Radiohead para Geek: Paranoid Android em 8 BIT

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Radiohead para Geek: Paranoid Android em 8 BIT

Paranoid Android é o nome da segunda música do Ok Computer, terceiro disco do Radiohead, lançado em 1997. O título da canção remete ao personagem Marvin, de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Marvin é um robozinho criado com um QI bilhões de vezes mais elevado que o de um ser humano, projetado com Personalidade Humana Genuína (PHG) – tecnologia que o torna capaz de ter diversas emoções próprias da humanidade. Mas, embora seja dotado de uma inteligência excepcional, as funções para as quais Marvin foi designado são as mais estúpidas que você imaginar… Essa condição de existência paradoxal termina por fazer de Marvin um robô deprimido.

A letra da música Paranoid Android sugere uma indignação contra a estupidez humana que reduz a inteligência de uma pessoa à execução de funções autômatas como a de um robô insignificante que foi programado para ser apenas “útil” durante sua existência medíocre. "I may be paranoid, but no android", diz uma voz na música que se rebela melancolicamente contra essa condição.

Essa condição autômata, condicionada e disciplinada que esvazia as capacidades dos indivíduos pode resultar em uma série de patologias e fetichismos sociais, como pedofilia, sadismo e esquizofrenia, micro fascismos, traumas, neuroses, obsessões e paranoias, et cetera. Patologias que resultam em comportamentos transtornados, compulsivos, histéricos, hipocrisias e oportunismos. Todos esses sintomas são aproveitados pelas indústrias contemporâneas do consumo fútil, do entretenimento vulgar, da guerra e paz entre Estados e famílias, além, claro, das cerejas deste bolo, as indústrias farmacêuticas e da segurança privada.

O quadro pintado acima é o grotesco de uma sociedade que sublima suas tragédias e seus medos no ato da compra de um caríssimo vestido de grife, ou na aquisição do mais modernoso aparelho celular do semestre. Como disse Mia Couto na sua conferência do Estoril 2011, "há quem tenha medo que o medo acabe". Uma sociedade traumatizada, materialista, egoísta e vaidosa que trapaceia seus próximos para sair com o dente mais brilhante da fotografia RGB…

Como ponto de fuga dessa doentia social, o Geek programa dispositivos de computadores, joga videogames, lê livros fantásticos e histórias em quadrinhos, assiste a filmes e animações futuristas e/ou fantasiosos, cria mundos e personagens de RPG.

RPG

Em síntese, o Geek projeta uma existência em que a derrubada de muros e o rompimento das limitações humanas se colocam como objeto particular de desejo e de estética da vida.

Existem dezenas de histórias sobre o álbum “OK Computer” e a música Paranoid Android (neste fórum existem algumas). Uma delas, talvez a mais conhecida, diz que o disco foi concebido por Thom Yorke depois de uma noitada de muito mal-estar num bar de Los Angeles, quando ele teria se deparado com um bando de oportunistas que estariam ali só pra lhe tirar alguma coisa e lhe sugar as energias. Tempos depois, Thom Yorke deu uma declaração dizendo que naquela noite se sentiu diante de demônios que só queriam lhe sugar a alma.

Num dos momentos dessa noite Thom Yorke se deparou com uma mulher usando um vestido Gucci que ficou histérica quando alguém lhe derramou uns goles de vinho no vestido. Daí haviam surgidos os versos de Paranoid Android:

“Ambition makes you look pretty ugly

Kicking and squealing Gucci little piggy”

(Tradução livre: 
A ambição faz de você uma feiosa. Porquinha da Gucci chutando e se esgoelando). 

É uma letra que cria metáforas da vida medíocre que a nossa sociedade produz como se fosse o suprassumo da existência, mas que acaba se tornando motivo de muita tristeza e depressão no mundo contemporâneo. Uma vida cercada de barreiras morais. Reduzida a funções sociais e castração de sonhos e desejos. Traumas psicológicos e espetáculos midiáticos grotescos.

Uma existência de liberdade para ir às compras com o cartão de crédito. De liberdade pra comer salmão com o garfo (ou palitinho) certo e não falar palavrões à mesa. De liberdade pra cumprir uma ordem absurda dos pais, uma ordem inaceitável do patrão ou uma ordem arbitrária da Justiça. Enfim, uma vida sufocante de liberdade pra ser apenas mais um bem-comportado zero à esquerda no mundo – um indivíduo exemplar no quesito nulidade.

Robin 2

Paranoid Android é um grande e agressivo rock, meio progressivo, meio grunge, e que tem um videoclipe clássico baseado na série animada "Robin", dos cartuns de Magnus Carlsson, com narração de Dave Avellone.

Curtam aí o episódio Frogman, da série de Carlsson:

É com os personagens Robin e seu amigo Ben que o Radiohead vai criar o clipe de Paranoid Android, depois de conversar pessoalmente com Magnus Carlsson sobre a ideia do clipe. O resultado foi essa preciosidade aí:

 

NERD HEAD – BONUS TRACK

Por essa você talvez não esperasse, mas saiba que surgiram de um mês pra cá as primeiras versões 8 BIT de dois discos na íntegra do Radiohead: Kid A (1995), publicado no Youtube em 11 de abril, e Ok Computer (1997) há apenas seis dias – 20 de maio.

As músicas dos discos foram convertidas integralmente na sonoridade dos nossos saudosos Master System e Nintendo. Isso me deu até vontade de ouvir todas as músicas que gostamos em versão 8 Bit…

"You can try the best you can / If you try the best you can"

KID A

OK COMPUTER

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blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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