Copa do Mundo e o marco científico de Nicolelis que o Brasil não viu

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Copa do Mundo e o marco científico de Nicolelis que o Brasil não viu

Ontem foi a abertura do Mundial da FIFA de Futebol e enquanto milhares de olhares em todo o mundo se voltavam para o nosso país, começava o Show de Horror da Abertura. Mais cedo a organização do evento havia prometido uma cerimônia mais curta e entre J-Lo, chefes de estado, playback, Claudia Leitte fazendo cosplay de Galinha Pintadinha, falta de brasilidade – que eu nem vou entrar nesse mérito.

Um evento era o mais esperado por uma gama de gente que faz (aos trancos e barrancos) ciência no Brasil e por várias famílias que tem parentes com perda total ou dificuldade de movimentação dos membros do corpo. Talvez muito simples, pra os olhares mais destreinados, que passou desapercebido por muitos que estavam no estádio e por quem assistia a transmissão na TV, o evento foi suprimido e não marcou tanto quanto o gol contra protagonizado pelo jogador brasileiro Marcelo logo no início na partida.

Marcelo-Gol-Contra-Primeiro-Gol

Vejam, eu não sou contra futebol, ontem mesmo eu estava vendo a partida e assisti também a cerimônia de abertura. Mas eu realmente esperava ver ontem o que seria (seria não, porque foi, mesmo sem ter recebido devido valor) um avanço para a neurociência: o Projeto Andar de Novo.

Ontem durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo FIFA 2014 um paraplégico usando um exoesqueleto deu o pontapé inicial (um chute simbólico) para o futuro daqueles que perderam os movimentos dos membros. Nesse projeto, encabeçado pelo neurocientista Miguel Nicolelis (Universidade de Duke, EUA) com sua equipe trabalho, Juliano Pinto, um paraplégico brasileiro de 29 anos, usou um exoesqueleto para dar um chute com seu pé direito usando apenas comandos cerebrais.

Projeto Andar de Novo

Você viu? Se estava assistindo pela maior emissora de TV aberta do país você não viu na hora. Aparentemente pra Rede Globo mostrar a chegada de Neymar e cia ao estádio era mais importante do que mostrar a ciência que está sendo desenvolvida no mundo com um brasileiro (Sim! Um cara que veste a amarelhinha – já que isso é tão importante) à frente do estudo (o que não é surpresa). Se você não conseguiu ver, ou nem sabe do que estou falando, veja a imagem a seguir de Juliano usando o exoesqueleto BRA-Santos Dumont (que vem sendo testado desde de janeiro com pacientes da AACD) durante a abertura do Mundial.

abertura23

Talvez seja pouco e muitos criticaram os pesquisadores dizendo que esperavam mais que os 3 segundos (e a polêmica tá ficando grande). Mas pra quem fez parte do estudo, quem trabalha com ciência (com todas as dificuldades nesse país – eu sei disso por que foi o que eu escolhi fazer) e pra quem perdeu os movimentos é a abertura pra um olhar de esperança de que num futuro, não tão distante, esse tipo de tecnologia possa ser viabilizada e utilizada de uma forma não tão rudimentar (por falta de palavra melhor) para facilitar a vida desses últimos.

Mesmo sabendo que o que foi proposto ocorreu, em parte, no evento me decepciona ver que a ciência ainda é tão negligência. Eu esperava um Itaquerão em silêncio esperando por esse momento e uma sequência de aplausos pelas conquistas desse ramo, como acontece com um gol do Brasil (talvez eu seja sonhadora de mais). Eu esperava uma explicação dos narradores da TV pra que as pessoas em casa/bares/restaurantes entendessem a importância daqueles “simples” três segundos e pudessem refletir sobre o fato. Eu esperava que fosse dado mais valor.

Uma pesquisa que tem um custo estimado de 33 milhões de reais e com cerca de 156 pesquisadores (de 25 países) envolvidos, ainda mais quando um brasileiro esta a frente, deveria ter sido levada mais a sério. É lógico que o foco do evento era a bola rolando no estádio, mas qual o problema em si dar a devida atenção à outros importantes acontecimentos?

Todo dia eu leio nas redes sociais a celebre frase: “Enquanto a bola rola falta saúde e falta escola.“; e me pego à pensar: – É esse o país que quer virar potência mundial?

paraplegico_copa_2014_brasil

Não vou levantar culpados e nem dizer que eu teria feito uma cerimônia de abertura melhor que aquela ‘pataquada’ de 6ª série que rolou ontem, mas ainda assim acordar hoje com o sentimento que o ‘ser pesquisador’ ainda não é levado a sério num país que investiu R$3 bilhões de reais no Ciência sem Fronteiras, pra mandar nossos graduandos e doutorandos pra fora do país pesquisar ciência e tecnologia e trazer de volta pra o Brasil esse conhecimento, é ruim. O acontecimento de ontem, o acontecimento da vida do Juliano (note a emoção dele), devia ser levado mais a sério.

Nicolelis twittou ontem logo em seguida dizendo que conseguiu:

Sim Nicolelis! Você que diz na sua bio dessa mesma rede social: “Cientista, Palmeirense e apaixonado pelo Brasil.”; conseguiu. Você que é filho da USP (Universidade de São Paulo) e tem um currículo Lattes impecável fez sua parte. O que falta agora é que situações como a que aconteceu ontem, onde uma grande quantidade de brasileiros não viu o que você está fazendo porque uma emissora de TV não quis mostrar, pare de acontecer.

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Cantora de ocasião, atriz de televisão, bailarina do Faustão, mas queria saber tocar violão. Sei que, às vezes, sou legal mesmo quando não estou dando mole.

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