Demolidor – 2ª temporada | CRÍTICA

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Demolidor – 2ª temporada | CRÍTICA

Batman V Superman: A Origem da Justiça, filme que estabelece o universo cinematográfico da DC Comics, está batendo recordes de bilheteria enquanto digito este texto – e isso é excelente!

A produção reacendeu o debate sobre as diferenças entre os heróis da Marvel e da DC: desde a trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan e do ressurgimento do Superman com Man of Steel (de Zack Snyder) que os decenautas se vangloriam da seriedade e realismo de seus filmes em comparação com o universo mais colorido e leve da concorrente Marvel.

Eu, particularmente, acho que tem espaço pra todo tipo de abordagem, assim como acontece nos quadrinhos. A Liga da Justiça, por exemplo, já passou por fases muito distintas entre si, que vão da aventura épica que mostra o panteão da DC como deuses (de Grant Morrison) até as hilariantes histórias de Keith Giffen e J. M. DeMatteis, onde podemos ver que os supers também são humanos e tem manias, defeitos e muito bom humor.

Isso também pode (e deve) acontecer no cinema. Definir um estilo único para um universo diversificado como o dos super-heróis é um erro.

Como seus filmes tem um tom mais leve (com exceção de Capitão América 2), a Marvel optou por outra abordagem em suas séries de TV. Primeiro, com Marvel’s Agents of SHIELD, que depois de uma primeira temporada irregular, conseguiu se tornar um diferencial no universo das séries baseadas em quadrinhos por abandonar a estrutura procedural de “super-humano esquisito da semana” e estabelecer sem medo suas relações com o universo cinematográfico da Marvel, além de permitir um desenvolvimento mais orgânico de seus personagens.

Mas, por ser exibida em canal aberto, MAOS tem lá seus limites. Por isso, a parceria com a Netflix foi a grande sacada da Marvel. Com mais liberdade para ousar no roteiro e ter uma abordagem mais adulta, a decisão se mostrou acertada com o sucesso estrondoso da primeira temporada da série do Demolidor e da surpresa que foi Jessica Jones. A coisa foi tão boa que os planos foram alterados e uma segunda temporada do Demônio de Hell’s Kitchen foi rapidamente aprovada e produzida antes das séries do Luke Cage e do Punho de Ferro.

Demolidor – Temporada 2 – Trailer oficial – Netflix

A nova temporada mostra Murdock lutando contra o crime em Hell’s Kitchen, onde o Demolidor é visto como um anjo da guarda. Mais seguro na utilização de suas habilidades especiais, o herói, assim como sua contraparte nos quadrinhos, continua dividido pela sua dupla identidade e pelo dilema de servir à lei durante o dia e à noite ser um herói que conserta os erros do sistema.

Só que sua atuação como Demolidor começa a prejudicar sua atuação como advogado no escritório que mantém com seu sócio e amigo Foggy Nelson e sua assistente (e interesse romântico) Karen Page.

A vida de todos é profundamente afetada com o surgimento de Frank Castle, responsável pelo assassinato brutal de diversos grupos criminosos da cidade, e que termina sendo defendido pela Nelson & Murdock.

Mas esse é apenas um dos arcos da temporada. Ainda temos o retorno de Elektra Natchios, antiga namorada de Matt, que chega à cidade para uma missão. Matt também tem que lidar com a ameaça do Tentáculo, organização liderada por Nobu, que tem interesses misteriosos em Hell’s Kitchen.

Os três arcos são apresentados de maneira orgânica e se entrelaçam no decorrer da temporada, embora a resolução de algumas pontas não seja tão eficiente ao final. Mas os pontos positivos da temporada são muitos e se sobressaem.

O Frank Castle de Jon Bernthal é a melhor encarnação live-action do personagem (mesmo eu gostando do Ray Stevenson em Justiceiro: Zona de Guerra) e sua história de origem nos dá um personagem complexo, redondo, cheio de nuances que são difíceis de desenvolver em um filme de duas horas.

Karen Page (Deborah Ann Woll) rouba a cena com sua perseverança em buscar a verdade dos fatos sobre o que aconteceu a Frank Castle e sua família, ao mesmo tempo em que tenta salvar o escritório de advocacia onde trabalha. Essa determinação termina dando um novo e interessante rumo à personagem.

O coitado do Foggy Nelson (Elden Henson) fica no fogo cruzado das ações noturnas do seu amigo e sócio e do crescente descompromisso com o trabalho do escritório. Foggy é outro personagem que cresce bastante na temporada, tornando-se mais seguro de suas habilidades como advogado. A cena de sua discussão com Matt no banheiro do Fórum é espetacular.

