Revista HBQ – Novos talentos nacionais produzindo HQs de qualidade

Livros e HQ

Revista HBQ – Novos talentos nacionais produzindo HQs de qualidade

Publicações nacionais de quadrinhos sempre tiveram certa dificuldade em simplesmente começar ou se manter vivo por um período de tempo aceitável. Temos aqui e ali exemplos que se destacaram e receberam grande reconhecimento, mas de uma forma geral é uma jornada dura e muitas vezes interrompida antes do tempo devido. Mas isso não elimina completamente a esperança dos que sonham em trabalhar com isso e a luta sempre continua, em diversos estilos e abordagens. Um dos destaques desta vez é a revista HBQ.

Revista HBQ 1Com o subtítulo de Seu multiverso em quadrinhos a publicação independente tenciona introduzir quadrinistas novatos ao mercado, trazendo suas séries e histórias solo bimestralmente, em versões físicas e digitais. Cada volume traz quatro histórias, sendo três delas capítulos de séries longas, e um one-shot. A equipe atual conta com doze artistas, entre roteiristas e desenhistas, alguns trabalhando em mais de um dos projetos da revista. A venda do material é feita online, pelo site da HBQ, e a entrega realizada pelos correios; ou por e-mail, para quem preferir adquirir a versão digital.

O primeiro volume nos trouxe as séries Paradigma – destaque da capa – com roteiro de A. Diandra e arte de Ellie Petersen; Ranaway, de Natália Bellieny no roteiro e Raphael Cardoso com a arte; e Impérios de Vidro, roteirizado por Pedro La Ruína e desenhado por Jadson Santos. Já o one-shot desta edição, chamado Epílogo, traz Pedro La Ruína de novo ao roteiro e Mad. D. na arte.

Paradigma

paradigmaA primeira história nos mostra a vida de Brianna e Neron, irmãos que trabalham para a Sociedade 8, organização que domina o mundo futurístico que serve de cenário para Paradigma.

O primeiro capítulo pouco se aprofunda no que os dois protagonistas buscam exatamente, servindo para introduzir o cenário e a relação dos personagens neste, com suas dúvidas quanto a suas vidas e a Sociedade 8 e as preocupações causadas por algo que se referem somente como “aquilo”, que fora transferido para a sede em que trabalham recentemente, e que causou destruição e mortes em outros lugares pelo qual passou.

O universo é bastante interessante nos elementos que o constroem e que são introduzidos aqui, facilmente deixando o leitor interessado em descobrir mais sobre a Sociedade, o estado do mundo e “aquilo”. A arte é belíssima, apesar de demonstrar suas fraquezas em alguns quadros que necessitavam mostrar fluidez na movimentação dos personagens. Nas cenas que receberam o máximo de esforço, nota-se uma alta capacidade artística por parte da Ellie – desde os traços básicos ao detalhamento – que ela aplica nos momentos mais importantes, garantindo então que a leitura toda seja uma ótima experiência. A arte-final e cores recebem os mesmos elogios dados à arte, garantindo um trabalho final de causar inveja a qualquer outra publicação independente.

Ranaway

RanawayEm seguida temos a história de Jenifer Alvez, que sonha em entrar na melhor escola de música do país, a Universidade Renard. Após alguns contratempos, ela conhece Rana, uma garota que toca guitarra e é contra a forma de ensino garantida por escolas como a Renard, que segundo ela drenam a criatividade dos alunos e os torna nada mais que robôs seguindo normas, ao invés de perseguir a música com a alma. Eventualmente elas se tornam amigas e rumam juntas em busca de seu sonho de mostrarem sua música e ganharem reconhecimento.

Ranaway possui uma história mais simples, mais próxima aos moldes japoneses de mangá, onde os protagonistas possuem um sonho grandioso e precisarão enfrentar adversidades para alcançá-lo. Apesar de simples, não há como prever exatamente como a história andará, e resta a curiosidade em saber como Natália desenvolverá essa premissa em algo empolgante e interessante. A arte também simples, mas bonita, de traços vivos e marcantes, garante o clima perfeito para este tipo de história.

Impérios de Vidro

Impérios de VidroA terceira história traz um mundo de impérios, tensão política, guerra e, escondido sob tudo isso, o sobrenatural à espreita. Enquanto os grandes nomes precisam se preocupar com as questões burocráticas, sem tempo para pensar em Deuses e forças obscuras, as trevas se aproveitam para esgueirar-se pouco a pouco e derramar sangue.

Mais um cenário ainda em construção, que deixa muito em aberto em um primeiro capítulo, e que só poderá ser avaliada de verdade em termos de enredo com o avançar da série. A arte é bonita e manipula muito bem o uso de traços fortes e fracos, apesar das páginas de introdução terem sofrido com o abuso dos tons de cinza, que as tornou confusas em várias partes.

Epílogo

EpílogoO one-shot desta edição conta a história de um suicida aparentemente insano e um detetive que tenta ajudá-lo, de alguma forma compreendê-lo e por fim impedi-lo de cometer o ato.

Epílogo é certamente o destaque da edição. Um conto noir, recheado de pessoas sem rosto e poucas cores, trazendo uma história com narrativa primorosa e texto que faz o leitor refletir. A arte é deliciosa de se ver e por si só já garante uma experiência ótima com a leitura do one-shot. Todo o texto da história – narração e diálogos – foi minuciosamente bem produzido, criando a vontade de reler Epílogo várias vezes.

Avaliando de forma geral, as três séries deixam óbvias que seus autores ainda estão em processo de evolução, ainda que já consigam cumprir perfeitamente com o necessário para merecerem a atenção inicial de qualquer leitor. Impérios de Vidro e Epílogo, que compartilham o mesmo roteirista, apresentam textos melhor elaborados, em narração e diálogos, o que já pode garantir imediatamente o interesse. Paradigma e Epílogo compartilham o topo em questão de arte, enquanto Ranaway, por almejar pouco neste início, acaba por ser uma aposta tão boa quanto às outras.

HBQ: Seu multiverso de quadrinhos se mostra uma grande iniciativa e um ótimo material pro mercado nacional, mostrando mais uma vez que existem quadrinhistas de qualidade em terra brasilis. Garantindo gêneros e estilos para gostos variados, e com qualidade acima da média, a revista merece seu espaço entre as outras publicações nacionais. Leitura mais que recomendada.

Continuar lendo
Publicidade

Estudante de Geologia e portanto sommelier de RU, leitor voraz de quadrinhos, pretenso escritor, gato polar nas horas vagas e aluno da Escola Mangá Khan de Melodrama.

Comments

Mais em Livros e HQ

To Top