Reboot DC Comics: editora chuta o pau da barraca e recomeça seu universo do zero

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Reboot DC Comics: editora chuta o pau da barraca e recomeça seu universo do zero

Uma das características dos super-heróis norte-americanos é que eles não se aposentam nunca. Para nossos amigos ianques, um personagem de sucesso não pode morrer – afinal, como a empresa vai sobreviver sem suas aves que botam ovos de ouro? Diante desse fato, o que fazer para que personagens como Superman, com 74 anos de existência, continuem a conquistar novos leitores de gibi?

“Ora, tio, é só escrever boas histórias, né?”

É, mas esse pessoal das grandes editoras norte-americanas acha isso muito difícil. É mais fácil criar uma complexa hiper-mega-boga-saga e começar tudo de novo. A DC Comics é craque nisso: já fez Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora, Crise Infinita e por aí vai.

Então, se você está acompanhando algum título da DC publicado no Brasil PARE DE LER AGORA, porque tudo que você leu não vai valer mais nada porque ela fez isso de novo: chutou o pau da barraca e reiniciou do zero o seu universo de super-heróis. Com isso, criou 52 novas séries (!) com o objetivo de angariar novos leitores e chatear os leitores velhos.

Basicamente é isso: todos os personagens estão mais jovens, só começaram a atuar como super-heróis de cinco anos para cá e tiveram algumas alterações nos uniformes. Alguns são velhos conhecidos, enquanto outros são novas criações ou releituras. Tem de tudo um pouco: super-herói tradicional, vampiro, faroeste, ficção-científica, terror, guerra, magia…

Claro que essa quantidade absurda de séries novas não sobreviveria por muito tempo e seis delas já foram canceladas e serão substituídas por outras – e nesse troca-troca o Morcegão vai ganhar mais um título. Tudo muito normal, afinal a DC é uma empresa que precisa ganhar dinheiro e vai cortar o que der prejuízo. Mas a estratégia é interessante, porque serve como teste de popularidade. Quem sabe alguma dessas novas criações não ganha fãs, vende muito e trilha o caminho do cinema? Vai vendo…

Essas mudanças devem chegar ao Brasil ainda este ano, segundo a editora Panini, já que a saga (eu não disse?) que originou o reboot, chamada Ponto de Ignição, começou a ser publicada mês passado.

Como era de se esperar, mal saem lá nos EUA as revistas são disponibilizadas para download locação nas webs da vida – e agora com muito mais rapidez, já que a DC está lançando, simultaneamente às impressas, edições digitais das revistas.

Com objetivos estritamente informativos, copiei aluguei as edições disponibilizadas até agora para ter uma ideia do que vem por aí. Li as três primeiras edições de TODAS AS 52 SÉRIES (não pensem que foi fácil!) para sentir o estilo das histórias. Desisti da maioria. Se uma série não consegue conquistar um leitor com três edições, a coisa começa a ficar feia. Assim, decidi acompanhar só aquelas realmente boas ou que tem potencial para crescer.

Quer saber quais as melhores (ou menos ruins)? Vamos lá!

Universo do Bátema: o melhor até agora

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Os personagens que fazem parte do universo do Morcegão tem sido, até agora, o melhor desse reinício no gênero supers. A cronologia não foi alterada e tudo o que aconteceu com o herói antes do reboot tá valendo. As séries que prestam são:

Batgirl – Bárbara Gordon, filha do comissário Gordon, levou um tiro do Coringa e ficou paraplégica. Deixou de ser a Batgirl e se tornou Oráculo, assistente tecnológica dos super-heróis da DC e virou uma personagem interessantíssima, que foi muito bem explorada pela roteirista Gail Simone na série Aves de Rapina. Com o reboot, Bárbara volta a andar de maneira ainda misteriosa e retorna no papel da garota morcego. Gail Simone é uma boa escritora e embora a história não seja lá essas coisas, o desenvolvimento nessas primeiras edições não compromete. Mas eu preferia ela como Oráculo…

Batman e Robin: Escrita por Peter J. Tomasi. Diferente das demais séries, o universo do Bátema não sofreu reboot, então tudo tá valendo. Nesse título, Bruce Wayne retorna como o herói e luta ao lado de Damian, seu filho com Tália Al Ghul. Assim como todos os títulos do morcegão, esse não fica atrás no quesito interesse e boas promessas. O relacionamento entre Batman e Robin, literalmente pai e filho, é o ponto alto da hq; Damian é atirado, iconoclasta, turrão e cheio de atitude. Isso está rendendo boas histórias e por enquanto o roteirista segura a peteca. LEIÃO!!!

