O Homem-Aranha morreu porque ficou velho para o século XXI

Livros e HQ

O Homem-Aranha morreu porque ficou velho para o século XXI

Um dos principais problemas dos quadrinhos norte-americanos de super-heróis é que eles ficam velhos. E não falo só dos quadrinhos enquanto narrativa, mas os personagens também vão envelhecendo diante das novas gerações de leitores que vão chegando, cada vez mais exigentes e dispersos diante de um mundo repleto de novidades no campo da comunicação e do entretenimento.

Para os editores, quando um super-herói envelhece é o caos. As vendas caem, a concorrência ocupa o espaço, a editora perde a chance de vender seu produto para Hollywood e ganhar milhões em licenciamento.

O que fazer quando isso acontece?

Simples: cria-se um hype, um evento catastrófico, uma história que mexe com todos os alicerces do personagem, a ponto de causar uma comoção entre os fãs e atrair os não-fãs. Ou então fazem um reboot.

Foi assim quando decidiram matar o Superman ou aleijar o Batman. Tudo não passou de um hype para chamar a atenção da mídia. O produto que sai disso nem sempre é palatável, como a saga da morte e do retorno do Superman. Noutras vezes, dá prá engolir com alguma dificuldade, mas aceitamos porque encontramos pequenas ilhas de diversão no processo, como no caso do Batman.

The Amazing Spider-Man #1Tenho um amigo que defende a seguinte tese: alguns personagens de quadrinhos só funcionam em determinado contexto histórico; quando são jogados num tempo diferente perdem sua força.

Como exemplo, ele cita o Superman: o kryptoniano é a cara dos anos 40/50, um tempo mais inocente, onde havia uma clara distinção nos quadrinhos entre o Bem e o Mal e ele era, realmente, o mais poderoso herói do planeta, dono de uma moral inabalável.

O Superman hoje é anacrônico, é o bom moço perdido num mundo que trolla o bom mocismo. Para os dias de hoje, o herói tem que ser mais sacana, violento e ter uma pitadinha de vilão – Wolverine é um bom exemplo (não é a toa que, depois do surgimento do carcaju, muitos fãs dos X-Men não gostam do Cíclope).

Outro exemplo citado pelo meu amigo é o Homem-Aranha. Tudo aquilo que fez Peter Parker ser o cara nos anos 60/70 hoje em dia soa velho, por isso ele não deveria ter saído da década de 60. Ele poderia ser um coroa aposentado hoje e o legado do Aranha ter passado para seu filho, assim como acontece com o Fantasma, de Lee Falk.

Como eles nunca pensam nisso, preferem soluções mais bizarras, tipo apagar o casamento de Peter e Mary Jane da existência e devolverem seu status aos parâmetros dos anos 60, só que em pleno século XXI. Não satisfeitos com isso, decidem matar o Homem-Aranha original (nem que seja por enquanto) e deixar um dos seus maiores inimigos ocupando seu corpo.

The Amazing Spider-Man #700Antes de continuar, devo dizer que discordo em partes do meu amigo. Acho que o Superman e o Homem-Aranha padecem do mesmo mal: falta de criatividade em suas histórias. Com esses caras não precisavam tentar reinventar a roda, bastava seguir o exemplo dos roteiristas das animações dos anos 90 do Batman e do Superman, que foram inspiradas nas hq’s curtas do Spirit escritas por Will Eisner: FOCO na essência do personagem!

Pois bem. Como já tínhamos falado aqui, Peter Parker não é mais o Homem-Aranha na nova revista regular do herói nos states, que vai se chamar Superior Spider-Man. Ela vai substituir a clássica The Amazing Spider-Man, que termina no número 700. Na trama, um moribundo Doutor Octopus consegue trocar de corpo com Peter Parker – isto é, a mente de Octopus ocupa o corpo de Peter e vice-e-versa.

Na ultima edição The Amazing Spider-Man #700 (porcamente desenhada pelo Humberto Ramos), que vazou para a web dia desses, acontece o inevitável: Octopus começa a pegar a Mary Jane (quando ela descobrir a verdade vai lavar a boca com creolina).

peter_maryjane_700

Não, não era isso: o invevitável é que depois de um violento confronto com o vilão na tentativa de reverter o processo de transferência de mentes, Peter Parker parte dessa para melhor. Mas antes disso acontecer, Octopus, no corpo de Peter, começa a ter flashbacks da vida do Aranha e fica chocado (!) com as perdas que ele teve na sua vida de herói e da grande culpa que carrega por isso. Assim, antes de Parker morrer, Otto Octavius promete a ele que honrará o nome do herói e fará de tudo para ser um Homem-Aranha melhor… um Homem-Aranha Superior! tcharããã!!!!

E assim teremos um Homem-Aranha mais sombrio, violento e ambíguo, já que na verdade ele é um supervilão na pele de um super-herói – todos os ingredientes de um herói pós-moderno.

Depois que você lê uma coisa dessas, fica se perguntando:

Esses caras ainda recebem pagamento para escrever isso?

The Amazing Spider-Man #700 inside_01Ok, é só uma hq, é só um hype, depois o Aranha vai voltar da morte e para seu corpo, encher o Octopus de porrada e ces’t fini!

Aí ele vai voltar a ser o herói de sempre, descolado, liso e azarado, até que as vendas caiam novamente e os editores encomendem uma nova bizarrice para alavancar as vendas.

É como automóvel no Brasil. É mais caro do que em outros países. Mas vende. Sabe porquê? Porque as pessoas compram assim mesmo. Então, essas coisas só acontecem nos quadrinhos de super-heróis porque tem leitores que compram. E depois ficam reclamando. Eu, hein…

 

Licença que vou ali ler a nova edição de One Piece que acabou de chegar.

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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