Claire Temple (Rosario Dawson) retorna como a enfermeira dedicada à sua missão de ajudar as pessoas do hospital onde trabalha – e, mais uma vez, termina cruzando com o Demolidor e arriscando a sua vida por isso.

Wilson Fisk, vivido de maneira definitiva por Vincent D’Onofrio, dá as caras rapidamente e eleva o nível da temporada. O Rei do Crime mostra que, mesmo preso, não deve ser considerado carta fora do baralho e planeja, com calma, o seu retorno às ruas e ao antigo ofício. Murdock, Nelson e Page que se cuidem.

Temos a volta de Stick (Scott Glenn), o misterioso mentor de Matt Murdock, que chega à cidade para avisar ao herói que um mal terrível se abateu sobre a cidade e que ele tem de lutar ao seu lado.

A introdução de Elektra Natchios (Elodie Young) é orgânica e desde cedo percebemos que ela e Matt têm uma história. Alguns fãs mais exigentes vão discordar do modo como sua origem foi apresentada na série, mas confesso que isso não me incomodou – continuo levando em consideração que são veículos diferentes e que é uma adaptação, uma tradução do original. Se no início ela destoa um pouco de sua contraparte nos quadrinhos, mais à frente tudo começa a fazer sentido.

A organização Tentáculo e seus ninjas é a oponente do Demolidor na temporada. Sob o comando de Nobu Yoshioka (Peter Shinkoda), que quase retalhou Matt na temporada anterior, eles procuram o lendário Céu Negro, que foi citado na temporada anterior.

Além da atuação certeira dos atores e de continuar acertando em elementos como fotografia, figurino e montagem, a temporada continua a tradição de nos presentear com excelentes cenas de luta e roteiros afiados.

No primeiro caso, temos sequencias impactantes. Se você gostou da luta no corredor da temporada anterior, vai arregalar os olhos com a luta do Demolidor contra uma gangue nas escadas de um prédio. Nota máxima para a coreografia! Além disso, os embates do Demolidor com o Justiceiro são brutais!

No episódio 9 temos outra luta no corredor, só que dessa vez numa penitenciária e envolvendo o Justiceiro contra dezenas de detentos. Tenho certeza que nunca veremos uma cena como essa nas principais franquias cinematográficas da Marvel ou da DC.

Enquanto o Justiceiro e o Demolidor nos dão lutas brutais, Elektra é pura leveza e sensualidade, embora não menos sangrenta. Achei a personagem esquisita nos primeiros episódios, mas depois gostei da abordagem.

E ver Matt enfrentando dezenas de ninjas usando seus sentidos ampliados é como estar lendo uma HQ de Frank Miller. Nunca imaginei que viveria para ver isso em live-action!

Por fim, há outro embate na temporada que é importantíssimo para o universo da série. É curto, mas épico. Não vou falar mais para não estragar a surpresa.

Em termos de história, temos episódios memoráveis. O principal e melhor deles é o terceiro, “Para Servir e Proteger”, que nos mostra um embate ideológico entre Matt e Castle em cima de um telhado, e serve para definir bem os dois personagens. É, praticamente, a transposição de uma HQ similar do Miller. Vi esse duas vezes.

O julgamento do Justiceiro também é outro ponto alto da temporada, assim como o que mostra Wilson Fisk e sua vida na prisão.

Alem disso, vemos a evolução dos poderes de Matt, aproximando mais o personagem de sua versão original dos quadrinhos. E isso é bom.
A temporada nos apresenta pequenos mistérios a serem resolvidos: o que o Tentáculo quer na cidade, quem é o responsável pelo tiroteio que matou a família de Castle, qual a missão de Elektra e qual a relação de Stick com a ninja.

O único porém é que alguns desses plots não são resolvidos de modo satisfatório e mostram resoluções apressadas, como citei mais acima. Parece que os roteiristas perceberam em cima da hora que faltavam dois episódios prá terminar e correram prá fechar as pontas soltas – e mesmo assim deixaram alguns sem respostas, que talvez só sejam respondidas na terceira temporada. E outro foi frustrante.

Mas, no final, a segunda temporada do Demolidor mantém a qualidade e o estilo da primeira e isso é muito bom. Os pequenos deslizes não comprometem o resultado final e, mais uma vez, os produtores arrumaram um problemão para manter o nível na próxima, ainda sem data definida – afinal, a próxima série a estrear é Luke Cage.

Fica agora a expectativa: será que veremos o arco A Queda de Murdock nas telinhas?

Nota: cinco canecas de Irish Coffee

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Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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