Paul McCartney desperta amor e ódio no Recife. Ou, todo mundo no limbo

Música

Paul McCartney desperta amor e ódio no Recife. Ou, todo mundo no limbo

O site da revista Rolling Stone publicou um texto de Paulo Terron que despertou a fúria do povo pernambucano. Classificado com congratulações entre os jornalistas que escrevem "em Recife", e não "no Recife", Terron parece ter assistido ao show ao ladinho do jornalista da Folha, Rodrigo Levino, que escreveu um texto em tom semelhante, criticando uma suposta apatia da plateia "recifeana".

Como não fui ao show do sábado (fui no domingo), a impressão que resultou da leitura desses dois textos é que o público no belíssimo estádio do Arruda era o mesmo público apático do show de The Yardbirds (a banda de Jimmy Page, não esqueçam!) no filme Blow-Up – depois daquele beijo, do cineasta italiano Michelangelo Antonioni.

Descontando as ~conversas da plateia barulhenta~ e dimensão do estádio, o show de Paul McCartney segundo a visão de Terron e Levino foi mais ou menos assim:

Provavelmente o momento em que Jeff Beck estoura sua guitarra e a joga para a plateia (ainda na visão dos jornalistas citados) é uma metáfora anacrônica do foguetório estourado durante a música Live and Let Die – pois só neste momento a apatia "recifeana" teria sido quebrada por algum acontecimento…

Oh, Wait!

Misteriosamente a plateia já estava gritando antes do foguetório:

When ya got a job to do Ya got to do it well
You got to give the other fella hell

Muitas vezes temos que mandar os outros pro inferno quando temos um trabalho a ser feito, e, claro, temos que fazê-lo bem direitinho.

E é o que muita gente está fazendo nas internéticas: gritando um retumbante GO TO HELL, Rolling Stone e Folha!

Tem até arte circulando no Facebook dizendo que a turma de Sampa está com ciuminho porque Paul veio pro Recife, e não pra São Paulo ou Rio de Janeiro…

Show de Paul Rolling Stone _ Foto extraida no perfil de Marcus Cavalcanti

Querem saber: ao meu redor, no show do domingo, tinha sim um bocadinho de gente que passou quase o show inteiro de costas pro palco, tirando fotos e glamourizando o compartilhamento no Facebook com as amigues pra que as despeitadas peruas morram de inveja. Tinha um bocadinho de gente em plena cocotagem, sem saber a importância do que estava acontecendo ali em cima do palco. E tinha também um bocadão de gente feliz da vida – que era o meu caso.

Mas sejamos sinceros: será que um tipo de comportamento "Japonês-no-Louvre" só existe em Pernambuco? É claro que não!

Em São Paulo ou no Rio de Janeiro, em Tóquio ou em Nova Iorque, no Louvre ou no Coliseu, sempre haverá pessoas que frequentam eventos e lugares pelo simples glamour de postar no Facebook (naquele albinho chamado "Momentos") essas fotos que olham pra lente (na verdade, olham com pura vaidade para quem está atrás do monitor) mas que dão as costas para shows, monumentos e cidades admiráveis. Ou seja: não vivem o lugar, vivem os likes dos amigos na Rede Social.

Na minha visão, Paul McCartney colocou todo mundo no limbo: imprensa e bairristas.

A mídia do sudeste que publica textos sem conteúdo sobre o show (para além da polêmica regional, convenhamos que os textos são medíocres…), passando uma imagem completamente distorcida e limitada do evento – o tipo de texto que não é publicado quando a pauta acontece no sudeste. E no limbo está também o público pernambucano, que elege dois jornalistas como Judas, mas parece não ter a capacidade de pensar para fora do estômago e perceber que, sim, apontou estudo que 38,7% dos que ali estavam só sabiam cantar Na, na na na na na, na na na, Hey Jude.

Mas e daí?!

O show foi bonito. Cenas emocionantes não faltaram. Gente dançando. Gente cantando e… gente cocotando também, como em qualquer outro lugar desse mundo de aparências e consumismo fútil que vivemos.

É tolice tomar tantas dores e exalar tanto ódio em casos como esse, e se resignar quando a mesma imprensa informa que o salário dos professores de escolas públicas de Pernambuco está entre os piores do Brasil.

