Do Cordel do Fogo Encantado para si mesmo: o novo disco de Lirinha

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Do Cordel do Fogo Encantado para si mesmo: o novo disco de Lirinha

Uma coisa que não se pode dizer sobre o novo disco de Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) é que se trata de um álbum mal produzido. Está longe de ser mal produzido – o que seria difícil de imaginar, já que assina a produção do disco ninguém menos que Pupillo da Nação Zumbi, que já tem vários trabalhos de produção de discos em sua carreira, como a co-produção de Condom Black (Otto, 2001), e os discos O Outro Mundo de Manuela Rosário, da banda Mundo Livre S/A (que citei aqui no Geek Café há uns dias). Além disso, Pupillo também co-produziu o disco mais recente de Otto, o excelente Certa manhã acordei de sonhos intranquilos – 2009.

Outra coisa que se deve falar sobre o album "Lira" é que se trata de um disco frequentado em várias músicas por artistas considerados, do naipe de Lula Côrtes (em sua última gravação em estúdio), Ângela Rô Rô, Otto, Maestro Forró, Fernando Catatau, e outros. Sem falar no grande power-trio que Lirinha ajuntou pra fazer esse seu primeiro trabalho depois do Cordel do Fogo Encantado: Pupillo (Bateria, Nação Zumbi), Bactéria (Baixo, ex-Mundo Livre) e Neilton (Guitarra, Devotos).

Mas então, coloquei todas essas informações enciclopédicas no início do texto não por acaso, coloquei com o proposito de demonstrar que gostar do disco me exigiu mais de uma audição. Na verdade, várias, porque sempre tive essa meio que monomania de escutar repetidas e repetidas vezes um mesmo disco recém-conhecido para poder chegar a ele…

Engraçado é que com esse disco aconteceu uma coisa muito pessoal e acidental: quando baixei o disco e coloquei para ouvir, o danado do botão de ordem aleatória estava acionado (mas com quem é que nunca aconteceu essa incontinência sacana?!?…) e me fez escutá-lo numa ordem que não me permitiu ver que a primeira canção do disco era das melhores e mais cativantes de toda a obra:

Ah, se não fosse o amor…

No meu gosto pessoal, não é um disco que me agradou muito, apesar de ser inegável sua qualidade de produção. Mas eu diria que se trata de um álbum difícil. Não que seja difícil escutá-lo, porque "escutar" de tudo é muito fácil, e a se tirar pela enormidade de porcaria que surge todo dia por aí, difícil mesmo é Ouvir… e ainda mais difícil é ouvir algo novo e e com boa qualidade de composição e produção.

Só que mais difícil ainda do que ouvir, é buscar por uma compreensão daquele objeto como um todo: uma compreensão daquele objeto-disco como uma obra de arte.

Foi só depois de algumas audições que consegui enxergar aquela discreta, individual e lírica poesia do novo disco de Lirinha. À medida que se ouve o álbum, se vai sendo cativado, e esse se parece um movimento natural pra quem estava ~acostumado~ com o Lirinha do Cordel do Fogo Encantado, e que agora bate de frente com um outro Lirinha, um que deixou de guardar o silêncio:

"Eu tenho um amor que só me vem em sonho
Quando abro os olhos ele desaparece
Eu tenho um amor que não me deixa dormir
Quando eu durmo ele dança
Eu tenho um amor que não me deixa dormir
E eu não quero mais guardar silêncio"

Se trata de um disco difícil de ser atingido por ter em seu conteúdo uma poética que cobra, daquele quem ouve, um entendimento de quem lê uma obra literária de boa poesia – Lira tem daquelas poesias que acendem o espírito-das-aventuras de qualquer indivíduo dessa nossa pós-modernidade, com seus pós-conceitos, seus desertos, suas solidões, além de suas individualidades, melancolias e seus trompetes.

"Eu lembro da fotografia
Brincando na neve em dublin
O mesmo sorriso
A mesma melancolia
E num telefone outro dia
Gargalhadas no bar em sofia
O mesmo desprezo
A mesma ironia"

Então, antes de sentenciar se é um "bom" ou "mal" disco, prefiro dizer que se trata de uma obra a ser ouvida, indispensável para quem busca compreender o processo de produção musical não só de Pernambuco, mas do Brasil todo.

Avalie o disco por si mesmo: faça o download do disco no site de Lirinha e boa semana pós-carnavalesca!

Lira

blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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