Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge: último capítulo fecha com dignidade a saga do Morcego

Cinema

Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge: último capítulo fecha com dignidade a saga do Morcego

No universo dos quadrinhos de super-heróis é comum acontecerem experimentos que tiram os personagens de seu cenário habitual e os jogam em épocas e ambientes diferentes. Na Marvel, esse experimento se chama What if…? (O que aconteceria se…, no Brasil); já a DC tem a linha Elseworlds (no Brasil, Túnel do Tempo).

Batman é um dos personagens que melhor se encaixa nesse tipo de história: já tivemos o morcego no velho oeste, na época dos gangsters, no futuro, no Japão Feudal, no século XIX e por aí vai. O morcego é tão foda que a maioria dessas histórias são boas, mesmo.

Mas porque essa introdução para falar do novo filme do Batman? É que eu, leitor veterano de quadrinhos, sempre vi esse universo do Batman de Nolan como um universo Elseworld, que mostra a visão de Christopher Nolan do que seria o Batman – nesse sentido, a conclusão óbvia é que o Batman de Nolan não é o Batman dos quadrinhos como o conhecemos. E essa visão é boa, muito boa.

Assim como na crítica de Os Vingadores e de O Espetacular Homem-Aranha, o Geek Cafe traz uma fusão da visão de nossos colunistas Murilo Lima (Cinema e Mundo Geek) e Bruno Alves (Histórias em Quadrinhos).

Mas vamos ao que interessa: afinal de contas, o terceiro filme da franquia é bom ou não é? Bem, sim e não.

Como parte de uma história maior, que teve início lá em Batman Begins, o filme é uma digna conclusão para a trilogia. Christopher Nolan conseguiu unir as tramas de Batman Begins e Batman O Cavaleiro das Trevas numa historia fluida, consistente, que fecha um ciclo de modo brilhante e deixa o caminho aberto para que novas histórias possam ser contadas dentro desse universo – ou não, já que a Warner quer mesmo é rebootar tudo pra encaixar o personagem na Liga da Justiça.

A história acontece oito anos depois dos eventos mostrados em O Cavaleiro das Trevas. Depois de sua morte, Harvey Dent virou o herói que Gotham precisava. Assim, para dar o exemplo, foi criada a Lei Dent, que em oito anos praticamente livrou a cidade do crime. Gotham vive dias de paz. Mas essa paz está montada em cima de uma mentira, já que todos acreditam que Dent foi assassinado pelo Batman, assim como vários policiais. O comissário Gordon vive com o peso dessa mentira nas costas e não está nada feliz com o fardo.

Já o herói mascarado sumiu, ninguém nunca mais ouviu falar do Batman. Recluso, um decrépito Bruce Wayne vê os dias passar sem muito ânimo para a vida, enfurnado em sua mansão escura, com suas feridas físicas e emocionais. Ele perdeu a mulher que amava, perdeu a vontade de lutar e a paz que ele tanto queria não lhe trouxe o conforto.

Personagens de Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge

De repente, outros personagens chegam à cidade: uma é a misteriosa Selina Kyle, uma ladra sedutora que faz parte de um plano maior envolvendo Bruce Wayne; outro chega com a tarefa de concluir a missão que Ra’s Al Ghul tentou concretizar em Batman Begins: destruir Gotham. E a mentira que sustenta a paz será usada por ele como uma arma.

Bane é introduzido na trama de maneira azeitada e sua origem é baseada na dos quadrinhos, com pequenas alterações. No entanto, aqui suas motivações são mais verossímeis, já que na saga A Queda do Morcego ele é apenas um cara obcecado em derrotar um homem que nunca viu na vida, a não ser em alucinações.

A partir daí, toda a calmaria vai embora e uma tempestade se abate sobre Gotham, forçando o Batman a sair de seu exílio para salvar a cidade.

Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge é o filme mais “quadrinhos” dos três, com Nolan fazendo algumas concessões ao seu estilo “pé-no-chão-hardcore”. Como nos anteriores, ele usa referências de hq’s como O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller), A Queda do Morcego e Terra de Ninguém. E elas são um prato cheio para os fãs de quadrinhos do morcego, como a cena que mostra o retorno do Batman, que tem um diálogo completo tirado da graphic novel de Frank Miller – assim como a situação de Bruce Wayne no início do filme remete à HQ. Um milésimo do Batman detetive também é mostrado, rapidinho, assim num flash.

As atuações estão dentro do que se esperava. Christian Bale dá um show como Bruce Wayne, principalmente na emocionante cena com Alfred, o sempre competente Michael Caine; o comissário Gordon de Gary Oldman mantém a fidelidade ao personagem (mesmo sendo um tanto subaproveitado no terceiro filme). A surpresa é Anne Hathaway como Selina Kyle: ela conseguiu passar toda a elegância, dissimulação e agilidade da personagem, coisa que não esperávamos. Só faltou o toque de loucura que tínhamos na Mulher Gato de Tim Burton e por isto, foi até melhor chamá-la apenas de Selina Kyle durante todo o filme.

