O primeiro disco do Gentle Giant, o gigante na corte do Rock Progressivo

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O primeiro disco do Gentle Giant, o gigante na corte do Rock Progressivo

Gentle Giant é uma banda inglesa que sempre consta nas principais relações do Rock Progressivo. Isso não é por acaso e vocês vão ter que concordar comigo – e se discordarem, tanto melhor, que não há vida nessa sociedade caótica de meus deuses que viva sem a discordância, concorda?!

(Pergunta melindrosa e com resposta pronta dessas retóricas que precisaríamos invocar um Wittgenstein ou um Merleau Ponty pra se debruçar… Mas deixemos a linguística por aqui e vamos em frente que atrás vem gente!)

Nas prateleiras das mais célebres bandas do Rock Progressivo (ou Rock Sinfônico, como alguns preferem), temos King Crimson, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson, Lake & Palmer e, claro, Gentle Giant – e algumas outras que mereciam ser citadas, mas não serão. Todas elas têm minha admiração, mas é sobre o primeiro álbum do Giant que vamos mergulhar por enquanto.

O Giant lançou seu primeiro disco em 1970. Antes disso, os três irmãos Shulman (Derek, Phil e Ray) formaram em 1966 a banda chamada Simon Dupree and the Big Sound e chegaram até a emplacar uma música entre as 10 mais das paradas de sucesso da Inglaterra. A música se chama “Kites”, e nela percebemos aquele tom rhythm & blues, pop e psicodélico até mesmo com cara de The Doors, acreditem só depois de ver e ouvir:

Mas aí os irmãos Shulman deixaram de lado a Simon Dupree em 1969, ano em que o King Crimson lançou o mais bem acabado disco de Rock Progressivo até então – disco que na verdade estamparia de forma definitiva a cena inglesa e europeia do Rock Prog. Estou falando do excepcional álbum In The Court Of The king Crimson, lançado no verão inglês de 1969, depois do show histórico no Hyde Park, em Londres, quando o Crimson abriu um show memorável dos Rolling Stones neste parque – evento gratuito e organizado pelo próprio Stone.

Este disco do Crimson foi extremamente decisivo na história do Progressivo, porque, ainda que em março de 69 o Genesis tenha lançado seu primeiro álbum (From Genesis To Revelations), e o Yes também tenha lançado seu primeiro disco (Yes), estes ainda são discos que, embora tenham bastante rock na veia, não estão naquela mesma vibe que o Genesis e o Yes iriam entrar em 1970. É depois do In The Court que a cena do Progressivo se funda de forma definitiva.

Digamos que 1969 é o ano de arranjo de um Rock Prog que viria a se definir em 1970, ano em que o Yes lança um segundo e excelente disco (Time And Word), o Genesis lança também seu segundo e fantástico disco (Trespass), o King Crimson lança o In The Wake Of Poseidon e o Gentle Giant lança um discaço chamado… Gentle Giant – que ainda não seria o disco que definiria a carreira do Giant, mas que desde o início já deixava demarcado seu território.

Cada um desses álbuns que falei daria um post próprio – e darão num futuro breve. Mas agora é a vez de explorar o álbum de estreia do Gigante Gentil, que tem o mesmo nome da banda (Gentle Giante) – mania comum nas bandas nascentes dessa época, de chamar seus discos iniciais com o nome da própria banda.

O primeiro álbum do Gentle Giant já abre com um progressivo da melhor qualidade. A música se chama Giant, e na letra os caras já se anunciam assim: “O nascimento de uma realização / O surgimento de uma grande expectativa”.

Confere esse sonzaço:

The birth of a realization / The rise of a high expectation;
Emerging successful, defiant / Together the parts make a Giant.
See the world in the palm of his hand,
Striding steps that will cover the land.
He is coming; Hear him coming;
Are you ready / For his being?
See the Giant / Feel the Giant / Touch the Giant
Hear the Giant

Esse é a primeira música do primeiro álbum do Gentle Giant, que como vocês ouviram, já abre as portas dos anos 70 com as duas pernas de gigantes que lhe são próprias. Essa música é a que mais define, neste disco, o que virá a ser o Giant nos anos seguintes.

Com um riff de baixo e guitarra incorporados perfeitamente no vocal vigoroso de Dereck Shulman, e com o tecladista da banda, Kerry Minnear, injetando na música toda a profundidade de um mellotron pesadíssimo, aí é que se forma esse rock grandioso que abre a carreira brilhante que o Giant viria a percorrer – a ponto de se tornar a banda cuja apresentação ao vivo era elogiada como a mais bem executada entre todas as bandas de progressivo.

A segunda música do primeiro disco do Gentle Giant tem algo que me intriga…

Se vocês conhecem o Pink Floyd, especialmente a música Welcome To The Machine, entenderão do que estou falando que me intriga. Sabem aquele riff de violão 12 cordas entoado pela música do Floyd, que machuca de tão bonito? Esse riff mesmo: aquele acorde belíssimo chamado Mi menor com nona….

