Magia e felicidade na música: da Cítara ao Hang

Música

Magia e felicidade na música: da Cítara ao Hang

Cerca de dois anos atrás uma amiga polonesa que estudava história da arte na Alemanha veio ao Recife cursar algumas disciplinas aqui na UFPE. Por ordem dos destinos ela alugou um quarto aqui no meu ap. Como todo encontro de culturas distintas, trocamos experiências bastante interessantes. Além de exímia fotógrafa, ela também era apreciadora de música e me apresentou um instrumento que me fez ampliar um desejo de infância: sempre sonhei em ter uma cítara indiana até que conheci o Hang.

Desde então o Hang é o instrumento musical dos meus sonhos de consumo – ainda que eu preserve até hoje uma vontade danada de ter a tal da cítara… E no vídeo abaixo, Prasanna dá uma bela demonstração desse timbre que minha percepção vê como algo transcendente e mágico: aí vai uma poção de mana musical oriental:

Um filósofo e crítico alemão da escola de Frankfurt chamado Walter Benjamin disse que entre as experiências que as crianças têm da vida e do mundo, uma delas é a de que os adultos são incapazes de magia. Gosto muito dos escritos de Benjamin, e recolho essa citação de um texto de Giorgio Agamben, num belo escrito intitulado Magia e Felicidade (do livro "Profanações"). Nesse texto, diz Agamben:

"É provável, aliás, que a invencível tristeza que às vezes toma conta das crianças nasça precisamente dessa consciência de não serem capazes de magia. O que podemos alcançar por nossos méritos e esforço não pode nos tornar realmente felizes. Só a magia pode fazê-lo."

Não somos capazes de fazer magia (será?…), mas notem como lutamos para conseguir experiências que nos aproximam do mágico: gostamos de histórias em quadrinhos, por exemplo, onde nossos heróis muitas vezes são dotados de poderes mágicos e fazemos cosplay. Às vezes "viajamos" nos livros ou nos games, ou ainda, jogamos RGP e nos transportamos para a alma daquele bardo, daquele paladino ou daquele bárbaro que construímos cuidadosa e longamente para jogar.

O fato é que conseguimos ter muito prazer nessas emulações da magia. Talvez isso se explique porque sem aquele toque de mágica que falei, podemos até vislumbrar momentâneos de alegria, mas felicidade no sentido mais profundo do termo, essa surge em nossas vidas quando experimentamos instantes que nos fazem ir além do que permitem os limites do humano.

Na música, por exemplo, desde pivete busco conhecer novos timbres de instrumentos que toquem no mais infantil dos meus instintos, que é esse meu desejo incontrolável de fazer magia sonora. Completando a passagem anterior do texto de Agamben, ele escreve uma citação curiosa de um gênio da música do século 18, chamado Mozart:

"… Só a magia pode fazê-lo. Isso não passou despercebido ao gênio infantil de Mozart, que, em certa carta a Bullinger, vislumbrou com precisão a secreta solidariedade entre magia e felicidade: "Viver bem e viver feliz são duas coisas diferentes, e a segunda, sem alguma magia, certamente não me tocará. Para isso, deveria acontecer algo verdadeiramente fora do natural".

Tenho um desejo pessoal constante de descobrir instrumentos musicais com poderes mágicos. Um dia foi a flauta doce. Noutros tempos a cítara. E desde que aquela minha amiga polonesa me apresentou o Hang, é nele que consiste para mim a sonoridade dos poderes mágicos do metal de percussão.

Trago abaixo uma poção de mana do Hang. Uma demonstração de Dante Bucci, executando a música Fanfare com um PANArt Hang. Essa pílula de vídeo me deixa extremamente feliz, e a ouço repetidas vezes. 

Espero que gostem também dessa sonoridade.

E quem conhecer outros instrumentos desses exóticos, manda aí nos comentários que nós aqui do Geek Café vamos ficar ainda mais felizes nesta semana que principia!

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blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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