Daft Punk – Random Acess Memories: Porquê modernizar o passado é uma evolução

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Daft Punk – Random Acess Memories: Porquê modernizar o passado é uma evolução

Quando escutei pela primeira vez “Around the World” lembro que pensei: “porra, taí uma música eletrônica digna do nome”. Depois me intriguei com o nome da banda: Daft Punk. Peraí, como assim, punk?

Depois veio “Da Funk” e “Alive”. Pronto. Daft Punk já era a minha banda preferida de e-music dos anos 1990.

A partir daí, acompanhei com atenção a carreira de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, os humanos por trás das máscaras metálicas da banda. “One More Time” tocou em loop durante semanas no meu mp3 e a trilha de Tron – O Legado é uma das poucas coisas boas do filme.

Depois de dois anos sem gravar (a trilha sonora de Tron é de 2010), a dupla francesa anunciou que estava produzindo um disco que iria homenagear as origens da música eletrônica. Eles fizeram. E eles conseguiram.

Random Acess Memories (Columbia, 74 minutos) é um belíssimo resgate da sonoridade da era disco dos anos 1970, com Bangalter e Homem-Cristo mostrando suas influências seminais e, no processo, homenageando grandes e importantes figuras da e-music e da disco music: Giorgio Moroder, Nile Rodgers e Paul Williams.

Surpreende a coragem da dupla em fazer um disco mais orgânico, com guitarra, baixo, bateria, sopros e cordas somados às programações eletrônicas habituais. No fim, a junção desses elementos resulta numa modernização do estilo setentista – e não um retrocesso para a banda, como li em algumas resenhas pelas webs.

A primeira faixa do álbum já dá uma pista do que vem pela frente. Give Life Back to Music empolga logo de cara, mas quando a guitarra rítmica de Nile Rodgers entra na brincadeira a coisa fica séria. Rodgers é um mestre no estilo e ecos de sua antiga e clássica banda Chic ecoam, trazendo memórias. Além disso, a letra é um apelo: devolvam a vida à música. Entendedores entenderão.

Rodgers também participa de outras faixas, como Lose Yourself to Dance e Get Lucky que tem a participação de Pharrell Williams, convidando todo mundo para dançar com sua voz em falsete (e o vocoder repetindo em loop “C’mon C’mon C’mon”).

Outra participação foda é a de Giorgio Moroder, o cara que praticamente inventou a dance music ao encher de toneladas de sintetizadores a disco music setentista. Moroder, para quem não conhece, é um compositor e produtor italiano que moldou o som de gente como Donna Summer (I Feel Love), além de ter feito trilha sonora de filmes como O Expresso da Meia-Noite, Top Gun, Flashdance e A História Sem Fim e Scarface, entre outros; Moroder também colaborou na trilha do game GTA: Liberty City Stories. Em carreira solo, um de seus maiores sucessos é From Here To Eternity.

Na faixa, Giorgio Moroder conta um pouco de sua história e de como chegou à música eletrônica. Giorgio By Moroder tem sintetizador, baixo, bateria, guitarra e é simplesmente épica.

Outra participação marcante é do cantor, compositor e ator Paul Williams, que compôs Touch (que tem um arranjo de metais primoroso) e Beyond, as duas melhores letras do àlbum.

Julian Casablancas, dos Strokes, dá o ar da graça no vocal de Instant Crush.

Com RAM, o Daft Punk volta à cena musical com ousadia ao revisitar o rico (e às vezes subvalorizado) baú da disco music. Um dos maiores legados desse experimento será o de mostrar aos jovens como tudo começou – e digo por experiência própria: meus filhos estão ouvindo sem parar e já se interessaram em conhecer o Moroder e Chic de Nile Rodgers.

Fica a curiosidade: como o disco vai influenciar a música eletrônica dançante atual? Como ficarão os remixes? O que Homem-Christo e Bangalter vão aprontar para o sucessor de RAM?

Enquanto essas respostas não chegam:

Everybody dancing on the floor
Can’t do any more anymore
Everybody on the floor
Yeah, come on!

Nota: 10

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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