeli seja o mais aplicado discípulo do espírito Underground Comix) quanto pelas reações contrárias dos conservadores. Durante anos, essa produção circulou por aqui de maneira artesanal, pirata. Mas a partir dos anos 2000, ela começou a ser publicada com qualidade, principalmente pela editora Conrad.

Ficou curioso? Pois a indicação é Zap Comix, lançado em 2003, mas ainda disponível nas principais livrarias virtuais das web. O álbum tem 192 páginas e traz trabalhos dos principais autores do underground norte-americano, entre eles: Victor Moscoso e seus desenhos mutantes, fluidos; Robert Crumb com seu hippie eterno Mr. Natural e Angelfood McSpade; e Gilbert Shelton, que vem com sua sátira aos super-heróis, o Javali-Maravilha e outras histórias tão alucinadas quanto!

A Conrad também publicou outros álbuns de Crumb e Gilbert Shelton, mas Zap Comix é uma excelente porta de entrada para o universo do quadrinho underground. Mas só um aviso: deixe do lado de fora qualquer preconceito ou conservadorismo que possa ter e se prepare para fortes emoções!

 

Maus: A História de um Sobrevivente

(Art Spielgman)

Maus - A História de um Sobrevivente Histórias em quadrinhos não são apenas para crianças, embora nem todo mundo saiba disso. Nunca esqueço o dia em que uma professora universitária veio me parabenizar pela aprovação no mestrado e exclamou Histórias em quadrinhos? Que bonitinho, aquelas historinhas com bonequinhos coloridos?” quando falei sobre o tema da minha pesquisa. 😀

Tem história em quadrinhos para todos os gostos, inclusive tem quadrinho que já ganhou um prêmio Pulitzer. E esse, apesar de ser protagonizado por ratos, gatos, cachorros e outros animais antropoformizados, não tem nada de fofo e colorido.

Nos anos 80, Art Spielgman decidiu contar a história de seu pai, Vladek, um sobrevivente do holocausto. Para isso, ele passou a visitá-lo com mais frequência. Os dois não se davam muito bem. No decorrer das visitas, Vladek vai contando ao filho tudo o que aconteceu com a família durante a perseguição dos nazistas aos judeus. Nesse relato, Art vai coletando informações para escrever sua história e ao mesmo tempo descobrindo coisas que não sabia sobre a família, sobre seu pai e sua mãe e, principalmente, sobre o porquê do conturbado relacionamento entre eles. Só por esse lado, a HQ já seria primorosa pelas nuances que vão se desdobrando a partir das conversas entre pai e filho.

Porém, Maus também é grandiosa pelo contundente relato de uma das mais vergonhosas guerras da humanidade. Spielgman optou por contar a história em preto e branco, com estilo expressionista e mostrar os personagens como animais (judeus são ratos, nazistas são gatos, americanos são cães) o que só deixa a narrativa mais angustiante, mostrando o quanto o ser humano pode ser cruel consigo mesmo.

Maus é uma obra forte, marcante e obrigatória para quem gosta de uma boa história.

A edição nacional da Companhia das Letras é excelente e compila as duas edições lançadas anteriormente pela Brasiliense.

 

Toda Mafalda

(Quino)

Toda MafaldaMafalda dispensa apresentações. Quem não conhece aquela pivete esperta que detesta sopa, ama os Beatles, vive contestando a humanidade e sonha com um mundo pacífico e democrático?

Mafalda foi criada pelo cartunista argentino Quino em 1962 para uma campanha publicitária, que terminou não sendo veiculada. Dois anos depois, começou a publicar a personagem e daí em diante foi só sucesso. Mafalda e seus amigos foram publicados até 1973 e desde então Quino não escreveu mais tiras dos personagens, dedicando-se a seus cartuns mágicos. Mas a garota ficou no imaginário pop, sobrevivendo até hoje e conquistando novas gerações de fãs. Todas as vezes que falo sobre quadrinhos nas minhas aulas de arte e cito Mafalda fico surpreso com a quantidade de alunos que são apaixonados por ela.

Mafalda foi publicada no Brasil por várias editoras, em vários formatos. Mas o sonho de consumo é Toda Mafalda, da Martins Fontes, que compila toda a produção de Quino para a personagem. São 442 páginas cheias de tiras que, apesar do tempo em que foram produzidas, não perderam a atualidade.

E aí está o segredo da longevidade de Mafalda: falar de temas universais e necessários para que nossa vida se torne melhor.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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