Y: Um homem num planeta dominado por mulheres.

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Y: Um homem num planeta dominado por mulheres.

Responda rápido: como você se sentiria se ficasse sabendo que é o único homem sobre a face da Terra?

Acredito que seu primeiro pensamento foi: OBA!

Afinal, seria como o paraíso islâmico, né? Um homem jogado no meio de milhões de mulheres (virgens ou não) sedentas por ele.

Mas, pare prá pensar um pouco com a cabeça da razão: será que se isso acontecesse de verdade seria tão prazeroso assim?

Se você ficou na dúvida se seria bom ou não, vou te apresentar um amigo meu: Yorick Brown, o único homem vivo num planeta cujo cromossomo Y foi simplesmente dizimado do planeta. Pergunta prá ele como é viver num mundo repleto de mulheres.

Essa é a trama básica da série em quadrinhos Y: O Último Homem, escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Pia Guerra. A série faz parte do selo Vertigo, da DC Comics e já terminou nos EUA (2002-2008, totalizando 60 edições). Aqui no Brasil, está sendo publicada pela Panini Comics e já está no 8º Volume.

A história começou em 2002, quando uma praga desconhecida matou 99,99% de todos os machos de todas as espécies do planeta. Isso mesmo: todos aqueles que tinham o cromossomo Y morreram de uma hora para outra, incluindo aí espermatozoides e fetos. 29 bilhões de homens morreram. As maiores fortunas do mundo, 99% dos líderes religiosos, praticamente todos os governantes (prefeitos, governadores e presidentes), exércitos inteiros se foram.

A maioria dos pilotos de avião eram homens – imagine então o que aconteceu com as milhares de aeronaves que estavam no ar no momento em que eles morreram. Imaginou? O mundo vira um caos. Fome e violência assolam diversas cidades. A desesperança toma conta das sobreviventes. Afinal, sem o cromossomo Y, toda a vida na Terra está fadada à extinção.

A partir do momento em que o gênero masculino some do planeta, o caos se instala. Nesse sentido, Y: O Último Homem se assemelha a séries como The Walking Dead, cujo tema nunca foi sobre zumbis, e a obras como Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.

O tema que permeia todas essas obras é a natureza humana. De como situações limite trazem à tona o pior das pessoas. No mundo sem homens criado por Vaughan, as mulheres assumem diversos papéis, ora contribuindo para que a humanidade consiga sobreviver, ora simplesmente ferrando com tudo para defender convicções por vezes questionáveis.

Por exemplo: em sua jornada, Yorick encontra grupos de feministas radicais que simplesmente comemoram a extinção do gênero masculino com o argumento que homens eram estrupadores, aproveitadores, violentos, machistas e androcêntricos; grupos de Amazonas, que veneram a deusa Artémis e chegam a mutilar o seio direito para poderem usar melhor armas como arco e flecha e lança; há grupos que se reúnem para pedir perdão e orar pela volta dos homens, fazendo cultos ao redor de monumentos fálicos.

Yorick Brown, um escapista amador e seu macaquinho da raça Capuchinho, Ampulheta, são os únicos sobreviventes. Porque eles não sucumbiram à praga é um dos grandes mistérios da trama. Ao perceber que ele e seu amiguinho são os únicos machos da cidade, vai ao encontro de sua mãe. Depois, outros personagens vão se juntando à trama, mas o trio central é o sobrevivente, a agente federal 355 e a doutora Allison Mann, que tenta descobrir porque os dois sobreviveram para poder encontrar uma cura para a praga.

Yorick, no entanto, tem um objetivo: ir até a Austrália encontrar sua noiva Beth, com quem perdeu contato depois que a praga se instalou. Mas, no decorrer da série, seus planos vão por água a baixo a partir do momento em que ele começa a ser caçado pelo mulherio, seja apenas para uma transa, seja para ser assassinado e assim estabelecer de vez o domínio do sexo feminino no planeta. Excitante, né?

A Panini acabou de lançar a edição 8, Dragões de Quimono, que compila as edições 43 a 48 da série original. Faltam apenas dois volumes para o final da série no Brasil. Neste volume, Yorick, 355 e Allison estão no Japão procurando por Ampulheta, que foi roubado por Toyota, uma ninja contratada por uma misteriosa mulher. Na altura dos acontecimentos, salvar a vida do macaquinho é uma questão de vida e morte para a humanidade.

Y: O Último Homem é genial por vários motivos: o roteiro preciso de Vaughan, a construção perfeita dos personagens, o uso foda de flashbacks para contar mais um pouco sobre os personagens, as reviravoltas da trama, a arte de Pia Guerra, o clima de tensão crescente, as discussões levantadas sobre machismo, feminismo, política, comportamento e religião…

Vaughan é um escritor de mão cheia que escreveu a belíssima Os Leões de Bagdá e também muito foda série Ex-Machina, duas leituras obrigatórias para quem gosta de boas histórias e tramas que fogem do comum.

Além disso, Yorick é o nerd por excelência. As histórias são cheias de referências pop que o personagem vai soltando em diálogos divertidos, nem sempre compreendidos pelos seus interlocutores.

Hollywood já comprou os direitos para fazer uma adaptação, claro, mas o filme está em desenvolvimento desde 2004. Na boa, essa história caberia mais numa série de televisão, nos moldes de The Walking Dead.

Bem, depois de ler tudo isso, refaço a pergunta do começo: e aí, você queria ser o único homem numa Terra cheia de mulheres?

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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