Isso é caçar a vassoura em vez da bruxa.

A indignação que acho justa é contra o conteúdo medíocre das matérias, e se tem uma crítica válida e necessária, é a de que a imprensa do sudeste está pouco se lixando em fazer boas coberturas jornalísticas de eventos que acontecem no Norte-Nordeste (se é por ~ciuminho~ ou por reserva de mercado, ou os dois, ou outra coisa, não sei).

Em suma e com todo respeito: GO TO HELL, EVERYBODY!

Quanto ao show de domingo… essa sim é a parte interessante da história: foi um espetáculo musical dos melhores que já presenciei!

Primeiro porque devo aos Beatles a iniciação da minha paixão pela música. Segundo porque o showzaço do ex-Beatle aconteceu no estádio mais grandioso de Pernambuco. Terceiro porque Paul McCartney (que nunca foi meu Beatle preferido…) tocou lindamente uma das trilhas sonoras da minha existência, a clássica A Day in The Life, que encerra magistralmente o álbum "Sgt. Pepper’s".

Diferentemente do sábado, o show do domingo começou com Paul tocando a canção que abre o lado B do disco "Magical Mystery Tour", a balada Hello, Goodbye.

Pelo que li na excelente matéria de Felipe Mendes, Paul abriu o show da turnê On The Run com a própria música que dá nome ao álbum – que carrega entre suas músicas, clássicos como Strawberry Fields Forever, The Fool on The Hill, Blue Jay Way, Penny Lane, I am The Walrus e All You Need is Love.

Mas não foi um "show dos Beatles" (o que pode ter deixado muita gente morgadinha em alguns momentos da apresentação). Foi um show de Paul McCartney e sua banda.

Aliás, que banda!

Um show praticamente sem pirotecnias, sem floreios e muito som numa aparelhagem regulada de forma a tornar a audição límpida e muito agradável. Mais agradável ainda com a presença de palco do baterista Abe Laboriel Jr, que fez até dancinha e agradou a multidão presente no estádio. Claro que o palco se preenchia ainda mais quando McCartney soltava seus gracejos naquele português endurecido como o futebol inglês, mas que tocou no coração das pessoas quando falou "Terra de Luiz Gonzaga".

Além de Laboriel, estavam lá dando show os excelentes guitarristas Rusty Anderson e Brian Ray – além do tecladista Paul Wickens, que não está na foto abaixo, mas que fez diversas mágicas sonoras nos efeitos do show.

Banda de Paul - Foto: Divulgação. Extraída no Terra

Depois de um setlist que passeou de forma generosa entre as músicas dos Beatles e as músicas da carreira posterior de Paul, o show foi encerrado com a mesma sequência que fecha o último álbum gravado pelos Beatles, o "Abbey Road": Golden Slumbers, Carry that Weight e The End.

And in the end The love you take Is equal to The love you make…

Sem firulas, foi um show grandioso que rendeu três horas de muita música, muito rock and roll e que fez o público deixar o show cantando Hey Jude entre os corredores do Arruda durante a saída da multidão – encantada com mais esta apresentação memorável na cidade.

Que venham outros grandes artistas!

Abaixo a música que Paul infelizmente não tocou no domingo, mas que sintetiza tudo isso: rock and roll e confusão, amor e ódio entre público pernambucano ufanista e jornalistas afetados que só dançam no ar-condicionado…

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PS Geek:

O Geek Café agradece a cortesia da Sky, que nos levou para conferir a apresentação histórica de Paul McCartney, cedeu convites para sortearmos entre os nossos leitores e nos apresentou seu projeto Sky Live.

A ideia do projeto é ampliar a experiência de quem antes só assistia aos shows pela TV e agora tem o pacote completo, graças à SKY. Só neste ano serão mais de 230 shows, 12 turnês e sete festivais. Por ser uma das capitais culturais do país, Recife ainda vai ser palco de muita coisa legal! Para que se tenha uma ideia do que já foi e será patrocinado pelo “SKY Live” além de Paul McCartney: Joe Coker, Michael Bublé, Jennifer Lopez e Noel Gallagher.

Estamos publicando algumas fotos em nossa página no Facebook. Clique aqui para conferir.

blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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