When Gotham is ashes you have my permission to die

Tom Hardy faz um Bane intimidador, inteligente e nada carismático. O ator usa aquela máscara tosca o filme todo, mas consegue passar toda a ruindade do vilão com seu corpo e, principalmente, seus olhos (O Murilo sentiu falta de mais expressão no olhar, mas ele é chato mesmo). A ideia e o tom para a voz dele ficou muito boa,  porém, em virtude de Bane estar 99,99% do filme de máscara, destoou um pouco ao parecer que ele estava sendo dublado ao vivo, em estéreo douby whatever surround, na frente dos outros personagens. Aliás, o som e música de “The Dark Knight Rises” são um caso a parte, uma obra de arte produzida por Hans Zimmer e que merece um post dedicado.

Joseph Gordon-Levitt mantém a qualidade e seu John Blake é um dos melhores personagens do filme, principalmente porque lembra um certo companheiro do morcego que descobriu sua identidade secreta na base da dedução (meio forçada no filme) antes de se tornar Robin.

Marion Cotilliard, uma excelente atriz, está perdida no papel de Miranda Tate. Achamos que nem é culpa dela, talvez seja do roteiro que ficou naquela de esconder demais uma coisa que já estava na cara (e já tinha sido boatado antes do filme estrear). A revelação que daria uma reviravolta na trama aos 45 do segundo tempo soou morna e o destino final da personagem foi patético. Já tem dezenas de gifs animados nas web parodiando a morte da moça. De chorar de rir.

Cyllian Murphy retorna como o Espantalho e sua participação é muito boa como “juiz” da Gotham sitiada.

As cenas de luta do Batman estão mais viscerais, com ângulos mais abertos. O veículo voador é um show à parte e uma das concessões de Nolan ao “fantástico” dos quadrinhos (o tumbler funciona, o batpod também, mas, aquele treco voar? Só na imaginação mesmo!). Aquela batalha campal entre criminosos e policiais que parecia daora nos trailers (no estilo Gangues de Nova York ou Coração Valente) ficou xoxa no resultado final.

O primeiro confronto entre Bane e Batman é excelente

O primeiro confronto entre Bane e Batman é excelente, cru, sem trilha sonora, apenas os ruídos dos golpes e da queda do morcego. A cena de Bane levantando Batman e lascando sua coluna é fidelíssima aos quadrinhos. Esse foi o momento épico do filme (o outro é a sequência do retorno do Bátema, que também é foda!). E para quem está reclamando que o herói se recuperou muito rápido de uma lesão na coluna: é porque vocês não viram como ele se recuperou nos quadrinhos (sim, foi mágica!).

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas…

Enquanto parte de uma trilogia, o filme é ok. Mas olhando-o como um produto isolado, ele é o mais fraco da trilogia. Toda a campanha de marketing, os trailers, spots e o escambau mostravam um filme épico, arrebatador, de te fazer pular da cadeira (aposta do Murilo para "filme do ano", tadinho…). Infelizmente, mesmo estampando um sorriso no rosto ao término da sessão (eu GOSTEI do filme), tocou lá no fundo da minha mente aquela musiquinha de fail: fuén fuén fuén fuéééén.

O didatismo do roteiro (proposital) incomoda um pouco, principalmente no final. Aliás, quantos minutos tem um minuto e meio em Gotham? Deu tempo do herói amarrar a bomba, trocar promessas de amor e beijinho com a mocinha, bater altos papos com o comissário, voar por toda a cidade, chegar em alto-mar e só depois a bomba explodiu. Ok, talvez tenha sido licença poética, homenagem aos filmes da sessão da tarde ou sei lá o que, mas que ficou ruim, ficou.

Um cara como Bane, que tocou o terror o filme todo, morre (?) da maneira mais tosca e covarde possível, assim, num vapt-vupt que não honrou o guerreiro que ele foi. Pois é! Um dos maiores problemas em Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge é o tempo. Faltou timing onde merecia uma exploração maior e sobrou flashbacks, cinepipoca e didatismos onde não devia.

SPOILER!?!² Ok…

Batman morreu ou não? MEU DEUS, pra que mostrar Bruce Wayne? Os sinais foram sendo dados (o batsinal, o conserto do treco voador, as coordenadas da caverna dadas à John Blake) e já estava na cara. Naquela cena final do Alfred em Veneza, bastava ele ter levantado o rosto, olhado e esboçado um leve sorriso. Pronto, ia ficar feito a dúvida do pião de Inception: caiu ou não caiu? Desaprendeu, Nolan?

PORQUE o nome completo de John Blake é ROBIN JOHN BLAKE? O Murilo deu um duplo taquêupariu twist carpado neste momento (WTF em clima de Olimpíadas).

Apesar desses pequenos (?) deslizes, o filme é bom e merece figurar como uma boa tradução do Batman para o cinema, DESDE QUE acompanhado de seus antecessores. Vai ser uma experiência boa assistir aos filmes em sequência quando a trilogia sair juntinha naqueles box maneros e caros que os geeks piram.

Bruno Alves

Bruno Alves é professor, rabisca de vez em quando uns desenhos por aí e tem sempre uma música tocando em off na cabeça, mesmo quando não está usando headphones. E sim, ele gosta dos Titãs.

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