Batwoman: Escrita e belamente ilustrada por J. H. Williams III, a hq está situada no universo do morcego e mantém a qualidade dos titulos. Tem aquele clima policial que eu tanto gosto. Nunca acompanhei a série antes do reboot, mas fiquei interessado por causa da arte e não me decepcionei. A personagem chamou a atenção da mídia por ser lésbica. Essa mídia se alvoroça muito por nada…

Detective Comics: Outra revista clássica da DC que foi zerada. Aqui, o protagonista é o bom e velho Batman. Escrita e desenhada por Tony Daniel, a hq é uma porrada no estômago: densa e sanguinolenta, logo na primeira edição vemos o morcego caçando seu arquiinimigo Coringa, que retorna mais violento do que nunca. A polêmica cena final da primeira edição me deixou ansioso para a continuação e essa é mais uma série que não tem decepcionado. Confira sem medo.

Batman – Scott Snyder (roteiro) e Greg Capullo (Arte) comandam a revista. Logo na primeira edição vemos o Morcego dentro do Asilo Arkham enfrentando uma porrada de vilões que pretendiam fugir. O inusitado é que o herói recebe a ajuda do… Coringa? Em seguida, Batman se vê envolvido num mistério que envolve seus antepassados e uma estranha sociedade chamada de Corte das Corujas. As edições seguintes são imperdíveis, principalmente quando o morcego fica perdido num labirinto, mortalmente ferido e sem os recursos do seu cinto de utilidades!

Batman O Cavaleiro das Trevas – David Finch (roteiro) e Paul Jenkins (arte). A série tem mostrado o morcego enfrentando seus principais inimigos, começando com o Duas-Caras durante uma fuga em massa do Arkham. Uma misteriosa nova vilã seminua vestida de coelho (!) está por trás de tudo. Tem participações do Flash, do Superman (num embate com um Batman dominado pelas toxinas do Espantalho) e a volta de Bane, que na luta com nosso herói relembra o dia em que quebrou sua coluna. Mais uma prova de que o reboot não mexeu profundamente com o universo morcegal.

Além dessas revistas, o universo do morcego conta com Capuz Vermelho e Os Fora da Lei(fraquinha), Asa Noturna (personagem bom, história meia boca) e Batwing (com potencial, vamos ver no que dá), aquele mesmo que surgiu na série Corporação Batman.

Universo do Azulão: melhorou um pouquinho

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Action Comics: a tradicional revista da DC, lançada em 1938 e com mais de 900 edições publicadas, teve sua numeração zerada para o reboot. Escrita pelo maluco e genial Grant Morrison, a série conta como foram as primeiras aparições de Kal-El como Super-Homem. Sem o clássico uniforme, bem mais jovem, o personagem aparece usando uma questionável roupa civil: camiseta azul com o logotipo do Super, calça jeans surrada, botinas e uma capa vermelha curtinha. Morrison resgata o perfil inicial do personagem, lá dos anos 40, tanto física quanto ideologicamente: ele ainda não voa, pode ser ferido e em suas missões defende as pessoas e a sociedade de criminosos comuns e de políticos, empresários e políticos corruptos. Logo nas primeiras edições, com desenhos de Rags Morales, vemos Lex Luthor vendendo seus serviços de consultoria para os militares, que pretendem capturar o alienígena – nesse reboot, os heróis em início de carreira são perseguidos pela lei. A hq é boa, tem ritmo, bons diálogos e arte competente. Vale a pena conferir.

