LIMBO: impressões sobre o novo disco da banda Rua

Música

LIMBO: impressões sobre o novo disco da banda Rua

No momento em que escrevo o termômetro registra 37,5° de febre no meu corpo. Quando comecei a primeira audição do disco Limbo, da banda Rua, minha temperatura estava normal. Ao rodar o disco e finalizar minha primeira escuta, o álbum reiniciou automaticamente, reprisando a música “Febril”, título sugestivo da música que abre um dos melhores discos de trip rock / post rock que já escutei.

Esse parágrafo inicial não é uma metáfora, nem força sensacionalista de linguagem. O novo disco da Rua realmente afetou o aquecimento interno do meu corpo. Mas não a febre incômoda dessas que deixam o camarada molenga de dengue; é daquela febre sutil depois de uma elevação de 0,5° no corpo: uma sensação quase indescritível de prazer.

A Rua é a banda que mais admiro na música pernambucana nessa última década. Desde antes do lançamento do primeiro disco, Do Absurdo, nos idos de 2011, me tornei um admirador profundo não só da música da banda, que se completa com a poesia das letras, mas também das figuras pessoais dos integrantes e suas formas particulares de lidar com a arte, de trabalhar música não apenas como “canções”, mas como realização das potencialidades humanas.

LIMBO _ LIana. Foto: Gabriel Santana

Sobre o CD Limbo:

Agora me chegou o Limbo e superou todas as expectativas que tinha para o lançamento do disco. Já conhecia algumas músicas através do SoundCloud da banda (é possível escutar todo o disco Do Absurdo lá) e das apresentações que fizeram nos últimos meses. Agora pude ouvir integralmente e entender o corpo completo da obra. Diria no mínimo que é um disco imprescindível de ser ouvido – aliás, mais que ouvido, escutado.

A obra tem uma poética reveladora do caos urbano e individual do tempo em que vivemos. Máquinas sonham, a intuição funcionária impera, as canções românticas são vazias de amor e a imaginação se torna uma mercadoria. Em “programa”, que considero uma espécie de “Bolero pós-moderno de Ravel” pela sua bateria de compasso épico, essa poética da urbanidade programada pelos sentidos pré-fabricados salta aos ouvidos.

Nada em mim é eterno … nada em mim o Eterno

Foto: Hugo Sá

Cada música tem uma potencialidade muito própria, dentro de um mar de significados múltiplos que atingem uma certa unidade entre a sonoridade e as vozes heterofônicas. Tudo soa agradável, mas incrivelmente desconcertante. É um disco inquietante, mas um concerto que desconcerta o comodismo quando convida o ouvinte a escutar, e escutar de novo, e escutar mais uma vez… e revela sempre algum novo traço, algum vestígio antes imperceptível.

O som da Rua não me parece desprovido de política. Quando soa o verso “O espaço é tudo o que precisa“, está colocada uma questão profunda sobre discussões acerca da ambientes de exibição e criação de arte. A imprensa pernambucana e nacional, há anos caça uma possível “cena musical” na cidade do Recife – ainda mais por estar escorada na mitologia do Manguebeat como movimento. Mas a Rua parece buscar uma outra visão, mais política e essencialmente geográfica: mais do que estética, espaços, espaços e locais para que a música flua.

Foto: André Raboni

Talvez nos falte mais espaços do que música – e essa provocação eu faço às habituais panelinhas de figuras que se empenham não em produzir geografia, mas em limitar geografias estéticas (o velho “entre nós”), porque buscam a estética da ordem, uma ordem que fecha em si, e não uma geografia que abre portas, avenidas, que abra ruas e espanda a produção e a circulação da arte.

E isso tudo é um programa, danoso, e não é um simples acaso da espiritualidade mangueboy…

O novo álbum, os integrantes e lançamento:

O álbum conta com a participação de Lenine na faixa “Caverna”, a sexta do disco. Limbo também tem a participação de Bruno Giorgi (que foi indicado ao Grammy Latino em 2011 na categoria Melhor Engenharia de Som). Além de gravar voz, guitarra e rodhes em várias faixas, Giorgi também trabalhou o álbum em estúdio, fazendo mixagem e masterização. A gravação do disco foi realizada por Diogo Guedes. Limbo ainda contou com participações do vocalista Jr. Black e do pianista Glauco Segundo.

A qualidade de gravação, o cuidado com os timbres, com os arranjos, com os efeitos e a poesia do cantor e compositor Caio Lima fazem do Limbo um baita disco – muito impressionante. O amadurecimento das composições e da sonoridade entre Do Absurdo e o Limbo são bastante perceptíveis, resultado de mais de dois anos estudando e trabalhando minuciosamente cada compass, cada verso da obra.

Limbo resguarda o minimalismo emblemático que marcou o disco Do Absurdo, mas vai muito mais longe em vários aspectos, totalizando uma sonoridade mais pesada, com uma pegada mais trip rock até a sexta faixa e entrando com agudez no post rock a partir de “Palavra” – sétima música das nove que formam esse disco, que já surge memorável para os meus sentidos.

Previsto pra ser lançado agora, no dia 08 de agosto de 2014, além de um grande trabalho musical, Limbo também terá uma manufatura mais bem elaborada de sua parte gráfica, projetada por Thiago Liberdade, com fotografia de Flora Pimentel, intervenções de Rodrigo Acioli Peixoto e Tiago Acioli Peixoto em cima das fotos, com Cyro Morais e Renata Vieira estando como modelos.

A RUA é formada por seis instrumentistas/compositores: Caio Lima (Voz e Guitarra), Hugo Medeiros (Bateria e Marimba de vidro), Nelson Brederode (Cavaquinho) e Yuri Pimentel (Contrabaixo e Sintetizador), Diogo Guedes (Guitarra e texturas) e Bruno Giorgi (Texturas).

rua

Acompanhe a banda e o lançamento digital de Limbo a partir desta sexta-feira no site da RUA. O disco está disponível para download no site.

► www.ruadoabsurdo.com.br

► www.facebook.com/absurdarua

As fotos em branco e preto são de Gabriel Santana e Hugo Sá, respectivamente. A foto da avenida é de André Raboni.

ATUALIZAÇÃO:
Todas as músicas do Limbo já podem ser escutadas, logo abaixo.

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blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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