Breaking Bad – A Química do Mal na Record e o subtítulo que doeu no cérebro!

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Breaking Bad – A Química do Mal na Record e o subtítulo que doeu no cérebro!

Apesar de praticamente não assistir televisão, não consigo ignorar o que acontece na mídia (ainda) mais importante em termos de comunicação de massa. Quando soube que a Rede Record iria transmitir o seriado Breaking Bad (no horário do BBB) não escondi certa satisfação. “Finalmente algo bom nessa televisão porca do Brasil”. A satisfação não foi toda embora, mas uma parte dela se danou correndo pra longe quando vi a tradução tosca que a Record inventou para o seriado.

Breaking Bad – A Química do Mal

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BITCH! É difícil ponderar se esse subtítulo é uma peça de ignorância ou de manipulação moralista cristã, mesmo (exercício mental: não esquecer que a Record pertence à Igreja Universal do Reino do Pastor Macedo). Prefiro a segunda opção, apesar de ainda me esforçar um tanto pra imaginar que isso foi um tipo de “breaking bad” comercial, uma espécie de “facilitação importante para o telespectador brasileiro”. Só que, se a intenção for essa tal “facilitação caridosa”, a coisa acaba degringolando num desastre para o enredo do seriado.

Vejamos. O protagonista da série, Walter White, é um professor de Química numa escola de “ensino médio”, pai de um filho adolescente com paralisia cerebral e que descobre (num momento tenso de dificuldades financeiras) que será pai de mais um bebê, dessa vez uma garotinha. Para piorar ainda mais a situação, Walter é diagnosticado com câncer de pulmão.

Breaking Bad – A Química do Mal_02

Sem dinheiro para fazer o tratamento, infeliz com seu destino depois que se formou e encerrou uma sociedade num laboratório promissor e se tornou um simples professor, Walter decide tomar uma atitude drástica para contornar a situação. Ele vai atrás de um ex-aluno, Jesse Pinkman, que havia se transformado num traficantezinho da cidade. Walter propõe uma parceria a Jesse. Iria usar seus conhecimentos de Química para produzir metanfetamina (o cristal, a droga do momento) e Jesse ficaria responsável por auxiliá-lo na produção e gerenciar a distribuição – cuidar das vendas.

Breaking Bad – A Química do Mal_01O propósito inicial de Walter era juntar dinheiro para deixar uma boa quantia como herança para garantir o futuro de sua família quando chegasse o dia de sua inevitável morte de câncer pulmonar. Um pouco mais pra frente, a produção de drogas também se torna uma maneira necessária para Walter pagar o tratamento para sua doença. A partir dessa decisão primordial do professor, uma série de acontecimentos irão se desencadeando numa linha narrativa onde as ações de Walter são imprescindíveis para manutenção do plano inicial.

Com esse breve resumo do enredo já é possível entender por qual razão o subtítulo da Record é uma catástrofe lógica no sentido da coisa toda. As atitudes que marcam o comportamento dos personagens, tanto Walter, quanto seu parceiro Jesse, se tiradas de contextos são juridica e moralmente configuradas como “males”, porque se enquadram como crimes. Tráfico, assassinatos, roubos, todas as ações são inevitáveis para a manutenção do plano inicial: juntar dinheiro pra família e pagar seu tratamento de câncer. Ou seja, os gestos são de criminosos, porém a intenção é “nobre”, é “boa”, porque se justifica por ser um gesto profundo de amor pela família e pela vida.

É nesse sentido que entendo a expressão “Breaking Bad”, como um equivalente da expressão em português “Mal necessário”. A invenção do subtítulo “a química do mal”, em si mesma, já carrega um absurdo peso moral (cristão) que distorce toda a lógica da narrativa do seriado no momento em que coloca como um “mal” toda a ação feita por Walter com seus conhecimentos de Química, ignorando as relações de contexto das ações.

A série criada por Vince Gilligan (que também foi um dos roteiristas de Arquivo X) tem a característica excepcional de criar um narrativa quase literária, onde uma atitude “má” se torna inevitável por causa da situação que a envolve. Um “bem” maior (a família e a vida) move o protagonista para a realização de atos indispensáveis para a garantia desse “bem maior”. Aí entendo a expressão “mal necessário” como um sentido que se aproxima da lógica narrativa da série – premiada merecidamente como o melhor seriado dramático de 2013 no Globo de Ouro e entrou pro Guinness Book como a melhor série da história!

Sei que foram feitos alguns elogios iniciais ao fato da Record comprar os direitos de exibição de Breaking Bad. Mas, “a química do mal” doeu profundamente nos receptores cerebrais. E não quero nem pensar no que será feito na dublagem…

Breaking_Bad_Bitch

 

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blogueiro, historiador; planejamento digital, coordenação de projetos em mídias sociais; editoração, redação digital e Tricolor do Arruda.

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