Superman: Enquanto Action Comics mostra o início da carreira de Kal-El, aqui ele já está mais maduro, usando seu novo uniforme sem cueca vermelha por cima. Embora eu tenha gostado das histórias até aqui (tem um mistério se formando, ligado ao passado alienígena do herói) não gostei muito da nova abordagem do personagem, um pouco mais agressivo do que o normal. É uma tentativa de atualizar o sempre bonzinho, paciente e escoteirão Superman. O veterano George Perez escreve com segurança e Jesus Merino é o desenhista. Vamos ver no que vai dar.

Séries de terror: nojentas, mas boas

 

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Homem-Animal: Por Jeff Lemire, com desenhos de Travel Foreman. Uma das grandes surpresas do reboot. O secundário personagem teve seu momento de glória quando foi escrito por Grant Morrison numa série inesquecível dos anos 90. Depois, outros escritores trataram Buddy Baker com dignidade, mas nenhum chegou aos pés do escocês maluco. Lemire também não chega, mas apresenta uma história bem coerente com o universo do personagem, num misto de super-herói com terror. Em alguns momentos a hq fica meio esquisita, mas a premissa é interessante. As cinco primeiras edições são nojentas! Ou seja, essa eu compro quando sair por aqui!

Monstro do Pântano: O verdoso defensor da natureza está de volta. Depois de uma fase memorável nas mãos de Alan Moore, o Monstro do Pântano tornou-se um personagem adorado, com boas histórias mesmo depois da passagem do inglês. Diante desse histórico, era grande o desafio de trazê-lo de volta nessa nova fase da DC. Mas o escritor Scott Snyder e o desenhista Yannick Paquette conseguiram resgatar o clima de terror que o personagem sempre evocou. Não acompanhei o que veio antes, mas o Dr. Alec Holland não é mais o Monstro do Pântano. Só que ele vai ter que voltar a ser se quiser salvar o planeta do Podre, uma aberração nojenta que transforma as pessoas em zumbis sanguinolentos. As cinco primeiras edições são impactantes e, junto com o Homem-Animal, já é a melhor série desse reboot no gênero terror.

Séries isoladas

Arqueiro Verde – Roteiro de J.T. Krul e desenhos de Dan Jurgens, com o veterano George Perez na arte-final. Um Oliver Queen mais jovem, rico, dono das Indústrias Queen, cuja divisão de tecnologia faz referência à Apple – computadores Q-Core, Q-Pads, etc. Enquanto sua empresa cresce, Queen passa boa parte do tempo combatendo o crime como o Arqueiro Verde e blá blá blá blá. História fraca, mas eu gosto do personagem e continuo dando uma chance ao título.

Exterminador: Slade Wilson, o bom e velho Slade Wilson. O cara que enfrentou sozinho a Liga da Justiça em Crise de Identidade – E GANHOU! Escrita por Kyle Higgins e desenhada pelo brazuca Joe Bennet, a hq é muito boa e traz um personagem conhecido do jeito que os velhos leitores o conhecem: amoral, eficiente e mortal. Uma das séries que prometem.

new 52-aLiga da Justiça: Taí um bom título, apesar de algumas bizarrices (como assim o Batman tira o anel do dedo do Lanterna Verde SEM ELE PERCEBER?). Os números iniciais da série estão mostrando a formação da Liga da Justiça da América, que será composta por Batman, Superman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Aquaman e Cyborg, que antes do reboot fazia parte dos Novos Titãs. No começo, muita desconfiança entre os heróis, um clichê mais velho do que a fome, mas a coisa melhora quando o grande vilão é revelado: Darkseid. O escritor Geoff Johns é bom e tem garantido a diversão. Jim Lee desenha preguiçosamente e só é salvo pelo excelente arte-finalista Scott Williams.

Só onze de cinquenta e duas séries? Pois é, sou um leitor exigente. 😀

Apesar das críticas iniciais, a iniciativa da DC Comics tem dado resultado, principalmente financeiro. As vendas aumentaram e muito. Todos os executivos devem estar com um sorriso de orelha a orelha. Novos leitores têm chegado e alguns velhos leitores têm gostado do que tem lido.

A grande expectativa agora é saber como a Panini vai publicar essa nova enxurrada de revistas por aqui. Comece a juntar suas moedas!

Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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