Vocês vão escutá-lo de uma forma bastante perceptível nessa canção do Giant – chamada Funny Ways. Com um detalhe: Funny Ways foi gravada em 1970, e Welcome To The Machine é de 1975 (do disco Wish You Were Here). Alguns poderiam dizer que é um plágio, mas não se trata de um plágio tecnicamente falando, então vamos ouvir a música como a abertura de um platô…

I’m sorry to have been so much of a bore
But in my own funny ways I find I learn much more.
I realise what you think from your eyes,
But in your own funny ways I find I learn much more.

My ways are strange / They’ll never change / They stay, strange ways

Além de uma letra que merecia um post próprio, Funny Ways abre um arranjo de cordas marcante, antes de fazer uma incursão regressiva no rock psicodélico dos anos anteriores – inclusive o timbre desse solo de Funny Ways a partir dos 2m45seg. tem um timbre semelhante ao solo de The End (do Beatles), que por sua vez tem uma sonoridade bem próxima dos Rolling Stones, resgatando aquele velho rhythm & blues dos anos anteriores da Simon Dupree, misturado com alguns elementos do Rock Psicodélico pós-1967…

E aí é que Funny Ways volta com o verso “And so you see what happened to me”… (então tu vês o que aconteceu comigo), e então acontece a primeira inserção de um breve e estranho riff de teclado que durante o álbum todo vai aparecer outras misteriosas vezes…

Para além da poética letra de Funny Ways, a terceira música do álbum, chamada Alucard, é um rock agressivo e com um reflexo bastante nítido da influência que o King Crimson causou naquela primeira geração do Rock Prog, principalmente com a sonoridade distorcida da música que abre o In The Court, o peso de 21st Century Schizoid Man.

Ouve aí a sonzeira de Alucard – que você ainda não percebeu, mas é Dracula escrito ao contrário…:

Alucard é cheia de sintetizadores, como você pode ouvir. Além dos riffs pesados desse rock que anuncia o que viria no futuro dos anos 70 e 80. Com sua letra lúgubre, Alucard abre uma conjunção entre o Progressivo e o Psicodélico, que mereceria uma análise particular.

E depois de Alucard, surge neste primeiro disco do Giant a beleza admirável da canção Isn’t it Quiet and Cold

“Não está silencioso e frio demais para andar sozinho, sozinho?
– O que aconteceu é que eu perdi o ônibus e tive que caminhar, sozinho.”

Estou com preguiça de pesquisar agora o lugar, mas li em algum canto que essa animação foi criada na década de 1990, para a música que foi gravada em 1970. Isn’t it Quiet and Cold traz dentro si algumas referências de canções dos Beatles, como Blackbird e outras músicas do White Album, além daquele tom erudito da canção She’s Leaving Home (do disco Sgt. Pepper’s – 1967) – inclusive me dá até a impressão de que esta música pode ser lida como o momento solitário em que a garota dos Beatles deixa o lar e vai-se embora…

Com o fim de Isn’t it Quiet and Cold começa a música Nothing To All, que já de início traz um dedilhado de violão 12 cordas que se assemelha com som de Lucy and Sky with Diamond (Beatles), mas com uma melodia mais particular e que depois vai se incorporar a um riff naqueles timbres do Tony Iommi, do Black Sabbath… E depois a música entra num clima mais blues, para então chegar num arranjo bem psicodélico e experimental desse álbum.

Impressão minha, mas a letra de Nothing To All parece mesmo feita pra garota de She’s Leaving Home

Now she sits by the riverside
Watching the waters glide by,
With a sigh
And the things she put faith in
Are ripples just waving her by
With a sigh
She sees lovers pass by with much more than a kiss
Ah this – little girl who had everything finds she’s nothing at all

Terminando Nothing To All, o disco resgata na música Why Not?, aquele tom pesado que trouxe no início do álbum com a música Giant, e coloca de novo a sonoridade entre o rock and roll psicodélico na roda e aquela sacada blues – que acaba por ser “superada” pela mesma grandiosidade do progressivo que vai conduzir outros discos da banda.

Ouça Why Not? pra entender melhor…

Depois do peso de Why Not?, vem a curta e instrumental The Queen, que parece brincar de forma bem-humorada com algumas tradições nacionalistas inglesas de canções que se tornaram hinos do país. Ouça aí pra ver como se finaliza esse primeiro disco do Giant:

Só depois desse primeiro álbum é que o Gentle Giant vai entrar com mais força nas letras inspiradas nos livros renascentista de François Rabelais – que narram as histórias de Gargantua e Pantagruel.

Já na primeira música do segundo disco da banda, uma canção dedicada a um personagem fundamental dos livros de Rabelais, Panurge. A música se chama The Advent Of Panurge, e você vai ouvindo aí até que o Geek Café traga um próximo post sobre os discos do Gentle Giant…

blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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