Terror Sagrado, de Frank Miller | Crítica

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Terror Sagrado, de Frank Miller | Crítica

11 de Setembro de 2001 é uma data que ficou marcada para sempre na história da humanidade. Eu lembro que estava em casa quando a tv começou a transmitir, ao vivo, uma das torres do World Trade Center fumaçando. Em seguida, um avião atingiu a segunda torre.

O resto é história.

Um evento dessa magnitude, de efeitos sociais e geopolíticos que se arrastam até hoje, não é esquecido facilmente, principalmente para quem estava no olho do furacão e, de repente, se transformou em um alvo. Imagina o impacto emocional disso!

Só analisando desse ponto de vista para tentar entender o que pode ter acontecido à cabeça de Frank Miller, o já-não-tão-cultuado escritor de quadrinhos, para que ele cometesse uma graphic novel como Terror Sagrado (Panini Books, 30,5 x 23 cm, 120 páginas, capa dura, lombada quadrada, papel couché, R$ 52,00), que chega agora ao Brasil.

Miller anunciou o projeto em 2006 como Holy Terror, Batman (Santo Terror, Batman), resumindo-o como “Batman chutando a bunda da Al-Qaeda”. Seria sua contribuição à guerra ao terror empreendida pelos Estados Unidos depois do 11 de setembro. Na trama, o Morcego enfrentaria terroristas que queriam destruir a cidade. Simples assim.

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Em 2007, com a obra ainda em desenvolvimento, Miller anunciou que o projeto continuava, mas agora sem Batman. Segundo o escritor, o herói não cabia mais no que ele estava trabalhando, e decidiu criar um novo personagem, mais próximo de Dirty Harry do que do super-herói morcegal.

Uma versão mais aceitável conta que a DC deu uma olhada na hq e vetou o uso do Batman, um herói que em todos esses anos de quadrinhos nunca quebrou seu código de honra de não matar. Sem matança, como Miller iria se vingar dos maléficos vilões muçulmanos?

O herói agora se chamava The Fixer (O Censor), o defensor de Empire City. Junto à sua arquiinimiga-amante Gatuna, eles partem com tudo pra cima dos terroristas islâmicos depois que estes explodem várias bombas na cidade. Os vilões ainda tem um plano maior e os heróis correm contra o tempo para impedir.

Pronto. Essa é a história. O Batman genérico e sua inimiga-amante Mulher-Gato genérica, passam 19 páginas trocando tapas e beijos pelos telhados da cidade e são surpreendidos pelos ataques. 46 páginas de enrolação depois, munidos de armamento pesado, começam a explodir cabeças (literalmente), torturar e mutilar terroristas.

Essa porradaria segue por 37 páginas, eles vencem e fim.

Miller, um cara que nos deu obras-primas dos quadrinhos como Ronin, Batman O Cavaleiro das Trevas, a série do Demolidor e Sin City, prova que ficou velho, ranzinza e mais radical politicamente do que demonstrava.

O discurso que a hq passa é a seguinte: o islã é o mal, os EUA são os heróis. Assim, preto no branco. Vilão e mocinho. Essa visão maniqueísta permeia toda a história. Miller defendeu sua hq comparando-a com aquelas dos anos 40, onde o Superman e o Capitão América apareciam dando porrada em Hitler. Santa senilidade, Batman!

pu_holy_terror_084Se por um lado a história é essa porcaria, por outro lado a narrativa gráfica de Miller continua boa. Ele se repete em algumas passagens – parece que estamos revendo cenas da graphic Batman O Cavaleiro das Trevas e da série Sin City – e em outras parece ter desenhado em pé num ônibus lotado, mas no geral agrada. O formato adotado também ajuda, principalmente nas páginas cheias.

Porém, a relação custo-benefício não compensa. Se é prá ver desenho e narrativa legal, procurem nos sebos exemplares de Sin City ou a excelente Ronin (que já devia ter sido relançada) e você ainda ganha roteiros decentes.

Depois de cometer O Cavaleiro das Trevas 2 e destruir o personagem imortal de Will Eisner, The Spirit, naquele troço chamado de filme, Miller colocou o último prego que faltava para fechar seu caixão com Terror Sagrado.

Frank Miller está morto. Longa vida a Frank Miller.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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